"Não deixe que alguém apague sua voz."
"Aprendi sobre a porcentagem de violência contra a mulher. Foi bom, pois descobri casos de violência que eu não sabia que eram."
"Eu já vivenciei bastante isso com minha família. Meu pai, minha mãe."
"Hoje eu aprendi muitas coisas que eu não sabia, coisas para combater e lutar mais ainda, pois a sociedade é cruel."
"Às vezes, o cara acha que só porque é namorada dele ele pode ir lá e fazer o que quiser. E acaba fazendo uma violência sexual."
"É bem comum deixar de pagar pensão, né, tem até bastante pessoa famosa que já foi presa por causa disso."
"Qualquer tipo de violência física já conta, não precisa deixar marca ou machucar bastante."
"Amor não prende. Se machucar, não é amor."
Com falas assim, adolescentes e jovens autores de atos infracionais relacionados à violência de gênero registraram o que já conheciam e o que aprenderam em oficinas destinadas a tentar romper, o mais cedo possível, o ciclo de agressões contra mulheres. O Projeto Chega Disso, da Defensoria Pública do Estado, atende adolescentes e jovens que estão cumprindo medida socioeducativa — de internação ou de semiliberdade — e também os que respondem por violência de gênero e receberam remissão (perdão condicionado a determinadas exigências para que o processo não tenha andamento). Uma das condições é frequentar e concluir as oficinas.
Desde 2025, 294 adolescentes e jovens participaram das atividades dentro da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase). Eles são autores de atos diversos, não só relacionados à violência contra mulheres, mas a introdução do tema é considerada fundamental pela defensoria para reforçar a prevenção. Outros 69 foram encaminhados para remissão: destes, 46 estiveram nas atividades e 28 concluíram as oficinas. Os atos praticados por eles incluem estupro de vulnerável, importunação sexual, divulgação de cenas de sexo, estupro ou pornografia, vias de fato, ameaça, injúria e cárcere privado. Na última quarta-feira (2), houve a formatura de 14 integrantes.
A defensoria tem detectado um aumento expressivo de casos de estupro, o que estaria diretamente associado ao consumo de material pornográfico pelos adolescentes. O tema também foi incluído nas conversas.
— O projeto foi pensado como uma resposta pedagógica específica e adequada para que, assim que tivermos as primeiras manifestações deste tipo de comportamento, possamos estimular esses jovens a refletirem a respeito de uma cultura que é posta, pensando em uma transformação social. O resultado tem sido muito positivo: não tivemos reincidência, e o registro deles nas autoavaliações é de que nunca tinham recebido esse tipo de abordagem e de que consideram que precisam mudar o comportamento — diz a defensora pública Paula Simões Dutra de Oliveira, que dirige o Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente (Nudeca).
As oficinas são conduzidas por psicólogas da defensoria, que usam técnicas variadas para abordar a violência. Zero Hora acompanhou um dos encontros. O primeiro questionamento foi sobre o que sabiam sobre a violência contra a mulher:
"Tá aumentando cada vez mais, vi no jornal que tinha vinte e poucos (feminicídios)".
"É a violência que o homem faz quando não aceita alguma coisa".
— Vocês acham que a violência contra a mulher é uma coisa de agora?— instiga uma das psicólogas.
"Sempre existiu, não é de hoje".
"Está muito falado agora pelos direitos; antigamente, a mulher não tinha nem voz".
A Lei Maria da Penha também é abordada. Alguns dizem ter ouvido falar a respeito na escola. Um momento de muito interesse é quando são tratados os tipos de violência: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. A questão sexual ganha destaque entre eles, até mesmo nas avaliações escritas que fazem dos trabalhos. A violência patrimonial surge como novidade, até que se dão conta de que ela engloba, por exemplo, os problemas de pagamento de pensão.
Ao longo dos encontros são analisadas frases machistas do cotidiano deles e feita a discussões de músicas, filmes e séries com conteúdo de gênero. Eles também participam de concurso de boas práticas, em que são produzidas poesias, desenhos, pinturas e até letras de músicas.
— Quando eles chegam, procuramos enxergá-los para além do ato que cometeram; não focamos no ato. É um espaço de escuta, mas sem perder de vista a responsabilização. No começo, eles têm dificuldade de falar, vergonha, fazem piada com os assuntos. Aí mudamos o método: passamos a fazer grupos de discussão entre eles mesmos. Chama a atenção que eles não se reconhecem como quem praticava violência, mas saem pensando na possibilidade de mudança— destaca a psicóloga Simone Vieira da Cruz.
Neste ano, o Chega Disso foi ampliado para escolas que manifestaram interesse em receber educação em direitos sobre violência de gênero. As oficinas capacitaram cerca de 320 profissionais, o que vai repercutir no alcance de 7,5 mil alunos por meio do compartilhamento destas capacitações.



