Um pátio com dezenas de pessoas se dedicando a diferentes tipos de artesanato, algumas roupas estendidas e a luz de um final de manhã que projeta as sombras de uma torre de segurança e as grades que bloqueiam a saída na parte superior do prédio.
Enquanto um vigilante observa a cena do alto da torre da Cadeia Pública de Porto Alegre, um homem segura uma caixa de madeira em direção ao sol, buscando ali calcular o tempo necessário de exposição de um filme fotográfico à luz.

Segurando uma pequena caixa de madeira, Sebastião* descreve a experiência de observar e projetar a luz e suas sombras. A iniciativa faz parte do projeto Caixas de Luz, desenvolvido na Associação de Proteção e Assistência aos Condenados de Porto Alegre (Apac).
Esse espaço, onde se observa o encontro entre a liberdade, a privação e a reabilitação, é chamada de tríplice fronteira pelos membros do projeto.
A iniciativa ensina uma forma primitiva de fotografia a homens privados de liberdade, que estão cumprindo penas em regime fechado e semiaberto. As câmeras artesanais são projetadas e criadas por eles próprios dentro da Apac.
Quem participa do projeto tem a oportunidade de ressignificar o olhar sobre si e sobre o outro a partir de uma técnica fotográfica.

O projeto surgiu a partir da pesquisa de doutorado do jornalista e professor Flávio Dutra. O trabalho, intitulado O mundo de ponta-cabeça: fotografia em contexto prisional, investigou o potencial da fotografia como ferramenta de expressão e transformação dentro do sistema prisional.
— Eu nunca tinha produzido nenhuma câmera que fosse perene. A ideia de construir uma câmera duradoura surgiu justamente ao perceber que essas pessoas já produzem muito artesanato em madeira. A partir dessa habilidade, pensamos em criar as câmeras — conta Dutra.

A técnica pinhole permite experimentar em diferentes tempos de exposição, gerando imagens de natureza singular e complexa. As câmeras criadas pelo projeto são construídas por um conjunto de peças que dão o formato retangular, a bobina de um filme 35mm e uma estrutura metálica que vai receber a perfuração da espessura de uma agulha — que dá o nome para a técnica fotográfica.
— O que me encanta na fotografia até hoje é que, por mais que eu saiba fazer uma imagem, ela sempre me surpreende. Nesse caso, então, a surpresa é ainda maior. Primeiro, porque a imagem produzida por essa câmera é diferente da fotografia digital. Você não vê o resultado imediatamente, não pode refazer a foto na hora. Por isso, precisa pensar muito sobre a imagem antes de produzi-la — explica o idealizador do projeto.

Desde 2024, as atividades do grupo ocorrem durante as oficinas de laborterapia da instituição, com encontros semanais dedicados à construção das câmeras e à captação das imagens. Ao longo de dois anos de projeto, cerca de 20 pessoas já participaram das atividades.
As câmeras têm uma estrutura de MDF com encaixes de fácil montagem. As peças, que foram projetadas por um dos integrantes do projeto, são recortadas em parceria com um laboratório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e os filmes fotográficos são revelados em laboratórios da cidade.
Depois de revelados, os filmes são escaneados por Flávio e alimentam o perfil do Caixas de Luz no Instagram. Também foi desenvolvido um manual ilustrado com instruções de uso do equipamento. De caráter artesanal e único, as câmeras também são comercializadas pelo projeto.
A experiência de fotografar com filme despertou a curiosidade dos participantes. Muitos deles não tinham familiaridade com câmeras analógicas, especialmente com equipamentos artesanais.
— Para mim, foi uma novidade surpreendente perceber que uma pequena caixa de madeira, montada manualmente, poderia gerar um retrato, uma fotografia — relata Cris*.
Nas atividades de laborterapia, os recuperandos — termo utilizado pelo método da Apac — participam de diversas oficinas voltadas ao artesanato e à criatividade. Além da construção das câmeras, o projeto também abordou aspectos históricos e teóricos da fotografia.
— Tudo aquilo era uma novidade para mim no início. Aos poucos, fui me envolvendo e aprendendo nas oficinas ministradas pelo Flávio. Entendi o que é a fotografia, por que aquela caixa de madeira consegue gerar uma imagem e absorvi muitos outros ensinamentos ao longo desse ano — conta Cris.
O fazer fotográfico é uma forma de criar narrativas e registrar recortes da realidade. É a possibilidade de construir novos olhares a partir de frações de segundo.
— Com as câmeras do Caixas de Luz, o Flávio nos deu a possibilidade de, mesmo privados da liberdade, podermos nos mostrar em liberdade por meio da fotografia — reflete Robert*.
Fotografias feitas pelo repórter fotográfico Renan Mattos com as câmeras criadas no Projeto Caixas de Luz:
A Apac
Em funcionamento desde 2018, em um prédio ao lado da Cadeia Pública de Porto Alegre, o Centro de Reintegração Social da Apac atende atualmente 66 pessoas, 47 no regime fechado e 19 no semiaberto. Com foco no trabalho, na educação e no fortalecimento dos vínculos familiares, a instituição adota um modelo disciplinar voltado ao cumprimento da Lei de Execução Penal e à ressocialização dos recuperandos.
A laborterapia tem se consolidado como uma importante ferramenta de ressocialização no sistema prisional. Ao transformar o período de cumprimento da pena em uma oportunidade de aprendizado e qualificação profissional, a prática vai além do combate à ociosidade dentro das unidades prisionais.
A proposta da Apac é promover a humanização do sistema prisional sem perder de vista a finalidade da pena.
— A diferença é que aqui você recebe aprendizado e educação de uma forma diferente daquela do sistema comum. Sabemos que o sistema tradicional, muitas vezes, acaba reforçando práticas ligadas ao crime. A Apac busca romper com essa realidade, estendendo a mão para que a pessoa construa um caminho completamente diferente — avalia Cris, um dos participantes do projeto Caixas de Luz.
Em dezembro de 2025, a instituição completou sete anos de atividades. Para celebrar a data, voluntários e recuperandos prepararam uma série de apresentações artísticas que são trabalhadas durante as laborterapias.
Na exposição projetada e criada por membros do Caixas de Luz, foram expostos grandes tecidos de sete metros de comprimento com as fotos criadas durante os dois anos de oficinas, ocupando o corredor de entrada da instituição.
— A dimensão também que aquilo estava tendo que não era só o que está acontecendo ali não é só mais uma atividade para ocupar o tempo deles, tem um exercício de criação que é bastante importante.Acho que a exposição fez com que a instituição percebesse uma relevância naquele trabalho que talvez eles não tivessem percebido nessa dimensão ainda, reflete Dutra.
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados


