O alerta de inundação do Rio Taquari para o início desta quarta-feira (22) chegou à prefeitura de Lajeado apenas durante a madrugada do mesmo dia. Conforme a prefeitura, o plano de contingência foi acionado por volta da 1h.
Segundo o município, a responsabilidade pelos monitoramentos e alertas é da Defesa Civil estadual e do Serviço Geológico do Brasil. Na noite de terça-feira (21), por volta das 23h, o governo do Estado publicou comunicados informando que o rio não alcançaria a cota de inundação.
A cota de inundação em Lajeado é de 19 metros. Durante esta tarde, o nível chegou a 23 metros.
— Por óbvio, isso dificultou, porque nós não esperávamos, pelas projeções da Defesa Civil do Estado, uma cheia. Então, é o tempo de mobilizar o caminhão, de conseguir acordar os moradores para fazer a retirada — avaliou o vice-prefeito Guilherme Cé, em entrevista ao Gaúcha+, da Rádio Gaúcha — Felizmente, apesar do tempo exíguo, conseguimos fazer a remoção.
Em entrevista ao Gaúcha Atualidade na manhã desta quarta-feira (22), o coordenador da Defesa Civil estadual, Luciano Boeira, reconheceu que os modelos hidrológicos subestimaram a resposta dos rios e não conseguiram antecipar a dimensão da inundação que atinge os rios Taquari e Caí.

— Não podemos afirmar que foi um erro, porque a cheia, enquanto está acontecendo, enquanto chove nas cabeceiras, o Rio tem uma resposta hidrológica dinâmica e diferente a cada momento. Então, é natural que o evento se altere, mas, de fato, nós não contávamos com uma alteração tão rápida. No fim do dia de ontem (terça-feira), os órgãos responsáveis poderiam ter identificado um grau de risco maior — complementou Guilherme Cé.
A prefeitura classifica este episódio de enchente como de médio porte, quando o Rio Taquari não supera os 27 metros. Em maio de 2024, o nível chegou a 33 metros.
Famílias que moram em áreas atingidas quando o Rio Taquari chega à cota de 25 metros já estão sendo retiradas de casa e encaminhadas ao abrigo no Parque do Imigrante. Cerca de cem famílias devem estar no local até o fim do dia, quando também está previsto que o rio comece a estabilizar.
Em nota, a Defesa Civil relatou que a elevação do Rio Taquari começou a ser percebida na terça, com expectativa de um cenário mais crítico para a tarde de quarta, o que ia ao encontro dos resultados de modelos de outros órgãos analisados. A persistência da chuva nas cabeceiras no fim da noite e no início da madrugada provocou a antecipação do alcance das cotas. Um alerta vermelho foi emitido por volta das 2h desta quarta, assim como um cell broadcast foi enviado (leia na íntegra abaixo).
O Serviço Geológico do Brasil (SGB) esclareceu, por meio de nota, que as previsões dos níveis dos rios, utilizadas nos Sistemas de Alerta Hidrológico (Sace) para o monitoramento de inundações e estiagens, são baseadas na integração entre previsões meteorológicas e modelos hidrológicos.
"Tão logo a primeira estação monitorada no Sistema de Alerta do rio Taquari atingiu a cota de alerta, foi acionado o protocolo operacional de previsões de curto prazo do Serviço Geológico do Brasil (SGB) (...) O boletim atualizado foi emitido na transição entre as 23h e a meia-noite do dia 21 de julho, quando o nível do rio Taquari na estação Lajeado/Estrela encontrava-se em cota de atenção", diz o comunicado (leia a íntegra abaixo).
Nota da Defesa Civil
"O Centro de Monitoramento da Defesa Civil Estadual (CMDEC) acompanhou, ao longo da última semana, a atuação do sistema meteorológico que provocou chuvas intensas e temporais em diversas regiões do Rio Grande do Sul. Conforme previsto, os eventos vieram acompanhados de raios, rajadas fortes de vento e queda de granizo de médio e grande porte, principalmente nas regiões Central, Fronteira Oeste e Noroeste.
Como consequência das chuvas, foram registrados alagamentos pontuais e elevação do nível de arroios e pequenos rios, especialmente nas áreas que receberam os maiores volumes de precipitação.
Nas últimas 24 horas, as tempestades avançaram para outras regiões do Estado, com destaque para as áreas próximas aos municípios de Marau e Nova Prata, onde ficam as nascentes dos rios Guaporé, Carreiro e da Prata, conforme atualização do Aviso Meteorológico e Hidrológico, emitida na terça-feira e incluindo em alerta LARANJA áreas como o Vale do Taquari.
Nessas localidades, os acumulados de chuva superaram os 190 milímetros em menos de 24 horas, fator que, inclusive ensejou o envio de alertas cell broadcast para uma área que compreendeu 37 municípios naquela região, na tarde de terça-feira. Em Paraí, foi registrado um volume de 194 milímetros, em Marau um acumulado de 191 milímetros e em Passo Fundo, 182 milímetros em menos de um dia. A média mensal de chuvas para essa época do ano no Rio Grande do Sul naquela região é de 160 a 180 milímetros mês.
No início da noite de terça-feira (21), foi publicado alerta LARANJA para elevação do rio Taquari, no trecho de Encantado até Taquari, com vigência até as 19h de quarta-feira (22).
De acordo com as equipes do CMDEC, essa elevação começou a ser percebida na terça-feira (21) quando a Defesa Civil atualizou um prognóstico afirmando a possibilidade de um cenário mais crítico na tarde de quarta-feira (22). Os modelos hidrológicos analisados pela Defesa Civil e por outros órgãos oficiais convergiam para essa tendência.
Com a persistência das chuvas nas cabeceiras da bacia do Taquari- Antas, ao final da noite e início da madrugada, identificou-se que as cotas estimadas seriam alcançadas antes do previsto pelos modelos hidrológicos.
Foi publicado alerta VERMELHO de inundação para o rio Taquari por volta de 2h da madrugada de quarta-feira (22), no trecho entre os municípios de Muçum e Taquari, indicando risco muito alto de inundação naquela região nas próximas 12 horas.
Na sequência, foi indicado pelo monitoramento hidrológico, o envio de alertas cell broadcast, que foram encaminhados pelo Centro de Operações da Defesa Civil para as cidades de Lajeado, Encantado, Estrela, Arroio do Meio, Santa Tereza, Muçum, Roca Sales e Cruzeiro do Sul, no início da manhã de quarta-feira, e estão sendo atualizados conforme a evolução indicada pelo monitoramento.
Os gestores municipais dessas cidades também foram contatados pela equipe da Defesa Civil do RS para que acionassem as medidas previstas em seus Planos de Contingência. Os municípios já se mobilizaram e retiraram preventivamente pessoas que residem em áreas de risco, além de outras medidas de preparação.
Na Região Metropolitana, a previsão também aponta para a elevação do nível do Guaíba entre 24 e 72 horas. A tendência é de que o lago alcance a cota de alerta (estação do Cais), e a possibilidade de alcance da cota de inundação está sendo acompanhada e será atualizada no decorrer das respostas hidrológicas."
Nota do Serviço Geológico do Brasil
"O Serviço Geológico do Brasil (SGB) esclarece que as previsões dos níveis dos rios, utilizadas nos Sistemas de Alerta Hidrológico (SACE) para o monitoramento de inundações e estiagens, são baseadas na integração entre previsões meteorológicas e modelos hidrológicos. Essa integração permite simular a resposta das bacias hidrográficas às chuvas previstas e estimar a evolução dos níveis dos rios.
O processo ocorre em duas etapas complementares. A primeira consiste na previsão de chuva, elaborada por órgãos especializados em meteorologia, como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e centros internacionais de previsão. A segunda etapa é a previsão hidrológica, realizada pelo SGB, que utiliza essas informações para estimar como a chuva prevista poderá impactar os níveis dos rios.
Dessa forma, a precisão das projeções hidrológicas está diretamente relacionada à precisão das previsões meteorológicas disponíveis no momento da modelagem. Quando o volume de chuva observado supera significativamente os valores previstos, as estimativas de níveis dos rios precisam ser revisadas à medida que novos dados são incorporados aos modelos.
No caso do Vale do Taquari, durante o dia 21 de julho, os modelos meteorológicos disponíveis indicavam um determinado cenário de precipitação para a bacia. Entretanto, ao longo da tarde e da noite, foram registradas chuvas significativamente mais intensas e concentradas nas cabeceiras da bacia do que aquelas previstas inicialmente.
Esse volume excepcional de chuva escoou rapidamente para o Rio Taquari, provocando uma elevação dos níveis superior à estimada nas primeiras projeções hidrológicas. Assim que as estações de monitoramento registraram as novas condições observadas e a rápida resposta dos rios, os modelos hidrológicos do SGB foram atualizados com dados reais de campo.
Além disso, tão logo a primeira estação monitorada no Sistema de Alerta do rio Taquari atingiu a cota de alerta, foi acionado o protocolo operacional de previsões de curto prazo do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
A partir da incorporação dos dados hidrológicos observados em tempo real, os prognósticos passaram a indicar a superação da cota de inundação na estação Lajeado/Estrela. O boletim atualizado foi emitido na transição entre as 23h e a meia-noite do dia 21 de julho, quando o nível do rio Taquari na estação Lajeado/Estrela encontrava-se em cota de atenção".





