
Na terça-feira (21), ainda traumatizados pela enchente de 2024, os gaúchos respiraram mais aliviados quando o governo gaúcho divulgou que, até aquele momento, não havia previsão de os rios subirem, apesar da chuva registrada desde o final da semana anterior. O cenário mudou rapidamente nas horas seguintes, e a água de cursos como o Taquari ultrapassou a cota de inundação em diferentes municípios.
A dificuldade de antever as cheias foi provocada por uma combinação entre incertezas na previsão do tempo ampliadas pelo El Niño, limitações do sistema utilizado pelos órgãos oficiais para projetar a subida dos rios e deficiências no modo de informar a população sobre os possíveis cenários. O episódio deixa lições que deverão ser incorporadas por entidades como a Defesa Civil estadual e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), de âmbito federal.
Zero Hora conversou com oito servidores da Defesa Civil, dois do SGB, um do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para avaliar as imperfeições da estrutura de alerta e o que deve ser melhorado para o futuro.
O monitoramento e a previsão da Defesa Civil se baseiam no chamado Modelo de Grandes Bacias (MGB), que processa três variáveis fundamentais:
- Previsão de chuva para um horizonte de até 15 dias
- Chuva já observada
- Vazão atual dos rios obtida por meio de estações de medição
Esses dados são integrados para gerar tendências de vazão que, para 60 municípios prioritários, alimentam um modelo hidrodinâmico capaz de desenhar as prováveis manchas de inundação e permitir a visualização de quais áreas serão atingidas.
Previsão regional de tempo ainda não integra o sistema
O cálculo hidrodinâmico (do comportamento da água) depende das estimativas de precipitação feitas por centros internacionais que nem sempre oferecem os prognósticos mais precisos para regiões específicas do Estado. Nesta semana, houve uma disparidade entre o que indicavam esses centros internacionais e a previsão regionalizada da própria Defesa Civil gaúcha — que já indicava acumulados superiores a 150 milímetros em 24 horas em alguns pontos. Esse cálculo local, embora seja levado em consideração na atuação da corporação, ainda não está entre os parâmetros da simulação hidrodinâmica.
— Isso deverá ser incorporado em breve. É que a plataforma da Defesa Civil foi inicialmente implantada com o objetivo de ter um horizonte de previsão mais longo, de 15 dias, dos modelos globais, enquanto o regional tem um horizonte de 72 horas. Mas, realmente, precisaremos colocar a previsão regional — diz a hidróloga do Centro de Monitoramento da Defesa Civil Vanderleia Schmitz.
Diretora do Departamento de Gestão de Riscos da Defesa Civil, a tenente-coronel Ana Maria Hermes argumenta que esse sistema ainda é recente, tendo começado a operar no início deste ano, e garante que a experiência dos últimos dias será utilizada para aprimoramentos.
— Esse foi o primeiro evento (severo) que a gente enfrentou com esse sistema. Tudo na área de desastre vai estar em permanente melhoria, em permanente qualificação — afirma Ana Maria.
Efeito de deslizamentos de terra será analisado
Há uma avaliação interna na Defesa Civil gaúcha de que os milhares de deslizamentos registrados em morros de locais como o Vale do Taquari durante a tragédia de 2024 pode ter alterado a dinâmica dos rios. Estudos indicam que as "cicatrizes" deixadas no solo pela derrubada da vegetação e pela movimentação da terra podem atuar como "córregos" que concentram a água da chuva e a escoam para os rios vizinhos em velocidade superior à de um terreno preservado.
— Um levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mapeou cerca de 17 mil movimentos de massa no Estado. Só na bacia do Taquari-Antas temos 8,9 mil, e cerca de 50% dessas cicatrizes estão conectadas a corpos hídricos. Isso pode alterar a dinâmica da bacia, podendo diminuir o tempo de resposta dos rios (à chuva) e aumentar a velocidade com que a água chega até eles — afirma o geólogo da Defesa Civil Marcelo Ávila.
Na prática, isso pode fazer com que os rios subam mais rapidamente. Deverá ser realizado um estudo para verificar se essas alterações na geografia regional modificaram o comportamento dos mananciais em períodos de tempo severo. Caso isso seja confirmado, os parâmetros dos modelos hidrodinâmicos deverão ser atualizados para levar isso em consideração.
Novas estações ainda não orientam a previsão
Nem todas as possíveis melhorias no sistema da Defesa Civil poderão ser implantadas em pouco tempo. O governo gaúcho está concluindo a implantação da última de 130 novas estações que monitoram bacias hidrográficas e fornecem dados que subsidiam previsões. Porém, essa rede robusta ainda não é utilizada para alimentar os prognósticos.
— Contratamos 130 estações que hoje nos permitem o nowcasting (previsão de curtíssimo prazo) hidrológico. Só que essas estações ainda não conseguem alimentar esses modelos, e elas ficam em locais-chave. Para serem incluídas, precisamos ter uma série de dados histórica, e isso só pode ser obtido com tempo — argumenta Vanderleia.
Responsável pela operação do MGB, Stefano Boeira afirma que serão necessários cerca de quatro anos para formar esses bancos de dados e incorporar a nova rede de estações aos cálculos de resposta das bacias.
SGB deve rever terminologia de boletim
Além da Defesa Civil, o SGB tem um serviço de monitoramento e prognóstico do nível dos rios gaúchos que também subsidia o Estado e os municípios. Às 16h de terça-feira, um primeiro boletim dizia que "os níveis previstos, se confirmadas as previsões de chuva utilizadas, provavelmente irão se manter abaixo da cota de inundação nas estações fluviométricas monitoradas". O mesmo documento alertava, porém, que "os modelos meteorológicos de previsão de chuva utilizados seguem apresentando divergência quanto aos volumes e à posição das precipitações no estado do Rio Grande do Sul e, portanto, a previsão hidrológica atual ainda apresenta cenários de incerteza".
Como o SGB não faz previsão de tempo, utiliza as análises de órgãos internacionais e nacionais, a exemplo do Inmet. Essa é uma inovação implantada após a cheia de 2024 diante do apelo de que as projeções de eventuais alagamentos fossem antecipadas. Até então, a entidade federal lançava apenas avisos de mais curto prazo — que oferecem menos tempo para prevenção, mas são mais certeiros.
— Acredito que o termo "previsão" utilizado nesse tipo de boletim, que é mais um boletim de cenário, deverá ser trocado por outro daqui para frente. É um boletim inicial que apresenta possíveis cenários, mas ainda traz muita incerteza. O problema é quando isso é tomado como uma situação definitiva. Na verdade, dissemos que seria preciso seguir monitorando — argumenta a chefe do Departamento de Hidrologia do SGB, Andréa Germano.
À meia-noite, o órgão emitiu um novo comunicado — já com caráter de alerta — prevendo que às 6h o Taquari já teria ultrapassado a cota de inundação (o que ocorreu). Esse segundo aviso já considerava a precipitação que havia sido registrada de fato nas cabeceiras.
— Conseguimos fazer prognóstico, de fato, com no máximo 12 horas de antecedência para as partes mais baixas do Taquari, e de quatro a seis horas nas partes mais altas, porque é um rio de resposta rápida. Sobe muito rápido. Na bacia do Amazonas, boletins são divulgados com até 75 dias de antecedência — compara o chefe da Divisão de Hidrologia Aplicada do SGB, Emanuel Duarte.
Procurado por ZH, o Inmet argumenta que emitiu 18 "avisos de tempo severo relacionados à chuva" entre os dias 17 e 21. Esses alertas previam possibilidade de precipitação "acima de cem milímetros ao dia" e possível "transbordamento de rios". Conforme a SGB, porém, houve pontos muito localizados onde a chuva oscilou ao redor de 200 milímetros ao longo de um dia.
Em bacias de resposta rápida, pequenas diferenças na localização ou no volume da chuva sobre as cabeceiras podem alterar significativamente a projeção do nível dos rios poucas horas depois.
Prudência para interpretar e usar os prognósticos
Para o professor do IPH Rodrigo Paiva, o episódio também deve servir de lição sobre como interpretar e divulgar as informações sobre possíveis cheias:
— Acho que uma das principais dificuldades foi fazer uma previsão dando a entender que existia uma certa certeza de que não aconteceria inundação antes de esperar o evento de chuva terminar. Nesses casos de bacias que respondem mais rapidamente, deve-se fazer uma interpretação mais prudente dos dados ou esperar mais, realmente, mesmo que você tenha de fazer uma previsão de mais curto prazo.




