É difícil encontrar um brasileiro que não tenha alguma lembrança ligada ao Fusca. Durante anos, o modelo da Volkswagen esteve nas ruas, nas garagens, no topo da lista de mais vendidos e no imaginário do país. Transportou famílias, serviu como táxi e viatura policial e inspirou brinquedos e desenhos que, até hoje, reproduzem suas curvas como o formato clássico de um automóvel.
E essa familiaridade, misturada com nostalgia e paixão, acaba refletindo no frequente avistamento desse modelo, concebido na década de 1930, nas ruas das cidades até hoje. Além disso, é um dos preferidos dos entusiastas de carros clássicos.
Nos eventos automotivos, o Fusca costuma se destacar, tanto em volume quanto em variedade de modelos, dos que mantêm a originalidade aos que inovam na customização.
Dados do Detran-RS reforçam esse protagonismo. Entre os veículos com ano de fabricação até 1990 em circulação no Estado, o Fusca ocupa o topo. A versão 1.300 está na primeira posição, com 94.109 unidades, e a versão 1.500 está em quinto lugar, com 30.212 veículos.
O VW também é o carro clássico mais negociado pela plataforma OLX no Rio Grande do Sul até abril de 2026. O segundo colocado é o Chevrolet Opala. Da terceira à quinta posição aparecem Volkswagen Gol, Chevrolet Chevette e Ford F-75, mostram dados da plataforma. A empresa considera veículos clássicos aqueles com ano de fabricação até 1990. Sites como a OLX e a alta procura inclusive fizeram o Fusca ficar mais caro nos últimos anos (saiba mais abaixo).
Criado pelos avós, Mathias Edvino Haeflinger e Erna Haeflinger, em Nova Boa Vista, no norte do Estado, o advogado Paulo Haeflinger carrega no Fusca amarelo 1977 boas lembranças do convívio com eles.
Paulo comprou o carro do avô, em 2015. Após a morte deles, decidiu fazer uma homenagem na restauração do veículo. O Fusca carrega a assinatura de seu Mathias na lataria, a boina dele no interior e fotos do casal nos botões do painel.
Hoje, morando em Porto Alegre, Paulo entende que desfilar com o carro pela cidade e pelos encontros é uma forma de manter viva a lembrança e a história dos seus avós, os homenageando e preservando a herança afetiva que eles deixaram. Ao entrar no veículo, o advogado lembra dos passeios com os avós e com a filha, momento em que três gerações da família construíam memórias com o Fusca.
— Meus avós me criaram desde que nasci, então andar aqui dentro é uma homenagem a eles. Lembro de irmos buscar farinha para fazer pão e do meu avô me levando para a escola. Tudo o que sou hoje devo a eles — relata Paulo, com os olhos marejados.
Nos encontros automotivos, o Fusca amarelo de Paulo é um dos que mais chama a atenção, rodeado por amigos e parceiros de paixão por carros antigos.
— Um momento triste se tornou alegria. Meu avô foi enterrado com a música Eu quero ter um milhão de amigos e ter esse Fusca é continuar essa busca — analisa.
Paulo gastou R$ 100 mil no carro, levando em conta serviços como lataria, estofaria e acessórios. O processo de restauração durou cerca de dois anos, segundo o advogado.
O que explica a paixão pelo Fusca

Especialistas e entusiastas afirmam que pontos como o fato de o Fusca ter liderado por anos a lista de mais vendidos, sendo expressão máxima do carro popular e o primeiro veículo de muitos brasileiros, ajudam a explicar essa paixão.
— A criança não sabe o que são outros carros, mas o Fusca ela conhece. Acho que fala papai, mamãe e Fusca — brinca o fotógrafo e apaixonado por carros antigos Marco Escada.
Escada também destaca que as características do automóvel o tornam um dos favoritos dos customizadores:
— Além de ele ser o mais popular, o mais querido, ele também é o mais personalizável. É difícil outro carro que se consiga fazer tantas adaptações e fique tão diferente um do outro como o Fusca.
Histórias ouvidas pela reportagem de Zero Hora durante uma edição do evento Quinta Noturna — que reúne colecionadores e entusiastas de carros antigos no Boulevard Assis Brasil, na zona norte de Porto Alegre — mostram a variedade de razões, e emoções, que mantêm o Fusca na estrada, depois de tanto tempo.
Lembranças do avô e planos para o neto

Fuscas que representam herança e preservação do legado familiar são encontrados com frequência em encontros como o Quinta Noturna. Orgulhosos, os donos dos veículos se emocionam ao contar como mantêm a história dos antepassados e pretendem passar adiante essa paixão. É o caso do empresário Marcelo Machado, 51 anos, atual dono do Fusca 1974 que era de seu avô.
Depois de conseguir passar o carro para seu nome neste ano, após abrir o inventário dos avós, ele planeja iniciar um projeto para ir até Ushuaia, em fevereiro de 2028. E a aventura não para por aí.
— Esse Fusca era do meu avô, ele tirou zero na revenda e ficou com ele por 20 e poucos anos. Passou para o meu tio que, em 2010, passou para mim. Pulou a geração do meu filho, que não gosta de carro antigo, e a ideia agora é passar para a quinta geração: meu neto que mora em Nova York — conta Machado.
O empresário recorda momentos que passou com o avô dentro do Fusca. E destaca como sonha em replicar parte disso para o neto:
— Lembro de andar atrás, na "cachorreira", ou de botar o joelho nas costas do meu avô enquanto ele dirigia. Quando entro no carro, sinto um cheiro diferente, me lembro dele dirigindo e parando para fumar. É um legado que quero levar para o meu neto. Ele tem quase quatro anos e nem sabe que vai ganhar o carro. Será uma surpresa para quando ele puder dirigir, aos 15 anos, nos Estados Unidos.
Paixão pela cor e customização
Mas nem sempre o amor pelo Fusca é forjado pelo tempo ou por lembranças familiares. Às vezes, é paixão à primeira vista, como ocorreu com Pedro Candiago, 40 anos. Dono de um Fusca preto, ano 1975, o programador gostava de veículos clássicos maiores. Mas, em 2021, se encantou pelo Fuscão preto e resolveu comprá-lo. Desde então, gastou R$ 36 mil em customizações.
— Na verdade, eu nunca pensei em ter um Fusca. Quem comprou foi meu sogro e, quando vi, me apaixonei: Fuscão preto, o "Fusca Mafioso". Incomodei ele para me vender. Ele ficou duas semanas com o carro e me vendeu. Aí comecei a ajeitar do meu gosto: bancos, direção, teto e rodas. Eu sempre gostei de Opala e Maverick, mas esse foi amor à primeira vista por causa da cor — explica.
Amor por Fuscas virou ganha-pão
Alguns felizardos conseguem unir a paixão pelos carros clássicos com a profissão. Quando criança, o empresário e mecânico Atila Israel Machado Fontoura, 54 anos, se escorava no portão de casa e admirava os carros que passavam, principalmente os Fuscas. Na adolescência, viu a oportunidade de se aproximar dos carros ao ir trabalhar na oficina do tio, especializada na manutenção de Volkswagen e DKW. Não teve jeito, a paixão, principalmente pelo Fusca, cresceu ainda mais.
Anos depois, após atuar em outras áreas do setor automotivo, conseguiu realizar o sonho de fundar a sua própria oficina, especializada em veículos Volkswagen refrigerados a ar — categoria que inclui, além do Fusca, modelos como Kombi, Variant e Brasília. Fundada há oito anos, a Air Blower Garage, na zona norte de Porto Alegre, é referência na manutenção desses veículos.
— É fazer o sonho virar realidade. Meu sócio hoje é meu filho mais velho, que se criou comigo dentro do Fusca. Eu criei o meu trabalho, criei um caminho. Isso para mim é motivo de muito orgulho. Cada carro que a gente faz é um filho que o cara faz. Hoje, não somos só uma oficina, somos uma grande família. O pessoal entra sorrindo, toma um café, porque aquilo ali mexe com eles.
Sócio do pai, Atila Israel da Rosa Fontoura, 35 anos, o Atilinha, também virou um apaixonado por Fuscas.
— Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, andava de Fusca com meu pai. Com oito anos, ele me deixou desmontar o primeiro motor. Com 12 anos, eu ajudei a montar. Então, ali já deu aquela coisa no coração, de gostar do motor. E trabalhar com o meu pai é um privilégio — resume.
Atilão, o pai, destaca que vem observando uma alta na procura por Fuscas num passado recente, o que também aumenta a média de valores desse modelo:
— A demanda aumentou muito. A busca pelo carro antigo em si aumentou muito o valor. E o Fusca ainda é um carro mais barato em relação a outros. A maioria dos clientes hoje, caras com 50 ou 60 anos, com a vida estabilizada, querem ter aquele Fusca do jeito que viam no passado. Outros têm muitos apegos, o carro era do pai ou do tio, e ele vai restaurar e customizar para continuar na família, para ser do filho ou do neto.
Especialistas apontam que o mercado de antigos também foi aquecido pelo avanço das plataformas online, impulsionadas durante a pandemia.
— A pandemia fez as pessoas quererem "viver" e as plataformas digitais facilitaram a busca, o que elevou os preços. Por exemplo, em Águas de Lindóia, veem-se Gols GTI por R$ 200 mil. Um Fusca bom, que custava de R$ 5 mil a R$ 7 mil há 10 anos, hoje, vale entre R$ 30 e R$ 50 mil. O mercado digital facilita a compra em todo o Brasil, mas a alta procura inflaciona os valores. Além disso, carros de 30 anos e modelos "hot rods" chamam mais atenção hoje do que modelos de 1930, como o Ford Modelo A. O que antes era chamado de neoclássico agora já é considerado o "novo clássico" — explica Evandro Scholles, vice-presidente do Veteran Car Club, de Novo Hamburgo.
Essa mudança geracional, que amplia a lista de veículos considerados clássicos ou próximos dessa classificação, também tende a alterar a valorização desses modelos. CEO Global da FuelTech, empresa sediada em Porto Alegre com foco no desenvolvimento de sistemas eletrônicos de gerenciamento de motores para alta performance e que administra o autódromo Velopark, Anderson Dick, esclarece esse processo:
— Fusca, Opala e Maverick são modelos que vão continuar apreciando, mas não num ritmo tão grande quanto eles apreciaram nos últimos anos. Porque eles já estão passando dessa idade e também tem muita disponibilidade. Já alguns carros que ainda são os neoclássicos, como Ômega, Vectra GSI, Kadett GSI, já deram uma subida de preço.
No último dia 21 de junho, a FuelTech realizou a 30ª edição do FuelTech & Chimarrão, na véspera do Dia Mundial do Fusca. O evento reuniu mais de cem modelos de diversas gerações e milhares de apaixonados pelo automóvel.
A oficina de Atilão parece um paraíso para quem ama Fuscas e carros clássicos em geral. No local, diversos besouros — um dos muitos apelidos do modelo — e outros Volkswagen movidos a ar ocupam o pátio e o galpão. No chão, sobre elevadores ou desmontados em dezenas de peças, os veículos carregam história, elegância e um gostoso sentimento de nostalgia.
De tempos em tempos, o barulho das ferramentas dá lugar à batida metálica e ritmada do motor, som que durante décadas marcou as ruas das cidades. E, claro, vem acompanhado do característico cheiro de gasolina, que inebria quem cultiva essa paixão.




