O estacionamento de um shopping da zona norte de Porto Alegre, no dia a dia ocupado por centenas de carros modernos, aos poucos, parece voltar no tempo. O cheiro de gasolina toma conta do ambiente e o silêncio noturno é quebrado por roncos graves de motores.
Um Fusca da década de 1970 cruza a cancela. O som que sai do escapamento chega antes de o veículo aparecer, atiçado a curiosidade de quem está no local. A cena se repete, com outros carros. Em poucas horas, o estacionamento está cheio de veículos antigos, perfilados.
Trata-se de um dos tantos encontros de carros clássicos espalhados pelo Estado. Nesses ambientes, entusiastas e apaixonados por essas máquinas trocam ideias, experiências e fazem até negócios. Além desse tipo de reunião, o amor por carburadores, cheiro de combustível e escapamento trepidando a cada pé mais pesado no acelerador invade garagens, ruas e outros espaços.
— A contaminação começou quando eu ainda era criança. O primeiro carro que eu dirigi, com oito anos de idade, foi um Dodge Charger RT, que era do meu tio. Na adolescência, comecei a correr arrancada no Interior com o Opala dos outros. A ferrugem entrou na veia e eu disse: “Se Deus quiser, vou comprar um Opala”. Em 2008, graças a Deus, esse Opala aqui se ajeitou num negócio e deu para eu comprar — resume Vilson Cleber Ferreira dos Santos, 52 anos.

Santos é um dos tantos entusiastas de carros clássicos no Estado e guarda na garagem um dos modelos mais desejados pelos gaúchos. O Chevrolet Opala é o segundo carro clássico mais vendido no RS em 2026, até abril, segundo pesquisa da OLX. O primeiro lugar é do Volkswagen Fusca. Da terceira à quinta posição aparecem Volkswagen Gol, Chevrolet Chevette e Ford F-75, mostram dados da plataforma. A empresa considera veículos clássicos aqueles com ano de fabricação até 1990.
Até abril deste ano, o Rio Grande do Sul contava com 1,1 milhão de veículos com ano de fabricação até 1990 em circulação, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS). Esse número representa cerca de 14% do total da frota do Estado (8,1 milhões). O levantamento do Detran-RS abrange todos os tipos de veículos, incluindo motos e caminhões, por exemplo, mas os carros são a maior fatia.
Com o avanço dos carros com injeção eletrônica, motores flex e maior tecnologia embarcada, além da entrada dos eletrificados, a tendência natural é que os veículos mais antigos comecem a cair na obsolescência. No entanto, um misto de saudosismo e memória afetiva dá a alguns modelos o status de clássico e mantém o espaço deles entre colecionadores e admiradores.
Quinta noturna
Citado no início dessa reportagem, o encontro de veículos clássicos Quinta Noturna é organizado pelo Auto Clássico Clube, em Porto Alegre, há cerca de 10 anos. O evento ocorre todas as segundas quintas-feiras do mês, no Boulevard Assis Brasil, na Zona Norte. O clube também realiza o passeio On The Road, que percorre estradas gaúchas.
Um dos fundadores do grupo, o fotógrafo Marco Escada afirma que o encontro nasceu de uma tentativa de negócio, baseada na reunião de carros clássicos para produzir fotos por meio da empresa dele, a 1ponto8 Fotografia Automotiva. O negócio com foco exclusivamente na produção de imagens dos possantes acabou evoluindo para amizades e laços que seguem crescendo. Hoje, a Quinta Noturna reúne, em média, 70 veículos a cada edição, chegando até 300 em datas festivas e o 1ponto8 virou um canal automotivo no YouTube. Durante os eventos, o Auto Clássico Clube também estimula ações sociais, como doações.
Escada avalia que a paixão por carros antigos, que demanda dinheiro, tempo e disposição dos donos, está muito ligada à nostalgia:
A gente viu esses carros serem lançados e, na época, eram considerados caros e sofisticados. Hoje, são ultrapassados do ponto de vista tecnológico e, por isso, algumas vezes, acessíveis. Mas continuam carregando aquele saudosismo, aquele glamour, aquela aura de objeto desejado.
MARCO ESCADA
Um dos fundadores do Auto Clássico Clube
Além da nostalgia por uma época em que os carros eram mais mecânicos do que eletrônicos, o apego aos clássicos também passa por questões familiares. As lembranças dos carros dos avôs, pais e tios, por exemplo, ainda dominam parte dos pensamentos desse público, que tenta resgatar essas vivências na aquisição e manutenção desses modelos.
— A gente vê muito aqui no clube. O cara chega com um Vectra e perguntamos: "Mas por que tu comprou um Vectra?" Ele responde que comprou porque o pai dele teve um. Então existe a nostalgia, mas vejo muito forte ainda a questão familiar. A família teve um veículo desses, e as gerações seguintes querem ter novamente — destaca Evandro Scholles, vice-presidente do Veteran Car Club, de Novo Hamburgo.
O clube liderado por Scholles é responsável pela Expoclassic, um dos maiores eventos de carros clássicos do Estado, realizado nos pavilhões da Fenac.
O Opala Mafioso
Como destacou no começo da reportagem, Vilson dos Santos, 52 anos, alimenta a paixão por carros clássicos desde a época em que esses veículos ainda nem carregavam a alcunha. Atualmente morando em Guaíba, na Região Metropolitana, Santos teve os primeiros contatos com os possantes no interior do Estado. Da infância a bordo do Dodge Charger RT do tio, em Tupanciretã, passou às arrancadas de Opala em Cruz Alta, onde viria a morar após mudança da família. Desde então, não perdeu o gosto por veículos robustos, charmosos e conhecidos pela força mecânica.
Em 2008, 26 anos após guiar pela primeira vez um carro do estilo que se tornaria seu favorito, viu a chance de ter o próprio. Ao vender uma casa, surgiu a oportunidade de receber um Chevrolet Opala Comodoro SL/E 1988 como parte do pagamento. Conversou com a esposa e decidiu ficar com o carro, inicialmente alegando que seria "para vender", mas acabou mantendo-o para si.
Nos últimos cinco anos, dedicou-se à restauração completa do veículo, batizado de Mafioso em referência à pintura preta e ao visual imponente. Hoje, calcula que gastou perto dos R$ 50 mil no restauro do Mafioso. Brinca que parou de contar nos R$ 36 mil.
— No meu caso, particularmente, o que explica é a nostalgia pelos carros da década de 1970, 1980. Claro, eu sou apaixonado por tudo que é carro antigo, mas a paixão por Opalas vem da adolescência. É um custo alto manter. Não é fácil, mas, como muita gente gosta de futebol, de pescaria, a nossa paixão é carro antigo. Então a gente se dispõe a cuidar, a zelar, a dispor de uma parte financeira para poder manter o gosto pelo carro antigo.
Além do Opala, hoje, Santos tem um Vectra 1996/1997, usado no dia a dia, e um Fusca, que salvou do desmanche. O Fusca pretende vender para uma pessoa que se comprometa a restaurá-lo, mas não descarta ficar com ele no futuro para um novo projeto. Ele também passou, como gosta de dizer, o “gosto pela ferrugem” para os filhos. O filho mais velho, de 26 anos, tem um Audi Turbo, ano 2001. A filha, Andriellen, de 23, tem um Fusca 1980, apelidado de Esmeralda.
— É legal porque a infância inteira vimos ele na correria de arrumar uma coisa ou outra, os planos, os sonhos. Às vezes, a gente pensava “nossa, mas que tanta coisa tem que arrumar”. Hoje em dia eu entendo que nunca acaba. Entendo também o sonho de querer ter as coisinhas de um jeitinho, personalizar, do nosso gosto e querer ver também em seguida logo, se Deus quiser, arrumado — relata Andriellen Santos.

O queridinho
Nos eventos automotivos, um modelo costuma se destacar. O Fusca, queridinho dos brasileiros, ganha tanto em volume quanto em variedade de modelos, desde os que mantêm 100% da originalidade aos que se destacam pela customização.
Dados do Detran-RS reforçam esse protagonismo. Entre os veículos com ano de fabricação até 1990 em circulação no Estado, o Fusca ocupa o topo. A versão 1.300 está na primeira posição, com 94.109 unidades, e a versão 1.500 está no quinto lugar, com 30.212 veículos.
Especialistas e entusiastas afirmam que pontos como o fato de o Fusca ter liderado por anos a lista de mais vendidos, sendo expressão máxima do carro popular e o primeiro veículo de muitos brasileiros, ajudam a explicar essa paixão.
— A criança não sabe o que são outros carros, mas o Fusca ela conhece. Acho que fala papai, mamãe e Fusca — brinca Marco Escada.

O fotógrafo também destaca que as características do automóvel o tornam um dos favoritos dos customizadores:
— Além de ele ser o mais popular, o mais querido, ele também é o mais personalizável. É difícil outro carro que se consiga fazer tantas adaptações e fique tão diferente um do outro como o Fusca.
Carregando a história da família no Fusca
Criado pelos avós, Mathias Edvino Haeflinger e Erna Haeflinger, em Nova Boa Vista, no norte do Estado, o advogado Paulo Haeflinger carrega no Fusca amarelo 1977 boas lembranças do convívio com eles.
Paulo comprou o carro do avô, em 2015. Após a morte deles, decidiu fazer uma homenagem na restauração do veículo. O Fusca carrega a assinatura de seu Mathias na lataria, a boina dele no interior e fotos do casal nos botões do painel.
Hoje, morando em Porto Alegre, Paulo entende que desfilar com o carro pela cidade e pelos encontros é uma forma de manter viva a lembrança e a história dos seus avós, os homenageando e preservando a herança afetiva que eles deixaram. Ao entrar no veículo, o advogado lembra dos passeios com os avós e com a filha, momento em que três gerações da família construíam memórias com o Fusca.
— Meus avós me criaram desde que nasci, então andar aqui dentro é uma homenagem a eles. Lembro de irmos buscar farinha para fazer pão e do meu avô me levando para a escola. Tudo o que sou hoje devo a eles — relata Paulo, com os olhos marejados.
Nos encontros automotivos, o Fusca amarelo de Paulo é um dos que mais chama a atenção, rodeado por amigos e parceiros de paixão por carros antigos.
— Um momento triste se tornou alegria. Meu avô foi enterrado com a música Eu quero ter um milhão de amigos e ter esse Fusca é continuar essa busca — analisa.
O carro antigo tem a capacidade de unir pessoas, gerações e histórias, unindo a vivência automobilística com a familiar.
PAULO HAEFLINGER
Advogado e proprietário de Fusca
Paulo gastou R$ 100 mil no carro, levando em conta serviços como lataria, estofaria e acessórios. O processo de restauração durou cerca de dois anos, segundo o advogado.
Plano para a quinta geração

A memória dos avós não é exclusividade de Paulo. Fuscas que representam herança e preservação do legado familiar são encontrados com frequência em encontros como o Quinta Noturna. Orgulhosos, os donos dos veículos se emocionam ao contar como mantêm a história dos antepassados e pretendem passar adiante essa paixão. É o caso do empresário Marcelo Machado, 51 anos, atual dono do Fusca 1974 que era de seu avô.
Depois de conseguir passar o carro para seu nome neste ano, após abrir o inventário dos avós, ele planeja iniciar um projeto para ir até Ushuaia, em fevereiro de 2028. E a aventura não para por aí.
— Esse Fusca era do meu avô, ele tirou zero na revenda e ficou com ele por 20 e poucos anos. Passou para o meu tio que, em 2010, passou para mim. Pulou a geração do meu filho, que não gosta de carro antigo, e a ideia agora é passar para a quinta geração: meu neto que mora em Nova York — conta Machado.
O empresário recorda momentos que passou com o avô dentro do Fusca. E destaca como sonha em replicar parte disso para o neto:
— Lembro de andar atrás, na "cachorreira", ou de botar o joelho nas costas do meu avô enquanto ele dirigia. Quando entro no carro, sinto um cheiro diferente, me lembro dele dirigindo e parando para fumar. É um legado que quero levar para o meu neto. Ele tem quase quatro anos e nem sabe que vai ganhar o carro. Será uma surpresa para quando ele puder dirigir, aos 15 anos, nos Estados Unidos.
Paixão à primeira vista
Mas nem sempre o amor pelo Fusca é forjado pelo tempo ou por lembranças familiares. Às vezes, é paixão à primeira vista, como ocorreu com Pedro Candiago, 40 anos. Dono de um Fusca preto, ano 1975, o programador gostava de veículos clássicos maiores. Mas, em 2021, se encantou pelo Fuscão preto e resolveu comprá-lo. Desde então, gastou R$ 36 mil em customizações.
— Na verdade, eu nunca pensei em ter um Fusca. Quem comprou foi meu sogro e, quando vi, me apaixonei: Fuscão preto, o "Fusca Mafioso". Incomodei ele para me vender. Ele ficou duas semanas com o carro e me vendeu. Aí comecei a ajeitar do meu gosto: bancos, direção, teto e rodas. Eu sempre gostei de Opala e Maverick, mas esse foi amor à primeira vista por causa da cor — explica.
Pai de Fuscas
Alguns felizardos conseguem unir a paixão pelos carros clássicos com a profissão. Quando criança, o empresário e mecânico Atila Israel Machado Fontoura, 54 anos, se escorava no portão de casa e admirava os carros que passavam, principalmente os Fuscas. Na adolescência, viu a oportunidade de se aproximar dos carros ao ir trabalhar na oficina do tio, especializada na manutenção de Volkswagen e DKW. Não teve jeito, a paixão, principalmente pelo Fusca, cresceu ainda mais.
Anos depois, após atuar em outras áreas do setor automotivo, conseguiu realizar o sonho de fundar a sua própria oficina, especializada em veículos Volkswagen refrigerados a ar — categoria que inclui, além do Fusca, modelos como Kombi, Variant e Brasília. Fundada há oito anos, a Air Blower Garage, na zona norte de Porto Alegre, é referência na manutenção desses veículos.
— É fazer o sonho virar realidade. Meu sócio hoje é meu filho mais velho, que se criou comigo dentro do Fusca. Eu criei o meu trabalho, criei um caminho. Isso para mim é motivo de muito orgulho. Cada carro que a gente faz é um filho que o cara faz. Hoje, não somos só uma oficina, somos uma grande família. O pessoal entra sorrindo, toma um café, porque aquilo ali mexe com eles.
Sócio do pai, Atila Israel da Rosa Fontoura, 35 anos, o Atilinha, também virou um apaixonado por Fuscas.
— Quando eu tinha uns cinco ou seis anos, andava de Fusca com meu pai. Com oito anos, ele me deixou desmontar o primeiro motor. Com 12 anos, eu ajudei a montar. Então, ali já deu aquela coisa no coração, de gostar do motor. E trabalhar com o meu pai é um privilégio — resume.
Atilão, o pai, destaca que vem observando uma alta na procura por Fuscas num passado recente, o que também aumenta a média de valores desse modelo:
— A demanda aumentou muito. A busca pelo carro antigo em si aumentou muito o valor. E o Fusca ainda é um carro mais barato em relação a outros. A maioria dos clientes hoje, caras com 50 ou 60 anos, com a vida estabilizada, querem ter aquele Fusca do jeito que viam no passado. Outros têm muitos apegos, o carro era do pai ou do tio, e ele vai restaurar e customizar para continuar na família, para ser do filho ou do neto.
Na oficina dos Fontoura, em meio a Fuscas, Brasílias, Kombis e Gols BX, o barulho das ferramentas é interrompido, vez ou outra, pelo ronco grave e cadenciado que parece reverberar pela oficina como pequenas batidas metálicas ritmadas. O cheiro de gasolina toma conta do ambiente, completando um cenário que remete a décadas passadas, quando os Fuscas dominavam as ruas, eram táxis, viaturas e transportavam famílias e suas histórias.



