A tarde começou a escurecer pouco antes das 18h na terça-feira (28). De dentro de casa, no Centro de Giruá, o produtor rural Roberto Prestes, 42 anos, observava uma nuvem diferente se formando no horizonte, na direção da fronteira com a Argentina.
— Era um cone. Um negócio horrível. A gente via aquilo e não imaginava que estava tão perto. Nunca pensei que ia passar no chão daquele jeito — lembra.
Era o início da trajetória do tornado que, em poucos minutos, cruzaria áreas rurais de Senador Salgado Filho, Giruá e Sete de Setembro, deixando um corredor de destruição.
O primeiro contato com o solo ocorreu nas proximidades de Senador Salgado Filho. Depois, o fenômeno avançou em direção à localidade de Rincão dos Ribeiros, no interior de Giruá, na divisa com Sete de Setembro. Foi ali que atingiu seu ponto mais devastador.
Rastro de destruição em Giruá
Na propriedade da família Amaral, seis pessoas viviam distribuídas em três moradias no mesmo terreno. Na parte mais baixa estavam os pais de Gilço Amaral. Mais acima, moravam Gilço, a esposa Diele e a filha de três anos. Ao lado, em um pequeno puxado, vivia a avó dele, Nilda Paz do Amaral, de 86 anos.
O relógio marcava cerca de 17h40min quando Gilço Amaral retornou do trabalho. Servidor da Prefeitura de Sete de Setembro, chegou em casa, foi direto ao galpão tratar os animais e preparar o serviço da propriedade. Do alto do terreno, viu o tornado se aproximando na direção onde hoje restam árvores arrancadas e estruturas destruídas.
— Quando olhei, vinha naquela direção. Minha esposa disse para fecharmos a porta da garagem, mas ela não fechava. Ficamos segurando por alguns segundos. Ela disse: "Vamos largar, vai destruir tudo". Ela correu e eu fui atrás.
Os dois ainda conseguiram entrar na casa. Diele puxou o marido pelo braço até um dos quartos e ambos se esconderam embaixo de uma mesa. O abrigo improvisado foi a única proteção enquanto a estrutura começava a desabar:
— Foi questão de uns 20 segundos. Começou a cair parede por cima da gente. Quando vi, não tinha mais nada.
Ao lado, dona Nilda aquecia água no fogão quando ouviu o neto gritar para que fechasse a casa. Ela desligou o fogo e tentou sair, mas não houve tempo. A idosa ficou presa entre os escombros. Mesmo machucada, continuou chamando pelos familiares.
— Quando eu quis voltar, a casa caiu. Eu gritava, gritava, e ninguém respondia. Pensei que estavam na mesma situação que eu — relatou a idosa.
O celular de Gilço acabou registrando os últimos instantes antes da destruição. Às 18h28min, ele gravou o tornado se aproximando e enviou as imagens para um grupo de cavalgadas no WhatsApp. Dois minutos depois, no mesmo grupo, áudios de pedidos de ajuda foram enviados por Gilço.
As mensagens chegaram ao primo Nilson Paz. Sem energia elétrica, ele sequer conseguiu abrir os vídeos. Só entendeu a gravidade da situação quando outro integrante do grupo telefonou perguntando se ele havia visto o que estava acontecendo. Sem esperar por mais informações, entrou no carro e seguiu para a propriedade e foi um dos primeiros a chegar:
— Ele chamava: "Vó, onde é que tu tá?". Conseguimos tirar ela primeiro e depois fomos ajudar a tia, que ficou presa entre uma pia de madeira e o fogão.
Enquanto alguns moradores retiravam dona Nilda, outros tentavam localizar os pais de Gilço. Entre eles estava Edegar Amaral, um dos primeiros familiares a alcançar a propriedade. A primeira cena que encontrou permanece viva na memória.
— O pai dele vinha de quatro, todo cortado na cabeça. Não conseguia caminhar. Coloquei ele sentado e disse para não se mexer até chegar ajuda — relembra Edegar.
Quatro integrantes da família ficaram feridos. Três já receberam alta hospitalar. Apenas o pai de Gilço permanece internado. Inicialmente atendido em Santo Ângelo, ele foi transferido para o hospital de Guarani das Missões.
Tornado se desfez em Sete de Setembro
Depois de cruzar Rincão dos Ribeiros, o tornado seguiu seu deslocamento em direção ao interior do município de Sete de Setembro. Da cidade, o operador de máquinas Edinei Politoski conseguiu acompanhar parte da trajetória do fenômeno até perceber que ele começava a perder força:
— Primeiro ele se desmanchou na parte de cima. Depois foi diminuindo a parte de baixo. Ficou só aquele barulho muito forte.
Mesmo assim, o tornado provocou estragos severos em propriedades rurais. Uma delas foi a do produtor Jair Wolf. Antes da chegada do fenômeno, a família enfrentava cerca de 20 minutos de chuva de granizo. Depois, veio um silêncio repentino.
— As pedras pararam e ficou tudo calmo. Em menos de um minuto começou um vento muito forte. Durou entre 15 e 30 segundos. Foi o suficiente para derrubar tudo — conta Wolf.
O chiqueiro, construído há apenas dois anos com estrutura reforçada, desabou completamente sobre cerca de 500 animais — entre gado e suíno. Galpões foram destruídos, postes caíram, árvores de grande porte foram arrancadas e portas metálicas foram lançadas a mais de 100 metros de distância.
— Não sobrou nada. Agora precisamos retirar os animais que ficaram presos embaixo da estrutura e começar tudo de novo — relata Jair.




