
A confirmação de um incidente radioativo envolvendo traços de tecnécio-99 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, levantou dúvidas sobre o elemento químico, seus usos na medicina e os riscos à saúde.
Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o caso aconteceu durante a retirada de sensores biológicos de uma máquina de esterilização utilizada no processo produtivo de um radiofármaco.
A Universidade de São Paulo (USP), responsável pelo campus da Cidade Universitária, e o Ipen não responderam às tentativas de contato do Estadão.
O 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter, explicou que o tecnécio é um elemento químico radioativo utilizado principalmente na medicina diagnóstica:
— Ele é um elemento radioativo e artificial da tabela. Existe natural também, mas esse que nós usamos é produzido artificialmente a partir do molibdênio.
Segundo Botter, o molibdênio também é radioativo e, ao emitir radiação, transforma-se em tecnécio. O processo faz parte da chamada desintegração radioativa, fenômeno em que um elemento químico se converte em outro ao liberar energia.
Denúncia anônima levou à investigação
A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) investiga a possível contaminação e o vazamento de material radioativo, que teriam acontecido no dia 29 de maio.
A ANSN, que afirma ter tomado conhecimento dos fatos por meio de uma denúncia anônima, informou que foram solicitadas informações ao Ipen para verificação dos fatos relatados e a investigação está ocorrendo.
No relatório da Cnen, o órgão indica que o incidente envolveu dois trabalhadores, os quais foram submetidos a exames in vivo (contador de corpo inteiro). As contagens de radioatividade detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna. A contaminação ficou restrita à área controlada, do Centro de Radiofarmácia do Instituto.
Em nota, a ANSN explica que a radiofarmácia do Ipen tem autorização de operação vigente e informa que expediu notificação para o instituto, com prazo até a próxima quinta-feira (18), com dois conjuntos de solicitações: o primeiro conjunto diz respeito à manutenção das condições de licenciamento da instalação, como previsto na regulamentação; e o segundo conjunto tem pedidos de esclarecimentos em relação à denúncia recebida pela autoridade a respeito do possível vazamento.
Por que o tecnécio é usado na medicina?

De acordo com o especialista Wilson Botter, uma das principais características do tecnécio é seu curto tempo de meia-vida, duração de apenas seis horas. Segundo o químico, isso significa que a substância perde rapidamente sua atividade radioativa, característica que favorece seu uso em exames médicos.
O elemento é empregado principalmente em cintilografias, exames que permitem visualizar órgãos e tecidos por meio da emissão de radiação detectada por equipamentos específicos.
O especialista explica que o tecnécio é associado a substâncias que possuem afinidade com determinados órgãos ou tecidos. Após a aplicação no paciente, a radiação emitida pelo elemento é captada por detectores e processada por softwares capazes de gerar imagens do local examinado.
— Você injeta o tecnécio no organismo, esse tecnécio vai estar ligado a uma molécula que os ossos, quando é cintilografia óssea, ou o coração, quando é um exame cardiológico, têm afinidade — explicou.
Quais são os riscos da exposição?

Botter afirma que materiais radioativos podem causar danos ao organismo quando há exposição suficiente para afetar células e moléculas do corpo.
— Essa energia pode aquecer o material, pode destruir ligação química — falou.
Segundo o especialista, em situações mais intensas, a radiação pode provocar alterações celulares e até mutações no DNA:
— Quando você altera a estrutura do DNA dentro da célula, essa célula pode começar a produzir uma célula mutante, porque ela tem um DNA diferente, e essa célula mutante a gente chama de câncer.
Apesar disso, o especialista afirma que a gravidade dos efeitos depende da intensidade da exposição, da quantidade de material envolvida e do tempo de contato.
— Essa radiação do tecnécio é de baixa energia, são raios gama, e não para você ter uma ação muito intensa de produzir a mesma situação que aconteceu com o césio em Goiânia, você precisa de alta exposição, alta exposição, uma dosagem muito grande — disse Botter.
O que se sabe sobre o caso do Ipen?
Com base nas informações divulgadas até o momento, Botter não considera o episódio grave. O especialista ressalta ainda que profissionais que atuam em laboratórios e centros de produção de radiofármacos trabalham sob protocolos rigorosos de segurança.
— Esse tipo de contaminação não costuma ser grave, porque os técnicos são treinados, os técnicos sabem com o que eles estão lidando — comentou.
O representante do Conselho Federal de Química também destacou a importância dos profissionais da química na produção de radiofármacos e em processos relacionados ao uso seguro de materiais radioativos na área da saúde.


