
A pressão nos preços do petróleo gerada por tensões geopolíticas globais — sobretudo a partir da guerra entre EUA e Irã — ampliou o debate sobre a dependência dos combustíveis fósseis. Enquanto o cenário abre oportunidades para eixos produtores emergentes — onde o Brasil se posiciona —, o momento se mostra ainda mais propício para acelerar as alternativas renováveis.
Mas substituir o petróleo não é tarefa da noite para o dia, aponta David Zylbersztajn, primeiro diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e uma das principais autoridades em energia no país. Para ele, o cenário atual é de soma, e não de exclusão imediata.
Em entrevista à GZH, o especialista, que também é professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes, analisa o atual momento energético, o impacto dos subsídios e o papel estratégico dos combustíveis verdes e das novas fronteiras de exploração, como a Bacia de Pelotas. Confira:
Qual a sua percepção sobre os rumos da transição energética? Não é tão simples substituir um combustível fóssil.
Não é. O petróleo, quando substituiu o carvão, demorou 100 anos para predominar. Claro que agora não vai levar tudo isso, mas, de qualquer maneira, o mundo ainda depende 80% dos combustíveis fósseis. E você tem questões tecnológicas, regulatórias, problemas econômicos... tem que ter competitividade para essa substituição. Estamos vendo aqui no Brasil energia renovável sobrando, mas não necessariamente sendo usada, pelo contrário, tem uma boa parte dessa energia que está sendo perdida. Não é um processo simples e nem rápido.
O excesso de oferta de petróleo ainda dificulta essa transição?
Na realidade, você não tem necessariamente essa transição, você tem o que estamos chamando de adição. Ou seja, você vai ter os dois caminhos juntos. O mundo, no passado, produziu combustíveis fósseis como nunca e produz renováveis como nunca. As duas opções vão caminhar juntas inevitavelmente e ao longo do tempo a participação dos fósseis provavelmente vá caindo, mas não necessariamente com a velocidade que seria desejável. Existe uma realidade de países que dependem muito, para produção de energia, de energia elétrica. É bem complicado.
O que a reorganização do mercado global em torno dos combustíveis fósseis traz de oportunidades para o Brasil?
As oportunidades são muitas. No curto prazo, o Brasil ganha financeiramente por ser um grande exportador de petróleo. Tanto a Petrobras quanto a União, Estados e municípios que recebem participações governamentais e royalties, vão ter uma receita extraorçamentária que não estava prevista. No médio e longo prazo, o Brasil vai crescer sua produção e o mundo vai começar a procurar, além de substituir o petróleo quando for possível, outros locais alternativos ao suprimento de óleo e gás.
O Brasil é pioneiro no mundo em uso efetivo da participação dos biocombustíveis na sua frota.
DAVID ZYLBERSZTAJN
Presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes
O Brasil desponta como um parceiro estratégico: possui estabilidade institucional, respeita contratos e está geograficamente próximo da Europa e da América do Norte. Temos condições mais amigáveis e estrategicamente melhores do que os países do Oriente Médio, que só têm como principal receita a exportação de petróleo. Não é o caso do Brasil, mas é importante para o país, sim. O petróleo é o principal item da pauta de exportação no Brasil hoje.
Isso também abre um espaço maior para os biocombustíveis.
Com certeza. Os biocombustíveis hoje são alternativos. Mas aí é não só buscar alternativas, como também aumentar a participação deles no combustível que usamos nos nossos automóveis, ônibus e caminhões. No caso da gasolina, já há uma previsão de aumento da participação do etanol. Inclusive, nesse momento, o etanol está muito competitivo em relação à gasolina.
Temos projetos privados de produção de biodiesel a partir da macaúba, além dos que já estão feitos com óleo de palma, com soja. E o biometano, que também tem uma possibilidade grande de crescer. Não necessariamente eles vão predominar, mas vão criando alternativas.
A pressão internacional nos preços do petróleo, inclusive, acelerou os debates em relação ao aumento das misturas no Brasil. Qual a viabilidade técnica dessa medida?
Os testes estão em andamento. O etanol já está a 30% e vai para um patamar bastante alto. Se estuda elevar o biodiesel a 20%, mas fora do Brasil já tem essa mistura. Existe e já está em curso um processo de teste de avaliação que eu acho que vai acontecer em algum momento. Tem muita resistência, muita gente acha que pode dar problema, mas quem for definir, no fundo, vai ter que ouvir a indústria. Se tiver o aval da indústria que produz os equipamentos, que vão consumir esses produtos, não tem o que questionar. Aí você entra na questão da avaliação econômica. Vai sair mais caro ou mais barato? Porque hoje, por exemplo, ao preço que está o diesel no mercado internacional, seguramente você tem uma viabilidade econômica, ele é bastante competitivo. Tem que avaliar no futuro como isso vai funcionar.
A instabilidade no mercado internacional respinga em uma série de países, e o Brasil não sai ileso. Como o governo brasileiro pode se proteger e mitigar impactos de novas eventuais crises no fornecimento de petróleo e diesel?
Não dá para blindar o mercado 100%, mas é possível amortecer os impactos. O governo está trabalhando para proteção com subvenção, em partes está funcionando, o mercado continua funcionando também, e tudo indica que não haverá desequilíbrio fiscal por conta da receita extraordinária que está entrando do petróleo exportado pela Petrobras. A questão é quanto tempo dura uma guerra e se isso não vai impactar nas contas públicas. A subvenção não é a única alternativa, mas é uma das para minimizar esses problemas. Boa parte dos países está fazendo coisas similares ao que está sendo feito aqui no Brasil.
Além dos subsídios, o que mais está ao alcance do país?
Além do subsídio, há uma questão de otimização de frota, de logística, de renovação e melhorias das estradas. Não estamos passando por uma crise dramática como diversos países do mundo estão, então qualquer melhoria em termos de eficiência do nosso meio de transporte de carga, por exemplo, faz diferença. O nosso problema é a importação, mais ou menos 30% do que se consome no Brasil. Quando há algum aumento mais expressivo você tem um ajuste de mercado para consumir menos e se tornar mais eficiente. Naturalmente, o mercado também ajusta. É claro que você pode ter apoio do governo com a questão de financiamentos, de melhoria nas estradas, de renovação da frota. Isso tudo pode ser feito, mas os impactos não são para a semana que vem. Mas é uma postura que deve ser perseguida pelo governo.
O senhor defende que a solução para os momentos de crise nos combustíveis reside na previsibilidade e na clareza regulatória. Como aplicar isso?
Acho que o único risco que você tem no caso de as coisas não acontecerem adequadamente é começar a interferir no funcionamento do mercado. Claro que a regulação é fundamental para se ter um mercado competitivo. Se você não tiver o órgão regulador e a regulação, você não tem um mercado funcionando. Por outro lado, quando você começa a extrapolar medidas coercitivas intimidatórias que inibem o investimento, o funcionamento do mercado, o risco de ter problema é grande.
A ANP funciona bem na questão da regulação, mas quando a coisa extrapola disso, como por exemplo controle de margens, de preços, definição do que é abusivo, do que é arbitrário, do que seja, você começa a sair do campo delineado para o campo subjetivo.
Quando você tem a subjetividade, é uma tragédia. Quando há subjetividade, não se consegue ter previsibilidade. E quando você não tem previsibilidade, você inibe investimentos.
Como coerção você se refere à pressão que houve em relação aos postos?
O impacto maior foi no diesel, que teve no mercado externo crescimento de mais de 60% no preço, e, aqui, de 20%. Isso é inevitável. Você tem uma guerra lá fora que a culpa não é nossa, mas que a conta bate aqui também. E pode acontecer com qualquer commodity. Há um aumento que é ruim, mas esse aumento não é por causa da distribuição nem dos postos de gasolina, que representam pouco mais de 10% do total do custo final. Você tem preço de produção da Petrobras, o custo a importação e tudo isso impacta. O posto de gasolina é o final da cadeia, que em termos de participação é a menor de todas. Aumentar 10% no preço da bomba vai representar 1% do preço final. Isso é importante esclarecer também.
O petróleo tem deixado de ser apenas questão de geologia para ser, cada vez mais, questão de geopolítica. Novas fronteiras petrolíferas nas Américas podem substituir a relevância energética do Oriente Médio?
Acredito que sim. Do Canadá à Argentina, praticamente todos os países da costa atlântica possuem recursos fósseis expressivos, além do gigantismo em renováveis. Estados Unidos, México, Guiana, Venezuela, Brasil e Argentina formam um eixo produtor de peso. Na substituição do Oriente Médio, claro que não total, ganha uma relevância muito grande. Estados Unidos, México, Guiana, Venezuela, Brasil, Argentina, o Caribe também. É um eixo importante em termos de produção e disponibilidade de reservas.
Quanto ao petróleo, tem que haver a clareza de que só temos certeza de que ele existe quando a gente fura.
Isso inclui a Bacia de Pelotas?
Sim, também. É uma nova fronteira. A Petrobras considera duas novas grandes fronteiras: a Bacia de Pelotas e a Bacia da Foz do Amazonas. Isso está muito forte no radar da Petrobras e de outras empresas também. Agora, quanto ao petróleo, tem que haver a clareza de que só temos certeza de que ele existe quando a gente fura. Por mais que a tecnologia tenha evoluído, não é uma loteria, mas também não é uma certeza. Os indícios são cada vez melhores, mas para o indício se transformar em certeza, você tem que perfurar. Isso toma tempo, requer investimentos, demora alguns anos. E é o que estão fazendo agora em relação à Bacia de Pelotas.

