
Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, 21 anos, ainda apresentava sinais vitais quando foi alcançada pelas primeiras pessoas que desceram para socorrê-la após cair de cerca de 40 metros durante um salto de rope jump na Ponte do Esqueleto, em Limeira, no interior de São Paulo no último sábado (13). As informações são do jornal O Globo.
O relato é da enfermeira Rayza Dias, que participou do atendimento e disse a um canal de televisão ter encontrado a jovem com respiração ofegante e pulso fraco, mas presente.
A enfermeira descreveu a dificuldade para chegar até a vítima, que foi lançada em queda livre sem estar presa às cordas de segurança.
— Ralei toda a minha mão porque ali é uma ribanceira e havia apenas uma corda para descer. Eu estava coberta de barro — relatou.
Segundo Rayza, Maria Eduarda chegou a reagir durante o atendimento.
— Vi que ela estava com a respiração ofegante e olhei para as pupilas dela, que infelizmente estavam dilatadas, as duas. Senti a pulsação, estava bem fraca, mas ela ainda tinha pulsação — afirmou.
A enfermeira contou ainda que falou com a jovem enquanto tentava socorrê-la.
— Ainda conversei com ela. Tenho mania de brincar e dizer: "Ninguém morre no meu plantão". Falei para ela: "Duda, ninguém morre no meu plantão", mesmo sem estar de plantão ali — contou.
Presos alegam "apagão" e dizem não lembrar quem checou a corda
Em depoimentos à Polícia Civil, divulgados pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (14), dois dos três homens presos alegaram ter sofrido um "apagão" durante os preparativos e disseram não conseguir explicar em que momento deixaram de prender as cordas de segurança em Maria Eduarda.
Um deles, Luis Felipe Feliciano Egoroff, afirmou que a equipe não seguia uma divisão fixa de funções e que a conferência dos equipamentos era feita de forma compartilhada.
— Às vezes um não coloca, outro confere, outro confere, outro coloca. Às vezes um faz, o outro vem e vê se está certo. Era mais ou menos isso — declarou.
Questionado se era o responsável por instalar o equipamento ou fazer a checagem final antes do salto, Luis Felipe respondeu que não se lembrava.
Outro instrutor preso, Maicon Fernandes Cintra, disse participar da conferência dos equipamentos, mas também afirmou não recordar se fez a verificação no caso da estudante.
O terceiro preso é Vitor de Freitas Gonçalves. Os três têm 27, 32 e 42 anos e foram presos em flagrante no sábado, com a prisão convertida em preventiva no domingo.
Um deles é bombeiro civil. Eram justamente os responsáveis por erguer e arremessar a jovem da ponte, segundo a investigação.
A Polícia Civil apura o caso como homicídio com dolo eventual, modalidade em que o autor assume o risco de provocar a morte, ainda que não tenha a intenção direta de matar.
— Eles estão em estado de choque, não conseguem explicar o ocorrido, porque já fazem isso há anos. Nunca houve nenhum evento semelhante — disse Rafael Gomes dos Santos, advogado dos três, que ressaltou ainda que eles têm ampla experiência na atividade.
Operação informal e câmera desaparecida
Não havia uma empresa formalmente constituída por trás dos saltos, segundo a delegada responsável pelo caso. Os organizadores atuavam de forma autônoma, sob as marcas "Ih Voei" e "Entre Cordas", e divulgavam as atividades por meio de perfis em redes sociais.
Após a repercussão da morte da jovem, as páginas foram retiradas do ar. Juntas, somavam cerca de 100 mil seguidores e registravam saltos inclusive com crianças.
Maria Eduarda pagou R$ 180 pela experiência e mais R$ 150 pela gravação do salto com uma câmera de 360 graus. O equipamento, que poderia esclarecer os instantes que antecederam o acidente, não foi localizado até agora. Em dezembro de 2025, o mesmo tipo de salto com a "Entre Cordas" custava R$ 130.
A operação tinha agenda futura: uma nova data na Ponte do Esqueleto, em 11 de julho, além de saltos previstos em Rio Claro, por R$ 210, e em Minas Gerais, por R$ 250.
O que aconteceu na ponte?

Maria Eduarda, formada em Educação Física e Gestão Esportiva e moradora de Jandira, na Grande São Paulo, saiu de casa no sábado para participar do salto.
Às 7h31min, publicou uma imagem da estrutura diante de placas que alertavam para o risco de morte no local. Em tom de brincadeira, escreveu: "Quem foi o doido que deixou eu vir pular de uma ponte???".
Pouco depois, ela foi conduzida à plataforma por integrantes da equipe e lançada na modalidade conhecida como "aviãozinho", em que o praticante é levado por instrutores antes da queda. As imagens mostram que três pessoas a ergueram e a arremessaram, mas a corda não estava conectada ao corpo.
Em um vídeo que circula nas redes sociais, testemunhas gritam "a corda" e "gente, a corda" ao perceberem a falha. O Corpo de Bombeiros e o Samu foram acionados, mas a morte foi constatada no local.
Ponte tem histórico de acidentes
A Ponte do Esqueleto é uma estrutura ferroviária inacabada, na zona rural de Limeira, próxima à divisa com Cordeirópolis. Está desativada há mais de três décadas, mas vinha sendo utilizada para atividades de aventura.
O imóvel pertence à União e já foi cenário de outras ocorrências graves. Em abril de 2024, uma ciclista morreu após cair da estrutura. Em agosto do ano passado, duas mulheres ficaram gravemente feridas na mesma região.
Há divergência sobre quem deveria controlar o acesso ao local. A prefeitura de Limeira afirmou que vai processar o governo federal por omissão, alegando que a fiscalização, a manutenção e o controle de entrada seriam responsabilidade da União e que vinha cobrando providências desde o início de 2025, sem resposta.
O prefeito Murilo Félix (Podemos) disse que os riscos no local já eram conhecidos.
Rope jump e bungee jump não são a mesma coisa
Embora os termos apareçam misturados em algumas publicações, as modalidades são diferentes.
No bungee jump, a pessoa salta presa a uma corda elástica, que se estica durante a queda e a impulsiona para cima em movimento repetido.
No rope jump, a corda é estática ou tem baixa elasticidade. Após uma queda inicial, o corpo passa a fazer um movimento pendular, semelhante ao de um balanço.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) possui norma técnica específica para o bungee jump, publicada em 2018, mas o rope jump segue sem regulamentação própria. A defesa dos presos argumenta que a prática não é regulamentada, mas também não é proibida.
O que ainda falta esclarecer sobre o caso
A investigação deve apontar como a falha passou pela checagem final antes do salto, quem era o responsável técnico pela atividade, se havia autorização para o uso da ponte, quais medidas de segurança foram apresentadas aos participantes e onde está a câmera de 360 graus que Maria Eduarda segurava.
Também permanece em aberto o alcance da responsabilidade sobre o acesso à estrutura.
De um lado, a prefeitura atribui a fiscalização ao Governo Federal; de outro, a morte ocorreu durante uma atividade organizada por uma equipe privada, com cobrança de ingresso e agenda de novos saltos.


