
O conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos e Irã, iniciado em fevereiro deste ano e encerrado após acordo assinado entre as duas nações, acrescentou novas nuances à corrida mundial pela transição energética. Se antes a substituição dos combustíveis fósseis era uma urgência exclusivamente ambiental, a partir do confronto a pauta se tornou uma questão de geopolítica e de ordem econômica.
A instabilidade no tabuleiro global ocorreu após o fechamento do estreito de Ormuz, uma das principais rotas de escoamento do petróleo — matéria-prima fundamental para o abastecimento de atividades que vão do transporte à alimentação. O Irã é o sexto maior produtor mundial da commodity, e qualquer alteração nessa engrenagem implica aumento nos preços dos barris e na oferta do derivado.
Desde o início dos confrontos, o petróleo tipo Brent, referência internacional, chegou a subir mais de 40% nos mercados globais. Quanto menor o fornecimento e maior a valorização, mais pressionado fica o comércio, deflagrando uma verdadeira corrida entre os países para reduzir a dependência da fonte fóssil.
Oportunidade para a matriz brasileira
Para os especialistas do ramo, apesar da crise imediata gerada pela escassez, o momento é de oportunidade estratégica, especialmente para as nações que já têm fontes alternativas entre os seus ativos, como o Brasil. O diretor do Instituto do Petróleo e dos Recursos Naturais da PUCRS, Felipe Dalla Vecchia, destaca o protagonismo brasileiro nos biocombustíveis, a exemplo do etanol, do biodiesel e do biogás, além dos projetos em andamento para o uso de hidrogênio verde.
Por reduzirem a emissão de carbono, os biocombustíveis têm o trunfo de mitigar o uso dos fósseis tradicionais. Ao serem misturados, o etanol e o biodiesel diluem não só o óleo, mas também a necessidade de importação para o abastecimento de frotas.
— É uma questão de soberania nacional e segurança energética. Quando há dependência de combustíveis importados por falta de autossuficiência, a crise se reverte em problemas sociais e econômicos. O Brasil tem uma matriz muito diversa. Se conseguir acoplar a produção de biomassa, passamos a ter uma vantagem competitiva sobre outros países — diz o diretor.
Parte da expansão dos biocombustíveis, combinada à maior capacidade produtiva, reflete-se no consumo. Ao mesmo tempo em que o governo federal avalia elevar as misturas obrigatórias na gasolina e no diesel, cresce o interesse da indústria e dos consumidores por outras opções limpas.
Professor e coordenador dos cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins chama atenção para o fator custo. Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, houve perda do poder de compra global, acelerando a busca por alternativas economicamente viáveis. Nessa lógica, entra a energia, impulsionada pela guerra atual.
— Independentemente de se buscar alternativas sustentáveis, há de se buscar o que seja viável economicamente — salienta o professor.
O avanço silencioso da frota elétrica

Cada vez mais presentes na mobilidade urbana, os veículos elétricos adquiriram nova importância com a crise internacional. Além de garantirem a descarbonização, os eletrificados lideram como aposta para a economia de bolso frente à escalada de preços.
No primeiro trimestre deste ano, quatro dos 20 automóveis mais vendidos no Rio Grande do Sul eram dessa categoria — três a mais do que em 2025. Além disso, um desses modelos figura no top 3 de vendas de automóveis. Os dados são do Sincodiv-RS/Fenabrave, entidade que representa concessionárias e distribuidoras no Estado.
A expectativa é de que o marco seja expandido a partir de políticas públicas que incentivem o seu consumo. Opções de financiamento com juro menor para motoristas de aplicativo, por exemplo, estão entre as ações.
Para o diretor técnico da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), Carlos Augusto Roma, por mais que as oscilações nos preços dos combustíveis sejam amenizadas com o distanciar dos conflitos, os investimentos em elétricos se justificam pela segurança que conferem e pela maior previsibilidade de custo.
— O governo vai tentar segurar o preço dos combustíveis o quanto ele puder, mas isso não consegue ser feito para o resto da vida, especialmente quando há uma questão fiscal comprometida. E o bolso é sempre a parte mais sensível do consumidor. Quem estava em dúvida, começa a considerar — avalia Roma.
Para o coordenador da FGV, apesar da substituição convidativa, os entraves para a expansão da frota, contudo, ainda ficam na conta da infraestrutura. Os usuários ainda se queixam da falta de pontos para abastecimento. O que faz, também, com que a frota fique atrelada à circulação urbana.
— Aí vêm os problemas que cercam os veículos elétricos. Um deles é ter a perspectiva de ter recargas em níveis satisfatórias. Em termos de mundo, excluindo a China, isso ainda é uma barreira muito grande — destaca Martins.
Em Porto Alegre, uma plataforma da PlugShare ajuda os motoristas a mapearem os pontos disponíveis para recarga. A Capital também inaugurou um eletroposto de carregamento ultrarrápido para esses veículos.
Outro ponto de atenção é o custo da energia elétrica, suscetível ao clima: em períodos de seca, a tarifa encarece devido à menor geração hidrelétrica. Por isso, os modelos híbridos (que combinam combustão e propulsão elétrica) continuam sendo a preferência para reduzir riscos e já ocupam 60% da frota de eletrificados no Estado.
Transição no campo e no transporte de carga

Ainda que o transporte individual ocupe boa parcela do consumo, a transição vai muito além dos carros leves. Máquinas agrícolas e geradores de energia também entram na rota de mudança.
No campo, tratores movidos a biometano ou etanol já são realidade. Fabricantes tradicionais investem em tecnologias voltadas à sustentabilidade dos motores rurais. Nesta esteira, a Massey Ferguson lançou o primeiro motor agrícola nacional movido a etanol, fabricado em Mogi das Cruzes (SP).
— O aumento do diesel impacta direto o custo no campo. Os novos motores a etanol atendem à demanda por redução de custos e emissões. É vantajoso para produtores que já plantam milho ou cana, pois podem gerar o próprio combustível na fazenda, criando um ciclo autossuficiente — afirmou o diretor de Marketing da marca, Breno Cavalcanti, no lançamento.
No caso do biometano, ainda há a vantagem de que o combustível possa ser gerado a partir de biomassa excedente da própria atividade rural. Montadoras como a New Holland, por exemplo, foram pioneiras nos lançamentos nesta frente, como no caso do trator T6 Methane Power.
No transporte de cargas, onde o custo com frete e combustível é ainda mais determinante para as operações logísticas, a transição energética passa pela maior adesão ao uso do gás natural veicular, o GNV, e do biometano. Os caminhões movidos por essas fontes podem reduzir em até 99% a emissão de material particulado.
Além do ganho ambiental, há o comercial: ambos apresentam maior previsibilidade de gastos. Por isso, a migração do diesel para alternativas sustentáveis ganha relevância de concorrência em meio à disparada dos preços dos tradicionais. No Rio Grande do Sul, o diretor do Instituto do Petróleo da PUCRS cita iniciativas como o BioHub, liderado pela Sulgás. O ponto, a ser implementado em Esteio, receberá gás 100% renovável de produtores para expandir a distribuição.
Alternativas para geradores de energia

Da mesma forma que os veículos, os geradores de energia movidos a diesel encontram novas opções de abastecimento. Referência em combustíveis verdes, a Be8, de Passo Fundo, abasteceu os geradores do South Summit 2026 com seu combustível renovável, o BeVant.
Em substituição ao diesel fóssil, o produto garante desempenho equivalente com menor impacto ambiental. A confiabilidade da tecnologia já foi testada no GP São Paulo de Fórmula 1, na Copa Truck e na Rota Sustentável, que levou ônibus e caminhões de Passo Fundo ao Pará para a COP 30, em novembro do ano passado.
Tecnologia híbrida como saída estratégica
Enquanto os biocombustíveis puxam a frente em produção, as iniciativas que combinam mais de uma fonte sustentável inauguram outro momento na mobilidade. Associar o combustível verde a outras fontes limpas virou visão estratégica de mercado.

A multinacional Marcopolo desenvolve um protótipo inédito de ônibus urbano híbrido elétrico/etanol. Ao unir as duas tecnologias, o modelo elimina a dependência de infraestrutura de recarga plug-in, hoje o principal gargalo nacional para a expansão da frota elétrica.
— O veículo recarrega suas baterias de maneira automática e contínua através de um motor gerador abastecido com etanol em qualquer posto. Não precisa de tomada nem de horas parado na garagem. A recarga é instantânea — explica Renato Florence, gerente de Engenharia de Planejamento e Desenvolvimento da Marcopolo.
O protótipo está em fase de homologação para comercialização no fim deste ano, inicialmente na linha de micro-ônibus Volare, com capacidade de expansão para os segmentos urbano e de fretamento.
A iniciativa amplia o portfólio sustentável da companhia, que já oferece soluções a biodiesel, biometano, elétrico puro e hidrogênio verde. A expectativa é de que o modelo híbrido atenda ao transporte urbano, rodoviário, escolar (via programa federal Caminho da Escola) e clientes privados. Florence destaca a versatilidade da engenharia, que conversa com a lógica de um mercado “eclético e multienergia”.
Florence destaca a versatilidade da engenharia desenvolvida pela indústria de transportes, que conversa com a lógica de um mercado “eclético e multienergia”.
— Para o cliente que tem dificuldade de acesso à energia disponível ou que conta com etanol a um preço competitivo, esse espaço pode se tornar um oceano azul pela flexibilidade e disponibilidade da operação — conclui o gerente.
Seja no transporte individual, no agronegócio ou na logística de cargas, o redesenho do mapa energético global deixou de ser uma meta de longo prazo para se tornar uma urgência de mercado. Em um cenário de volatilidade extrema do petróleo, países e empresas que diversificam suas matrizes — apostando na complementariedade entre eletrificação e biocombustíveis — deixam de ser reféns da geopolítica fóssil para liderar a economia de baixo carbono.

