
Responsável por atender a dois terços dos municípios gaúchos, a Corsan vem adotando uma série de medidas com o objetivo de aumentar a confiabilidade do sistema de distribuição de água diante de possíveis desastres naturais — como a enchente de 2024, que deixou 906 mil imóveis sem abastecimento à época.
Diante do novo cenário climático, agravado pela expectativa de um novo El Niño este ano, a empresa aposta em medidas como diversificação de fontes de captação, melhorias estruturais e criação de estoques estratégicos de equipamentos como geradores e bombas. A concretização de um plano de resiliência de médio e longo prazo orçado em R$ 1,8 bilhão, porém, aguarda aprovação da agência reguladora.
Desde a grande cheia, a concessionária vem colocando em prática um redesenho estratégico e operacional. Isso envolve diferentes tipos de ação, com prioridade para melhorias estruturais em sistemas que atendem uma grande população e enfrentam condições críticas de operação.
Na Região Metropolitana, por exemplo, já foram feitas intervenções em Alvorada, Cachoeirinha e Canoas. Em Alvorada, foi erguida uma mureta de concreto para proteger a unidade de captação, que sofria com inundações recorrentes. Motores, transformadores e quadros elétricos foram elevados para operar acima do nível máximo de cheias. Foram realizadas melhorias estruturais semelhantes na Estação de Tratamento de Água (ETA) de Cachoeirinha.
Já em Canoas houve reforço na captação e instalação de equipamentos em estruturas flutuantes, além da elevação de quadros elétricos de comando. A ideia é de que o funcionamento da estrutura não seja interrompida por um eventual aumento no nível da água. Houve ainda instalação de sensores para monitoramento das condições em tempo real. Ao todo, essas intervenções beneficiam pouco mais de 1 milhão de pessoas.
— Quando a água chega a um determinado nível, aqui no centro de controle de operações a gente faz o alerta de um tipo de procedimento que tem de fazer. Quando chega a outro, fazemos outro tipo de procedimento. Então, hoje nós temos uma capacidade de suportar enchentes muito maior do que tínhamos — afirma o diretor de Operações da Corsan, José João de Jesus da Fonseca.
Estratégia inclui novas fontes e mais capacidade
Já na Região Central, os maiores investimentos se concentram em projetos voltados a aumentar a capacidade dos sistemas de abastecimento e a diversificar as fontes de captação. Conforme relatado em reportagem de Zero Hora publicada em 2 de junho, uma das principais estratégias da empresa é priorizar a busca de água em poços onde há viabilidade técnica, em vez de rios — mais sujeitos a problemas em caso de enchente, conforme a diretoria de Operações da Corsan.
Os projetos incluem a abertura de "superpoços" (como são chamadas as perfurações com centenas de metros de profundidade) em Cruz Alta e em Carazinho a custos de R$ 2,4 milhões e R$ 2 milhões, respectivamente. Em diferentes partes do Estado, recentemente foram desativadas oito ETAs que deram lugar a poços.
Ijuí foi contemplada com uma nova adutora de água bruta mediante um aporte previsto de R$ 9 milhões, com impacto direto em cerca de 32 mil imóveis. Em Santa Maria, foi priorizada a reforma de reservatórios e, em Venâncio Aires, a reativação de uma antiga ETA.
Outras medidas envolvem o monitoramento em tempo real da situação de unidades da Corsan e de 140 barragens, além da montagem de estoques de equipamentos como geradores a diesel para garantir fornecimento de energia, bombas extras e embarcações para eventual acesso a locais alagados.
Plano de resiliência climática sob análise
Apesar das melhorias já realizadas, o plano de resiliência mais robusto orçado em R$ 1,88 bilhão ainda aguarda para virar realidade. O conjunto de medidas, previstas para serem realizadas ao longo de cinco anos, envolvem intervenções em 55 cidades, com a realocação de 91 unidades operacionais para fora de áreas de risco de inundação, implantação de mais poços profundos como fonte alternativa, ampliação de reservas de interligação entre sistemas. Uma primeira etapa concentraria cerca de R$ 350 milhões em obras.
— Isso depende de aprovação da agência reguladora, porque é um investimento muito grande. Está em processo, em andamento. Estão estudando, trabalhando em cima disso, mas precisamos dessa aprovação — afirma Fonseca.
Procurada por Zero Hora, a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados (Agergs) informou por meio da assessoria de comunicação que "o processo ainda está em análise pela área técnica".
A tramitação do processo 001148-39.00/25-2 indica que ele teve início em maio do ano passado para tratar de diferentes questões regulatórias. Em janeiro deste ano, conforme o fluxo de documentos disponibilizado à reportagem pela Agergs, foi anexado o Plano de Resiliência Climática. Não foi informada uma data para conclusão da análise.
Eletricidade é ponto sensível, diz especialista
Engenheiro especialista em saneamento, Eduardo Carvalho afirma que é preciso adotar diferentes medidas para aumentar a segurança de um sistema de abastecimento durante eventos extremos. Isso inclui medidas fundamentais já previstas pela Corsan, como elevação de equipamentos elétricos.
— A primeira coisa importante a fazer é elevar todas as instalações elétricas das estações de captação, de bombeamento e de tratamento — afirma Carvalho, que também é diretor do Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul (Senge-RS) e sócio da consultoria Rede Gestão Integrada.
O especialista acrescenta que é fundamental ainda evitar quedas no fornecimento de energia. Embora geradores sejam uma boa alternativa, ele sugere uma medida mais eficaz:
— O ideal é fazer também uma rede elétrica dedicada (exclusiva) para esses sistemas. Se tu estás na mesma rede que atende a população em geral, por vezes a concessionária (de energia) pode precisar desligar a rede por segurança, para evitar risco de choques à população. Se faz uma rede dedicada, bastante elevada, evita isso.
Carvalho também defende o uso de equipamentos flutuantes, capazes de se ajustar à variação no nível de rios, e garantir estoque de produtos químicos nas próprias estações de tratamento para garantir a disponibilidade desses materiais. Em caso de enchente, pode ficar inviabilizado o transporte desses itens até o local de uso.
— Também é importante ter planos de contingência, como contar com outras cidades que possam fornecer água para caminhões-pipa, e já contar com empresas que tenham esses caminhões em caso de necessidade — exemplifica o engenheiro.
O diretor de Operações da Corsan, José João de Jesus da Fonseca, sustenta que a empresa já estabeleceu protocolos de ação mais avançados em comparação ao período anterior à cheia de 2024, por meio de monitoramento remoto e planos de ação conforme o nível da inundação. Porém, afirma que a garantia de energia elétrica ainda é um dos principais desafios:
— O problema que temos hoje é quando vêm os vendavais que derrubam vários postes de energia, por exemplo. A principal questão é o fornecimento de energia. Temos alguns geradores, mas funcionam a diesel, então não são uma solução permanente.




