
Na vanguarda dos combustíveis sustentáveis desde a década de 1970 — quando a transição energética respondia a outras urgências —, o Brasil consolidou seu pioneirismo global ao criar o Pró-Álcool. Mais de cinco décadas depois, o tino produtivo nacional para fontes além do petróleo segue como um caminho estratégico viável, agora impulsionado por novas matérias-primas e investimentos bilionários.
Tradicionalmente fabricado a partir da cana-de-açúcar e, posteriormente, do milho, o biocombustível encontra terra fértil também no trigo e no triticale, expandindo a capacidade do país por meio da ciência e do agronegócio. O uso de cereais de inverno é tratado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como um novo marco energético, que ganhou ainda mais holofote diante da disparada nos preços do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos e Irã.
Com o alto custo na bomba — reflexo de tensões internacionais e gargalos logísticos internos —, o diesel e a gasolina perdem espaço gradativamente. Mais do que descarbonizar a frota, reduzir o peso no bolso do consumidor tornou-se uma das principais demandas da década.
Para Jerônimo Goergen, presidente da Associação das Empresas Cerealistas do Brasil (Acebra) e da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), o protagonismo nacional ganharia ainda mais espaço com maior incentivo à competitividade. Apesar dos desafios estruturais, novos aportes garantem um salto no setor, tendo como exemplo a virada produtiva a partir de cereais no Rio Grande do Sul.
— A guerra deu o alerta de que estamos perdendo tempo. O Rio Grande do Sul é o maior produtor e, portanto, o maior interessado nisso tudo — avalia Goergen.
Os investimentos bilionários no Estado se materializam no número de plantas industriais implementadas recentemente. Além das linhas de biodiesel em operação, usinas focadas exclusivamente no etanol ampliam a oferta, como a recém-inaugurada fábrica da CB Bioenergia, em Santiago, e o projeto da Be8, em Passo Fundo.
Especialistas dizem que, para ser competitivo, o etanol precisa custar até 70% do preço da gasolina. Este cenário foi alcançado em algumas regiões do país depois do conflito no Oriente Médio, atraindo maior apelo dos consumidores. Com oferta garantida no mercado interno, a expectativa é de que o etanol fique mais atrativo.
Projeções da consultoria Safras & Mercado indicam que o Brasil deve registrar crescimento de 10,71% na produção do biocombustível este ano, atingindo cerca de 43 bilhões de litros (somados os tipos hidratado e anidro).
O que é o etanol?
Fabricado principalmente a partir da cana-de-açúcar e responsável por puxar o movimento de transição energética brasileira, o etanol vive fase de expansão com o processamento de novas matérias-primas, como o milho. No Rio Grande do Sul, os cereais como trigo e triticale despontam como novas opções produtivas. Além de ser viável como combustível puro, o etanol pode compor a gasolina em teor até 27,5%.
Os tipos de etanol
- Etanol anidro: componente usado como mistura na formação da gasolina tipo C.
- Etanol hidratado: comercializado em todo o país como um combustível final. Aquele que está na bomba dos postos.
O que são biocombustíveis?
- Biocombustíveis são fontes renováveis de energia produzidas a partir de matérias-primas vegetais ou orgânicas, podendo substituir ou complementar o uso de combustíveis fósseis, como o petróleo.
- O etanol e o biodiesel são os principais biocombustíveis utilizados pela matriz brasileira.
- Biogás, biomassa e biometano são outros exemplos de produtos já desenvolvidos e em uso no país.
- A maior motivação para seu desenvolvimento é o potencial de reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
Embora ainda fique atrás do diesel e da gasolina em termos de participação total no consumo, o etanol é considerado “um colchão de segurança” quando há escalada de preços dos combustíveis no cenário internacional. O Brasil é o país que mais adiciona álcool à gasolina no mundo, o que reduz a dependência do combustível importado. Atualmente, o percentual de mistura é de 30%, mas a expectativa do mercado é de que a parcela seja ampliada para 35% até o fim deste ano, o que aumentaria sua produção.
A evolução industrial das últimas décadas consolidou o Brasil como um mercado de frota flex (veículos que rodam com álcool ou gasolina), que já passa de 40 milhões de unidades. Segundo o setor automotivo, o volume representa mais de 80% dos veículos leves em circulação no país.
Expansão da escala no norte gaúcho

É do norte gaúcho que sairá uma fatia importante do volume destinado a abastecer a nova demanda nacional, e quiçá, internacional. Com cronograma mantido para iniciar as operações em março de 2027, a usina em construção pela gigante Be8, em Passo Fundo, terá capacidade para produzir 220 milhões de litros por ano de etanol anidro e hidratado a partir do trigo. A tecnologia explorada pela companhia ainda permitirá extrair o glúten vital, agregando valor comercial à matéria-prima.
A tecnologia explorada pela companhia ainda permitirá produzir glúten vital, conferindo outra agregação de valor à matéria-prima agrícola.
O vice-presidente de operações da Be8, Leandro Luiz Zat, destaca que o cenário geopolítico favorece o Rio Grande do Sul devido à alta disponibilidade de matéria-prima local. O Estado é um dos principais produtores nacionais de trigo, com média de 3,7 milhões de toneladas ao ano (dado de 2024).
— Inauguramos um novo momento com os cereais de inverno. O etanol de milho já viveu sua expansão, saltando de 85 milhões para mais de 8,5 bilhões de litros em 10 anos. Agora, o marco é com o trigo. Como o Rio Grande do Sul tem déficit em milho e precisa importar para a agroindústria, a grande oportunidade está na safra de inverno — explica Zat.
A expectativa da companhia é de que a usina atenda 23% da demanda gaúcha pelo biocombustível. A maior oferta tende a favorecer o lado da demanda – e o preço.
— O consumidor é prático em suas escolhas. Temos a pauta da sustentabilidade e dos benefícios ambientais frente a uma cadeia fóssil de 150 anos. Mas o outro forte apelo é o preço, e veremos essa progressão — estima o executivo.
A capacidade de produzir etanol em larga escala, segundo o diretor, é oportunidade de construir uma nova história econômica no Rio Grande do Sul. A corrida pelos investimentos nos últimos anos faz com que o Estado ocupe espaços que antes eram ocupados por outras regiões do país, atraindo competitividade à indústria local.
Pioneirismo na região central

A percepção de que o Rio Grande do Sul importava a totalidade do etanol que chegava às bombas impulsionou novas frentes de negócios na região central do Estado. Em operação desde o início do ano em Santiago, a usina da CB Bioenergia tem capacidade para processar 400 litros de etanol hidratado por tonelada de trigo.
Mais do que atender à demanda energética, a fábrica absorve a produção agrícola local. Maria Eduarda Bonotto, engenheira agrônoma e diretora da usina, lembra que o trigo colhido nem sempre alcança os padrões exigidos pela indústria de panificação, o que desestimulava o plantio. Com a destinação industrial, o cultivo ganha um novo mercado comprador.
— Enquanto família de produtores rurais, vimos a oportunidade de fazer o que o Centro-Oeste brasileiro fez com o milho e a cana. É muito difícil no Rio Grande do Sul comercializar trigo, então seria uma forma de aproveitar esse cereal além da panificação, o qual não atingimos a qualidade necessária — explica a diretora do projeto, pioneiro para trigo no Estado.
A meta da unidade é processar 100 toneladas de grãos por dia, incluindo triticale, cevada e milho. O combustível é direcionado ao mercado de hidratado, atendendo a postos, distribuidoras e à aviação agrícola. O planejamento futuro prevê a expansão para outros tipos de álcool e farelo para nutrição animal.
Diversificação e rentabilidade no campo

Além do avanço industrial, o setor de biocombustíveis consolida o sistema de duas safras anuais (inverno e verão) no campo gaúcho. A coexistência dos cultivos prova que é possível produzir alimentos e energia na mesma área, contrapondo críticas do mercado europeu sobre a diversificação da matriz brasileira.
— É um contraponto à Europa. A segunda safra pode ser o argumento para mostrar que na mesma área nós plantamos duas vezes — defende o dirigente.
A alternativa de destilar cereais garante segurança financeira aos agricultores, que passam a contar com uma indústria estruturada demandando matéria-prima ao longo de todo o ano, além dos tradicionais moinhos e canais de exportação.
— O Estado hoje planta 9 milhões de hectares no verão e apenas 1,5 milhão de hectares inverno. É um gap muito grande — observa Maria Eduarda Bonotto.
Ao transformar cereais de inverno em combustível, o Brasil eleva o patamar da transição energética e se blinda contra a volatilidade do petróleo. No Rio Grande do Sul, os investimentos em novas usinas reduzem a dependência de importações, aliviam o bolso do consumidor e tendem a resolver um gargalo histórico do agro. O avanço consolida uma matriz onde sustentabilidade, segurança geopolítica e fortalecimento do campo caminham juntos.



