O passado de um vilarejo em Santa Catarina está guardado em uma torre de igreja que se destaca no meio da água. Parte da antiga capela de São Pedro está submersa há pelo menos 20 anos. A paisagem inusitada fica em Siderópolis, perto de Criciúma e a cerca de 300 quilômetros de Porto Alegre.
O alagamento da área foi necessário para a construção da barragem do Rio São Bento, inaugurada em 2006. A água começou a ser gradualmente represada a partir de 2003.
Devido à estrutura, moradores do vilarejo no entorno da igreja também precisaram sair de suas casas (entenda mais abaixo).
— A região era carbonífera no passado e sofreu com muita falta d'água, principalmente Criciúma. Havia uma crise hídrica muito grande — explica Arisson Fabricio Nunes Cordeiro, assessor de Cultura e Turismo de Siderópolis.
Isso porque a exploração de carvão levou à danos do meio ambiente, principalmente, à poluição de rios — causando problemas no abastecimento de água dos municípios.
— Já se pensava há mais de 70 anos na construção. Foi muito estudo, muito diálogo com a comunidade, muitas intervenções, muitas audiências públicas, a fim de se construir a barragem que abastece boa parte dos municípios da Região Carbonífera — lembra ele, sobre a história da estrutura, que é operada pela Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan).

De acordo com Arisson, desde o alagamento da área, a torre que desponta em meio à água não recebe manutenção. Por isso, há receio de que a estrutura possa tombar:
Como é só a estrutura da torre, ela está sofrendo ao longo do tempo essa deterioração. A qualquer momento, podemos dormir com a torre ali e acordar sem a torre também.
ARISSON FABRICIO NUNES CORDEIRO
Assessor de Cultura e Turismo de Siderópolis
A Zero Hora, a Casan afirmou fazer "limpezas periódicas e inspeções constantes para verificar o estado da estrutura". Também disse "estudar a contratação de uma avaliação estrutural em breve".
Uma antiga comunidade
Na área em que atualmente fica a água represada, morava parte da comunidade de São Pedro.
Um dos residentes era Iranildo Antonio Scussel, 66 anos, hoje aposentado, mas ainda atuante como produtor rural. Segundo ele, a principal atividade dos moradores era o plantio e a criação de animais.
Iranildo nasceu e construiu sua história no vilarejo. De acordo com ele, as conversas sobre a construção de uma barragem naquele ponto eram antigas, mas foi por volta dos anos 2000 que começaram a se concretizar.
Nesse processo, ele lembra que houve problemas relacionados às indenizações de moradores e proprietários de terras na área. Quem não concordava com o valor oferecido precisou recorrer à Justiça.
Segundo a Casan, foram desapropriados 850 hectares e indenizadas 38 famílias.
"Ainda vai morrer muita gente antes dessa torre cair"
Para a construção da barragem, máquinas destruíram estruturas existentes no vilarejo, como as paredes da igreja. Iranildo, que regia o coral e morava a cerca de 10 minutos de caminhada da capela, foi um dos que não queriam a destruição da torre.
— Eu falei para não derrubar a torre. Daí, o rapaz da máquina falou: "Vou derrubar, isso aqui não vai aguentar muito tempo, vai cair". Falei para ele: "Não, ainda vai morrer muita gente antes dessa torre cair". E, graças a Deus, ela está lá até hoje — conta.
O aposentado entendia que a torre serviria como um ponto de referência e memória para os antigos moradores.
A última missa ocorreu em 2002 e teve um abraço ao redor da igreja, além do tradicional toque do sino. Essa é uma das lembranças que Iranildo guarda:
— Foi um dia de muita emoção, isso eu nunca vou me esquecer. Era todo mundo se abraçando, chorando, o padre abanando a mão, fechando a porta, a senhora batendo o sino. Não tinha quem se aguentasse de lágrimas.
O aposentado foi morar nas proximidades da barragem. Uma nova igreja de São Pedro foi construída a cerca de 200 metros de sua casa, e a primeira missa foi celebrada por volta de 2004.
Iranildo tem o coração dividido: ao mesmo tempo em que ainda é tomado pela tristeza de ver que o local onde construiu sua história de vida desapareceu, não nega a importância da barragem para suprir a demanda de água das cidades.
Como chegar até a torre?
A paisagem virou atrativo turístico na região. Conforme a Casan, no ponto onde fica a torre da igreja, a profundidade pode chegar a nove metros.
Por se tratar de um reservatório de uso exclusivo para abastecimento, a companhia exige autorização prévia para qualquer acesso via embarcação ou outros meios. A estrutura que resiste ao tempo pode ser observada a partir de um dos diques da barragem.
Já para quem quer se aproximar da torre, o festival Montanhas Verdes é uma opção. A iniciativa, realizada pela prefeitura em parceria com o Instituto Alouatta, voltado ao turismo de natureza e à educação ambiental, permite atividades como stand up paddle, caiaque e canoa polinésia no reservatório.

Nas edições passadas, em 2024 e 2025, a estudante Heloisa Levati Naspolini, 11 anos, participou junto à família.
— Quando chegamos lá, pudemos parar para observar. Não pode encostar, porque é uma torre muito antiga, que talvez daqui a alguns anos pode desmoronar. Mas é muito legal chegar pertinho — descreve.
Foi ali que ela e os pais, a advogada Andressa Levati Amoroso e o empresário Daniel de Faveri Naspolini, andaram pela primeira vez de stand up paddle e de canoa.
A próxima edição do festival será realizada em 7 e 8 de novembro de 2026.




