
Cada vez mais, a solução para garantir abastecimento de água aos gaúchos está sendo buscada no subsolo — e a profundidades que chegam a quase mil metros. Além de atender a municípios sem possibilidade de captação superficial, os poços se tornaram também um recurso para aumentar o nível de confiabilidade operacional em sistemas onde já se busca água em rios na área de atuação da Corsan.
Dos 317 municípios atendidos pela empresa, 53% dependem exclusivamente de poços. Mas, desde a cheia de 2024, a tendência é de que os demais também passem a contar cada vez mais com essa alternativa.
Cidades como Antônio Prado e Feliz, por exemplo, são atendidas exclusivamente pelo subsolo. Já municípios como Três Coroas e Nova Petrópolis, na Serra, contam com fontes de rio e de profundidade. A extração feita abaixo do solo apresenta maior resiliência a fenômenos climáticos como inundações, já que tem operação mais simples e não sofre com a maior turbidez das águas superficiais durante enchentes, por exemplo.
A nossa matriz de produção de água eram os rios. Agora, depois das enchentes, mudamos a matriz de produção de água do Rio Grande do Sul. Então, onde pode e tem condição, nossos projetos são poços. Recentemente, desativamos oito estações de tratamento de água e perfuramos poços.
JOSÉ JOÃO DE JESUS DA FONSECA
Diretor de Operações da Corsan
Atualmente, a companhia conta com 1.117 poços — número que vem aumentando ao longo dos últimos anos e, a partir de agora, deverá reforçar essa tendência. De acordo com um relatório da administração publicado em 2009, naquele período havia 800 perfurações na área de atuação. Esse número subiu para 946 em 2023 e, desde então, avançou mais 18%. Cerca de dois terços da área do Estado apresentam condições favoráveis à exploração do subsolo para abastecimento da população, por conta de reservas como o Aquífero Guarani. Conforme Fonseca, apenas as faixas Leste e Sul têm menos potencial para escavações. No resto do território, são uma opção cada vez mais viável.
Engenharia complexa
Isso não significa que seja uma operação fácil. Para evitar camadas mais poluídas e garantir melhor qualidade da água, a concessionária costuma cavar "superpoços", como são chamadas as aberturas que chegam a centenas de metros abaixo do solo.
— Quem tem poço particular costuma captar água a 10, 15 metros. Os nossos são de 150, 200 metros. Mas temos alguns de 500, 700, até quase mil metros. E, quando passa pela faixa mais aflorada (mais próximo da superfície), temos uma tubulação com revestimento para não sofrer contaminação — explica o diretor da Corsan.
Em geral, o líquido bombeado dessa profundidade tem uma qualidade superior à de muitos rios. Isso permite que, em alguns casos, o tratamento para distribuição seja mais simples — basta aplicar cloro e flúor. Em alguns casos, dependendo do que as análises indicam, podem ser necessários ajustes complementares.
Além disso, por vezes é preciso abrir dezenas de poços para substituir a captação em rio no caso de um município de maior porte. Isso desafia o ritmo de conversão da matriz hídrica.
Em termos operacionais, as quedas de energia continuam sendo um dos principais entraves. Interrupções no fornecimento de eletricidade, em casos de vendavais, por exemplo, podem prejudicar o fornecimento por conta da necessidade de bombas para puxar a água das profundezas. É possível substituir a eletricidade por um combustível como diesel, mas é uma solução temporária e que depende das condições de acesso ao equipamento.
Corsan orienta a não usar poços sem outorga
Outro problema, conforme a área técnica da Corsan, é a proliferação de poços particulares sem autorização prévia do Estado (que concede outorga para a exploração). São pontos de captação sem ligação com a rede da concessionária, destinados a abastecer propriedades individuais. Além do risco de contaminação, podem exaurir o manancial pela falta de gerenciamento regional.
— Apenas na área da Corsan, estima-se haver cerca de cem mil poços. A maioria sem outorga. Nós fazemos centenas de análises com a frequência que determinam as portarias, mas há outros poços com concentração de mercúrio, chumbo, manganês, que as pessoas usam sem autorização. E, às vezes, a água vem transparente, sem cheiro, mas está contaminada — observa Fonseca.
A solicitação de autorização para abertura de poços deve ser feita via Sistema de Outorga de Água do Rio Grande do Sul (Siout-RS). Isso é importante porque também permite ao Estado gerir a disponibilidade hídrica de cada região e evitar que a extração abusiva comprometa um determinado manancial.



