Arroz, feijão, bife, batata frita, ovo e salada. A clássica a la minuta dificilmente divide opiniões. Entre os gaúchos, o prato se popularizou com um nome afrancesado: a expressão vem do francês à la minute, termo técnico usado para preparos feitos na hora.
— Pensando na a la minuta, o feijão está pronto, o arroz está pronto... Na hora em que o cliente pede, só finalizamos o bife e a batata frita. Talvez daí que o termo à la minute foi se aportuguesando ou sendo incorporado no vocabulário local — diz o gastrólogo e chef de cozinha Matheus Troglio, professor do Senac Caxias do Sul.
— Ele vai mudar de significado, deixando de ser um termo técnico para virar o nome do prato — complementa.
O motivo de a expressão ter se consolidado como nome oficial no RS, porém, segue em aberto. Pesquisador da história da alimentação e da culinária regional, Everton Luiz Simon levanta a hipótese de uma relação entre a elite gaúcha e as referências francesas.
— Essa etimologia francesa pode ter operado neste comércio popular como um selo simbólico de distinção, modernidade e profissionalismo, o que de alguma forma vai trazer uma identificação para esse afrancesamento e diferenciação da própria culinária — completa.
Seria como se a origem francesa da forma de preparo conferisse mais status e prestígio ao prato.
Segundo Everton, crônicas e registros da imprensa indicam que a a la minuta se tornou, a partir dos anos 1950, um dos pratos mais presentes nos cardápios de bares, lanchonetes e restaurantes do RS.
Qual é a origem do prato?
O termo a la minuta é mais forte no RS. No restante do país, o mais comum é ouvir "PF" (prato feito) ou "executivo". O chef Matheus resume a diferença:
— Toda a la minuta é um PF, mas nem todo PF é uma a la minuta.
Isso porque a a la minuta costuma seguir a mesma estrutura, com pequenas variações. Na Serra Gaúcha, por exemplo, a salada de maionese pode substituir a salada mista. Já o prato feito se refere a qualquer refeição completa montada em um único prato e, por isso, tende a variar mais.
A popularização da a la minuta está ligada ao cotidiano urbano e ao processo de industrialização. Como explica o pesquisador Everton Luiz Simon, os trabalhadores passaram a precisar de refeições completas, acessíveis e rápidas perto do local de trabalho.
O ingresso das mulheres no mercado de trabalho também faz parte desse movimento já que, tradicionalmente, elas eram responsáveis pela alimentação da casa.
Everton lembra, ainda, que a carne bovina sempre teve relevância na história da alimentação gaúcha:
— Podemos pensar a a la minuta como essa adaptação urbana e individualizada da centralidade carnívora aqui no nosso Estado.
Ao longo do tempo, a proteína principal foi mudando, e hoje o prato também aparece em versões com peixe, por exemplo.
Matheus aponta ainda uma relação da culinária gaúcha com a colonização europeia:
— Temos uma refeição compacta, num prato só, mas completa, com todos os grupos alimentares, o que vai derivar justamente dessa nossa matriz europeia de colonização, que vai preferir pratos calóricos, também para suprir as demandas de calorias do dia a dia. É um prato que, como se fala no Interior, dá sustância. Não é um prato que duas horas depois vai te deixar com fome.
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No gosto do freguês

Em Porto Alegre, um dos locais que oferecem o clássico é o Point Beer, no bairro Menino Deus. O bar e restaurante funciona há 30 anos, das 11h às 2h.
Segundo uma das proprietárias, Marivane Baratto, 56 anos, há uma "boa procura" pela a la minuta, tanto no almoço quanto à noite:
— Acho que é o nosso prato principal, junto com os pastéis, que também vendem bem, apesar de termos um cardápio mais variado.
No local, a versão com carne bovina custa R$ 41,90 e acompanha de arroz, batata frita, ovo frito e salada.
A analista de retenção Tiziane Silva de Souza, 46 anos, é uma das fãs do prato.
— Se deixar, eu como a la minuta todos os dias. É um prato maravilhoso, gostoso, barato até se formos fazer em casa. Se for comer na rua, tem que pesquisar. Mas a qualidade da a la minuta suporta qualquer estômago — brinca.
O gosto é compartilhado por Luciana Oliveira dos Santos, 44 anos, que trabalha nos Correios. Ela traz uma memória da infância e da vida adulta:
— Quando eu saía com a minha mãe, quando era pequena, e até hoje, muitas vezes optamos por comer a la minuta todo mundo junto em família.



