
A van da Délle Festas estacionada no pátio do Residencial 1º de Março na manhã desta sexta-feira (15), em Novo Hamburgo, confirmava o que vizinhos ainda custavam a acreditar: Neila, Débora e a bebê Cecília não voltariam para casa. Não fosse uma tragédia, o veículo estaria circulando pelas ruas, e mães e filha chegariam somente ao fim do dia.
Todas as manhãs, o casal saía para o trabalho com o veículo. Por vezes, a pequena ia junto. Mas as três perderam a vida em um acidente de trânsito na BR-116, na tarde de quinta-feira (14). A bebê chegou a ser socorrida e encaminhada para atendimento médico, mas morreu horas depois.
— Ainda não caiu a ficha. A gente olha para a van parada ali e parece que não é verdade. Eram muito queridas por todos aqui. Amavam muito aquela filha, estavam realizando um sonho — diz a síndica do condomínio no bairro Industrial, Daniele Muccillo, 44 anos.

Neila Patrícia Gomes de Medina e Débora Juliana Marques, ambas de 39 anos, eram empresárias e desfrutavam de um sonho em comum e recentemente realizado: a maternidade. Cecília Marques de Medina foi muito planejada. Em março, completou um aninho e ganhou uma festa com a temática o bosque das fadas. Ela já caminhava e balbuciava as primeiras palavras.
— Eram sempre queridas e delicadas. Encontrei elas essa semana mesmo e disseram para a Cecília: "Diz para a tia a primeira palavra que tu aprendeu, e ela respondeu direitinho: 'Mamãe'" — conta a amiga e vizinha Nelita de Melo, 58 anos.
O último encontro
Minutos antes do acidente, as três confraternizavam em um almoço com a madrinha de Cecília, a advogada Patrícia Rodrigues Gabbi, 40 anos. Era feriado de Ascensão do Senhor em Novo Hamburgo.
— Eu, meu marido e meus filhos almoçamos com elas. Passeamos, brincamos, e 15 minutos antes do que aconteceu, nos despedimos no restaurante. Estavam felizes com a vinda da Ceci, eram maravilhosas, iluminadas e não sei como isso foi acontecer — conta Patrícia, acrescentando que o casal pretendia ter outro filho.
Voluntárias na enchente, agregadoras no condomínio
Os mates compartilhados nos fins de tarde e as ações voluntárias encampadas pelo casal são lembranças compartilhadas pela vizinhança.
Como atuavam no ramo de festas, a realização de aniversários, formaturas e casamentos proporcionaram alegria e memórias para centenas de pessoas.
No condomínio onde moravam há 14 anos e onde vivem cerca de 1,2 mil pessoas, tinham como marca o bom relacionamento e capacidade de agregar pessoas.
Elas ajudavam todo mundo e fazem parte da história de muita gente. Foram voluntárias durante a enchente (de 2024). Aqui, acompanharam as crianças crescerem e as pessoas comemorarem suas datas mais especiais.
DANIELE MUCCILLO
Síndica do condomínio onde a família morava
Outra vizinha menciona um recente e pequeno gesto, que segundo ela, traduzia muito de como era o casal.
— As gurias (Débora e Neila) montaram um mini QG no apartamento delas para trocas de figurinhas do álbum da copa. As crianças com seus pais se reuniam lá. Um momento único, divertido e familiar — compartilha a professora Carla Azambuja Beck, 49 anos.
Empresárias consolidadas
Neila e Débora começaram a trabalhar dentro do próprio condomínio. Alugavam artigos para festas temáticas e decoravam espaços. A atividade despertou interessante de outras pessoas e o negócio se expandiu no Vale do Sinos. Atualmente, as empresárias mantinham uma casa de festas em São Leopoldo, cidade natal de Débora, e outra em Novo Hamburgo, onde Neila nasceu.
A empresa Délle era uma junção do nome Débora e o apelido Lelê, como Neila era popularmente chamada.
Na conta do empreendimento no Instagram, uma publicação feita na manhã desta sexta-feira (15) informou clientes sobre o falecimento e agradeceu as mensagens de carinho.


