Dois anos após a catástrofe climática, o cenário em Alvorada, Cachoeirinha, Gravataí e Viamão, na Região Metropolitana, é de espera, medo e angústia. As grandes obras de proteção contra cheias ainda não saíram da fase de planejamento ou estudos iniciais.
Uma obra considerada crucial é a construção do dique do Arroio Feijó, no limite entre Alvorada e Porto Alegre. A estrutura deverá ter 21 quilômetros, passando por 14 bairros da Capital e do município vizinho, além de 19 novas casas de bombas. A estimativa é de que o projeto seja entregue em março de 2027, com custo estimado de R$ 4,6 milhões.
Prazos longos e altos investimentos
Próximo dali, o governo do Estado prevê um investimento de pelo menos R$ 6,2 milhões em serviços que englobam Cachoeirinha, Gravataí e a zona norte de Porto Alegre, de forma mais direta, mas que devem contribuir também com municípios como Viamão e Alvorada. Essas estruturas têm previsão de conclusão em 2031. Por ora, seguem na fase de atualização dos estudos, etapa ainda inicial.
Por que a demora?
José Luiz Carvalho Chaves, 77 anos, mora desde 1979 praticamente ao lado do Arroio Feijó, no bairro Americana. Ele escuta falar sobre o dique há cerca de 40 anos. Quando ouviu o governo falar que as obras devem ficar prontas em 2031, lamentou.
— Quando deu a enchente de 2024, eles falaram que era para fazer para ontem. É urgente — desabafa.

Segundo a Secretaria da Reconstrução Gaúcha (Serg), o entrave não é financeiro, mas técnico.
— Não adianta atropelarmos fases essenciais e termos problemas na execução. O Brasil está cheio de obras paralisadas por falta de projeto sólido — afirma o secretário Pedro Capeluppi.
O impacto nos vizinhos
Além dos questionamentos sobre os prazos, a preocupação com os impactos das obras em municípios vizinhos segue sendo uma das mais presentes.
No início de maio, por meio do Ministério Público, um grupo de moradores de Cachoeirinha pediu explicações ao governo do Estado acerca da obra emergencial no entorno do aeroporto de Porto Alegre. O temor é de que a água possa ir em direção a Cachoeirinha.
O Ministério Público deu um prazo de 20 dias para que a Secretaria da Reconstrução Gaúcha (Serg) conceda mais explicações sobre o tema.
A pasta afirma que antes de ser iniciado um serviço, um estudo é feito para saber os impactos que uma nova estrutura pode trazer para as regiões vizinhas. Além da obra do aeroporto, o dique do Sarandi também provoca esse tipo de questionamento para moradores de Alvorada, por exemplo.
Conforme a Serg, neste caso, o levantamento foi feito e será apresentado nos próximos dias. Em relação a construções já existentes, mas que estão sendo ou serão reformadas, o Estado afirma que essa análise foi realizada na origem da obra.
A resposta é reforçada por Joel Avruch Goldenfum, especialista em Hidrologia e integrante do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do RS. Ele explica que, sim, qualquer projeto de proteção pressupõe que uma área que normalmente seria inundada deixará de passar por isso, enquanto a água vai para outro lugar. Mas ele esclarece:
— Necessariamente, se fazem simulações, utilizando modelagem e se verifica o que vai acontecer em diferentes cenários, não só em termos de garantir a proteção da área que está sendo objeto do projeto, como também quais são os impactos. Isso é o padrão normal de qualquer projeto efetuado por qualquer empresa, grupo de pesquisa ou o que for que seja um grupo sério — esclarece Joel Avruch Goldenfum.
O que cada município tem feito?
Alvorada

Cerca de 25,8 mil pessoas foram atingidas no município. No bairro Americana, os sinais de que o arroio tomou conta das ruas há dois anos estão nas manchas nas paredes das casas e no abandono de algumas delas.
As principais marcas, entretanto, estão nas pessoas. A sensação de quem vive por ali é de que o cenário tem piorado a cada ano.
— Desde os meus seis anos, eu ouço sobre a tal da construção do dique. Eu acho que só as futuras gerações vão ver, porque essa já perdeu a esperança — conta a técnica em enfermagem Adriane Ramos Dimer, 42 anos, que mora na Avenida Beira Rio.

A falta de proteção deixa a comunidade com medo. No ano passado, 400 casas voltaram a alagar na região.
— Qualquer chuva que dá, a gente já fica apavorada. A gente está com bastante medo do que vai acontecer esse ano, porque a gente não vê nenhum movimento. O máximo é que eles vêm aqui, como sempre, botam a retroescavadeira, tiram a areia, botam na beira ali, e ainda aquela areia vem para dentro da casa da gente, depois levam para outro local e está pronto — avalia Adriane.
A prefeitura afirma que desde janeiro do ano passado tem feito, rotineiramente, o desassoreamento do arroio. O governo do Estado repassou cerca R$ 2,3 milhões para limpeza e desobstrução das redes de drenagem. Um projeto de macro e microdrenagem ainda está em desenvolvimento.
— Alvorada foi um município que foi crescendo de maneira desorganizada. Muitas das pessoas acabam morando na várzea do rio, mas eu acredito que, com a construção do dique e o processo de macro e microdrenagem, a gente vai conseguir minimizar ainda mais (os efeitos) — avalia o prefeito Douglas Martello (PL).
Os bairros Aparecida, Stella Maris, Jardim Algarve e Piratini também estão sendo contemplados com ações intensificadas de limpeza preventiva.
Retirada de famílias
A prefeitura afirma que, no momento, não há previsão de retirada das famílias para as intervenções no entorno do Arroio Feijó. A obra está a cargo do governo do Estado, em fase de estudos.
Cachoeirinha
Cachoeirinha teve cerca de 12,3 mil pessoas atingidas. Hoje, moradores reclamam da falta de uma equipe técnica na prefeitura para fazer grandes projetos de proteção. As queixas também se dirigem ao governo do Estado, com cobranças por maior agilidade.
A Comissão de Moradores do Parque da Matriz defende a necessidade de um estudo técnico para saber quais medidas devem ser feitas para evitar ou lidar com os alagamentos do Arroio Passinhos no bairro e com a inundação do Rio Gravataí.
Desde o início do ano, uma obra de canalização é feita em outra parte do arroio. A previsão, segundo a prefeitura, é de que fique pronta até 2027.

O município tem duas casas de bombas desde antes da enchente. O comerciante Alex Sandro Lima de Almeida, 48 anos, que mora em região próxima às estruturas, chega a descrever uma das unidades como "casebre". Em 3 de maio, houve furto de cabos em um dos locais. Conforme a prefeitura, a situação foi resolvida e a Guarda Municipal passou a cuidar dos espaços.
O dique da cidade, já existente, passa também pela área, mas ainda não está como prevê o governo do RS. A estrutura deve se conectar à freeway de um lado e se aproximar do dique do bairro Niterói, em Canoas, formando uma grande barreira.
— É tudo muito demorado. Se começar agora a fazer os projetos, é para 2031. Quantas cheias daquele tamanho podem vir até 2031? — desabafa Alex Sandro, membro da Associação Três de Maio, que reúne moradores de áreas afetadas em Cachoeirinha.
Turbulência política
A turbulência política tem refletido no andamento do que poderia vir a ser o sistema de proteção da cidade. Após cassação de prefeito e vice no início do ano, a então vereadora Jussara Caçapava (Avante) assumiu como interina em janeiro. Em abril, foi eleita prefeita e tomou posse neste mês de maio. No último sábado (16), contudo, uma decisão da Justiça Eleitoral cassou os mandatos de Jussara e do vice, Luis Carlos Azevedo da Rosa, o Mano (PL), alegando abuso de poder político por parte dos candidatos. Até eventual análise da cassação pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), no entanto, Jussara e o vice seguem à frente do comando do Executivo municipal.
O município diz ter decretado situação de emergência, autorizando contratações de forma emergencial, como de serviços de hidrojateamento.
Assessor especial da prefeita, Cláudio Ávila assume que o sistema com dique e casas de bombas está "bem defasado e sem manutenção". De acordo com ele, a prefeitura irá contratar uma equipe técnica de engenharia para indicar ações emergenciais possíveis para os próximos 60 dias.
Gravataí
Cerca de 5,8 mil pessoas foram atingidas em Gravataí. A cidade não tem estruturas de proteção contra cheias.
O prefeito, Luiz Zaffalon (PSDB), reforça que ações são feitas desde a forte chuva que afetou a região em 2023. A prefeitura contratou especialistas para montar um plano de drenagem e manejo de águas pluviais. Segundo Zaffalon, os arroios Demétrio e Barnabé foram desassoreados, assim como canais no município.
— Fizemos cerca de 1,8 mil operações de hidrojateamento, trocamos 117 estruturas de microdrenagem, ou seja, de canalização. E, em 260 quilômetros de canais, arroios, valos, fizemos o desassoreamento — aponta o prefeito.
Morador do bairro Caça e Pesca, um dos afetados pela enchente, o barbeiro Guilherme Moreira Luz da Silva, 19 anos, gostaria de ver as limpezas nos bueiros ocorrendo pelo menos uma vez ao mês.
— No máximo, o que fizeram foi cortar as gramas e limpar as calçadas. Mas, algo que agregue em não acontecer mais uma enchente, nada — relata, sobre o que viu acontecer na região.
Nos dois anos após maio de 2024, a prefeitura diz ter feito projetos preliminares de diques de proteção, com casas de bombas, nos bairros Vale Ville, Vila Rica, Caça e Pesca, Itatiaia, Jardim do Cedro, Sítio Gaúcho, Passo dos Ferreiros e Parque dos Anjos. Agora, afirma aguardar análise do Estado.
Viamão
Em maio de 2024, Viamão ficou conhecida como uma das únicas rotas de saída da Região Metropolitana. Com a freeway alagada, a RS-040 e a RS-118 registravam filas de congestionamento. Mesmo com as características geográficas garantindo menor impacto, cerca de 2,3 mil pessoas foram atingidas no município.
As regiões mais vulneráveis estão perto de arroios e córregos nos bairros Augusta, Estalagem, Helenita, Fiúza e Itapuã. O Serviço Geológico Brasileiro identificou 17 pontos críticos, sendo áreas de risco para alagamentos e movimentos de massa.

Nesses locais, a prefeitura afirma ter uma força-tarefa montada para realizar desassoreamento, hidrojateamento e recolhimento de lixo. A cidade não tem estruturas de contenção nem casas de bombas.
— Nós retiramos uma média de 50 a 60 metros cúbicos por dia, nesses focos de lixo espalhados pela cidade. Hoje existe um grupo de trabalho que discute a questão da drenagem. Tem lugares em que a rede é antiga, dimensionada para uma outra época. Tem lugares em que, por se tratar de uma ocupação irregular, não ocorreu a instalação e a previsão de rede então a gente também precisa intervir nesses pontos — explica o secretário de Obras e Serviços, Igor Bernardes, que assumiu a pasta há poucos meses.
A principal preocupação, segundo a prefeitura, está na Vila Augusta, ponto que é atingido pelo Arroio Feijó. Por ali, os alagamentos são mais recorrentes e a falta de escoamento também provoca apreensão.
Outro ponto de atenção é a região de Itapuã. Por lá, a subida do Guaíba é o que preocupa os moradores.
— Até hoje as ruas estão intransitáveis e ninguém faz nada. Na orla, na beira da praia de Itapuã e arredores, também a prefeitura nunca movimentou nada — afirma o morador e proprietário de um restaurante no local, Alexandre Nunes.
Segundo a prefeitura, um plano de contingência está em elaboração, assim como a implementação de núcleos de apoio, junto a voluntários com foco em atender os moradores do local.
Um dique para proteger parte da orla e das residências na região está sendo avaliado. Conforme o governo do Estado, a prefeitura ainda não apresentou os estudos necessários.



