Quem visita Presidente Lucena, no Vale do Sinos, encontra outro ritmo de vida. As ruas são calmas e silenciosas. Vez ou outra algum caminhão, que passa pela avenida principal no deslocamento entre cidades vizinhas, rouba a tranquilidade.
A cidade, de colonização alemã e cerca de 3 mil habitantes, é um dos dois municípios do Rio Grande do Sul que estão entre os 20 melhores do país segundo o Índice de Progresso Social Brasil 2026 (IPS). Presidente Lucena ocupa o 13° lugar nacional, sendo a cidade gaúcha melhor colocada no ranking. A segunda cidade do RS no top 20 é Alto Alegre, no Noroeste, que é 16ª no país.
O levantamento avalia a qualidade de vida nos municípios brasileiros a partir de 57 indicadores sociais e ambientais. O índice considera três dimensões:
- necessidades humanas básicas;
- fundamentos do bem-estar; e
- oportunidades.
A reportagem de Zero Hora esteve no município na tarde desta quarta-feira (20), para conferir qual o diferencial da cidade. Foi difícil encontrar moradores nas ruas que pudessem nos explicar o resultado, que se manteve pelo menos pelo terceiro ano consecutivo. A resposta para a ausência de moradores nas ruas é simples: a cidade tem mais empregos do que mão de obra, ou seja, a maior parte das pessoas está nas fábricas ou trabalhando em áreas de campo, setores que são base da economia no município. A oferta de trabalho é um dos fatores que podem ter impactado na pontuação do município.
Presidente Lucena marcou 71,05 pontos, em uma escala de 0 a 100. A nota média para o Estado é de 63,39. Para efeito de comparação, Porto Alegre marcou 66,94 pontos. O prefeito Luiz José Spaniol (PDT) garante que o resultado é coletivo e fruto do empenho e dedicação da comunidade:
— Para nós é uma honra receber esse título mais uma vez. E quem está de parabéns é a nossa população. Nossas empresas, trabalhadores, agricultores, todos. Eles estão empenhados em fazer o seu melhor. E é o conjunto dessa obra que nos traz o resultado.
Além de bem desenvolvida em relação ao emprego, Presidente Lucena supera os investimentos previstos em lei para saúde e educação. Enquanto a legislação nacional determina 15% na saúde e 25% na educação, a cidade alcança índices de 19% e 29%, respectivamente, segundo o prefeito. Como no ano passado, todas as mais de 400 crianças e adolescentes do município estão matriculadas. A cidade tem cinco escolas municipais e uma da rede estadual. Nenhuma instituição privada.
Segundo a administração pública, todos os alunos da creche até o quinto ano têm acesso ao turno integral. Nas andanças pela cidade, observamos uma turma saltitante da Escola Frederico Bervian ser levada para aula de futsal, uma das atividades extra oferecidas pelo município. Aulas de balé, música, robótica e oficinas de aprendizagem também estão disponíveis, assim como transporte escolar.
Como é típico em cidade pequena, é possível fazer tudo a pé. Saímos da prefeitura, fomos até uma das escolas e depois aos únicos dois postos de saúde do município. As unidades são divididas entre atendimentos clínicos e de especialidades. Segundo a secretária de Saúde, Joice Froehlich, não há demanda reprimida para consultas em Presidente Lucena.
Entre os pacientes que aguardavam uma consulta, a aposentada Elisabete da Silva Silveira, 58 anos, contou que não tem do que se queixar em relação à saúde na cidade. Ela se mudou de Porto Alegre em 2002 em busca de uma vida mais tranquila para criar o filho.
— Aqui é bem especial. Eu sofri um acidente e aqui no posto eu sempre fui bem tratada. Eles me buscavam em casa para fazer as fisioterapias e depois me levavam. É muito diferente de Porto Alegre, menos burocracia — conta Elisabete.
Para quem está acostumado à Capital, encontrar residências sem muros ou grades surpreende. A entrada de Presidente Lucena é assim: da rua direto para a porta principal das casas. Os baixos índices de criminalidade permitem essa tranquilidade dos moradores. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública, o município não registrou nenhum homicídio desde o início da série histórica, em 2002.
Neste ano, até o fim de abril, foram registrados cinco crimes, dentre os sete indicadores considerados prioritários para acompanhamento pelos órgãos estaduais. Foram quatro casos de estelionato e um furto. Conversando com moradores, ouvimos que ali todos se conhecem e isso ajuda a manter a segurança. Ainda nos explicaram que, com certeza, haveria alguém nos observando, já que éramos de fora.

— Aqui a qualidade de vida é muito boa, as pessoas são muito simples e receptivas. É um lugar que pode deixar tudo aberto sem preocupação. Aqui todo mundo se conhece e se alguém vê alguma coisa diferente já avisa os vizinhos — explicou Deise Petry, 36 anos, que se mudou da cidade vizinha Ivoti há nove anos para acompanhar o marido, que trabalha em Presidente Lucena.
Apesar dos elogios à cidade, os moradores apontam que algo sempre pode melhorar, mas acreditam que Presidente Lucena está progredindo do jeito certo. Ao longo do processo, eles seguem levando a vida em um ritmo próprio. Seja nos compromissos diários ou nas atividades de lazer, como na pesca coletiva no Parque Municipal Egon Gewehr.


