
As réguas de medição do lago Guaíba em Porto Alegre, situadas na Usina do Gasômetro e no Cais Mauá, registram níveis bem abaixo da média. Às 15h desta sexta-feira (17), o nível das águas era de 56 centímetros na segunda baliza, a do Cais.
A média entre 2018 até os dados recentes é de 1,02 metro. Ou seja, o Guaíba está 46 centímetros abaixo da sua média.
Segundo especialistas, o cenário atual do Guaíba não tem relação com os efeitos causados pela ação dos fenômenos climáticos La Niña (águas do Oceano Pacífico mais frias do que o normal) e El Niño (mais quentes do que o usual). Neste momento, nenhuma dessas condições age sobre o território do Rio Grande do Sul< que passa por um período de neutralidade atmosférica.
Conforme afirmam as fontes consultadas por Zero Hora, o lago está com o nível mais baixo especialmente em decorrência da pouca precipitação e da erosão.
O hidrólogo Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), esclarece que o Guaíba passa por ciclos hidrológicos.
Em períodos de pouca chuva, o lago "se abastece" lentamente dos aquíferos.
— A chuva cai sobre rios, lagos e solo e faz o nível subir. Depois, nos períodos de seca, a água que mantém os rios é aquela que infiltrou no solo, chegou nos aquíferos e lentamente vai drenando em direção aos rios. É como se o aquífero fosse um imenso reservatório — explica.
No caso do Guaíba, muito do volume de água vem dos rios Taquari e Jacuí. Desse modo, havendo previsão de chuva na Região Central, a tendência é o aumento do nível do lago em Porto Alegre.

— O que estamos visualizando agora no Guaíba, que costuma ter um nível médio no Cais Mauá em torno de 1 metro, são níveis mais baixos em função de ser um período de menos chuvas — observa.
Por que os bancos de areia?
Segundo Fan, os bancos de areia avistados e filmados por quem convive com o lago são resultado do processo de erosão a que o Guaíba foi submetido nos últimos anos, especialmente na enchente de maio de 2024. De acordo com o hidrólogo, o curso da água tem uma velocidade muito grande e escoa por um canal principal.
— Neste canal, a velocidade (das águas) funciona como um arado escavando um buraco na terra e jogando a terra para o lado. Então, esse é o processo que o Guaíba está fazendo em seu canal principal — compara.
O que se observa, nas margens, ainda é efeito de dois anos atrás.
— Na enchente de 2024, teve uma velocidade muito grande e aprofundou (o canal). Os bancos de areia que vemos nas partes mais rasas nada mais são do que a própria areia do leito do lago que foi jogada para o lado — explica Fan.
Chuva abaixo da média no RS
O meteorologista Murilo Lopes, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), cita que o verão deste ano foi marcado por chuvas irregulares e abaixo da média no Estado.
Em Porto Alegre, a média histórica de chuva em janeiro nos últimos 30 anos era de 120 milímetros. Neste ano, choveu apenas 84 mm no primeiro mês. Em fevereiro, era de 110 mm — sendo que nesta temporada choveu 40 mm. Em março, a precipitação ficou na média, mas, em abril, está bem abaixo do normal: a média é de 114 mm e, por ora, choveu somente 29 mm.
— Nas próximas semanas, a gente deve ver uma certa melhoria no nível do Guaíba. A água que caiu nas últimas semanas no Interior deve começar a se deslocar para Porto Alegre — prevê.
— A normalização deve acontecer a partir da transição para maio, quando teremos chuvas mais significativas na Região Metropolitana — completa.
Processo natural e margens rasas
Para a chefe do Departamento de Hidrologia do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Andrea de Oliveira Germano, o nível mais baixo do Guaíba representa um "processo natural".
— O Guaíba é um lago com margens muito rasas e um canal passando pelo meio. O nível está muito baixo, porque tem chovido muito pouco nos últimos meses. As margens estão baixas e as réguas ficam nesses locais — diz.
Impacto na navegação
A Portos RS, empresa pública responsável por organizar, gerenciar e fiscalizar o sistema hidroportuário do Estado, descarta a possibilidade do atual nível do Guaíba oferecer risco às embarcações que circulam por ali. Desde que respeitadas as áreas do lago adequadas para navegação.
Em Porto Alegre, a atuação da empresa envolve gerenciar o porto, que soma oito quilômetros de cais, espaço compartilhado entre os cais Mauá, Navegantes e Marcílio Dias. A estrutura conta com 25 armazéns. Em parte dessa área ocorrem operações navais de grãos, de fertilizantes e de cargas em geral. Nada disso foi afetado.
A Portos RS realiza obras de dragagem em determinados trechos, o que ajuda a manter a navegação. O calado nos canais do Guaíba é de 5m18cm abaixo do marco zero medido na régua do Cais Mauá. Embora haja diminuição do volume de água, ele segue mantido.
— Não temos nenhum trecho que a pessoa consiga caminhar "sobre o Guaíba". Mas estou falando dos canais de navegação, se tem outros trechos fora desses canais, eles ficam fora do nosso monitoramento — esclarece Cristiano Klinger, presidente da Portos RS.
Saiba mais sobre o funcionamento do Guaíba
Conforme registra a obra referencial Atlas Ambiental de Porto Alegre, do geólogo Rualdo Menegat, o Guaíba tem cerca de 50 quilômetros de comprimento e conta com 470 quilômetros quadrados de superfície, com profundidade média de dois metros. Estende-se desde o Delta do Jacuí, ao Norte, até a Ponta de Itapuã, ao Sul. Neste local apresenta a profundidade máxima de 31 metros. O Guaíba está situado a quatro metros acima do nível do mar.
O lago possui uma largura mínima de 900 metros, entre a Ponta do Gasômetro e a Ilha da Pintada. E uma largura máxima de 19 quilômetros, entre as enseadas da Praia de Itapuã e da Praia da Faxina.
O regime de escoamento das águas é bidimensional, podendo ocorrer tanto no sentido longitudinal do seu canal quanto transversal. As flutuações do nível da água da Lagoa dos Patos e a direção e intensidade dos ventos predominantes na região são os fatores controladores da dinâmica de escoamento do Guaíba.




