Dois anos após a catástrofe de maio de 2024, as cicatrizes em Eldorado do Sul e Canoas, cidades da Região Metropolitana castigadas pela enchente, seguem abertas. Enquanto o governo do Estado sustenta que o Rio Grande do Sul está mais preparado, quem mora nos dois municípios convive com o descompasso entre o cronograma oficial de obras e o medo de cada nova chuva.
Conforme a Secretaria da Reconstrução Gaúcha, nenhum dos projetos novos do sistema de proteção teve a construção iniciada. Mas parte das estruturas já existentes foram reformadas e outras reforçadas.
Uma das preocupações da comunidade é que ações feitas em um município possam direcionar a água para regiões vizinhas desprotegidas. O governo do Estado destaca que existe uma coordenação técnica para garantir que não haja esse risco.
— Todo e qualquer projeto não é feito simplesmente dentro do âmbito da divisão política do município. O estudo tem que ser feito em termos da divisão geográfica, considerando as bacias atingidas — acrescenta Joel Avruch Goldenfum, especialista em Hidrologia e integrante do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do RS.

Confira a situação em cada cidade
- Eldorado do Sul já tem sistema de proteção?
- Canoas: como estão os diques e as casas de bombas?
Eldorado do Sul
Eldorado do Sul foi a cidade gaúcha mais afetada, com 82,2% da população atingida, segundo mapeamento estadual. Já Canoas, que teve 45,4% da população atingida, registrou o maior número de mortes, 31.
O dique
Prometido como a primeira grande barreira do Estado, o dique ainda não saiu do papel. O projeto prevê uma estrutura de 8,6 quilômetros ao redor do município, com um aterr de 7,60 metros de altura; quatro casas de bombas e quatro reservatórios para amortecer as cheias; além de um novo sistema de drenagem.
A atualização desse anteprojeto foi concluída nesta semana e apresentada nesta quinta-feira (30) ao governador Eduardo Leite e à prefeita de Eldorado do Sul, Juliana Carvalho, após diversos adiamentos e anos de espera da população.
O edital para a realização do projeto executivo e das obras deve ser publicado em agosto em Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDCI), um modelo que permite contratação integrada para as próximas etapas.
A expectativa é que a obra comece em 2027, podendo levar de três a quatro anos. O projeto não inclui a área onde fica o assentamento do Irga. O traçado tem como base uma proposta concluída em 2017, mas foi revisado para conter cheias nas dimensões da de maio de 2024.
— Tem uma exigência de que a licitação seja de técnica e preço, que é a mais completa, mas a mais demorada. Acredito que deve se conversar novamente e tentar, diante da urgência, pensar em uma autorização para fazer uma exceção em uma obra emergencial, encurtando o máximo possível esses prazos — avalia a prefeita.
Um novo sistema de drenagem interna, parques lineares e uma nova alça de acesso à BR-290 também estão incluídos no plano. Serão feitos alteamentos viários para garantir a entrada ao município mesmo em cenários de inundação.
Um segundo dique ainda está em fase de concepção. Com apoio técnico do Estado, o município contratou um estudo para avaliar o projeto para proteger a parte sul, do outro lado da BR-290, às margens do Guaíba.
Ações pontuais
Enquanto isso, a prefeitura aposta em medidas menores, como sensores de alagamento, limpeza de redes e construção de galerias.
— Talvez a gente ainda tenha alguns episódios de inundação até que a cidade esteja totalmente protegida, mas tudo que o município pode fazer está sendo feito — destaca a prefeita.
A Defesa Civil foi reforçada com estação meteorológica, sensor de alagamento e capacidade de receber alertas com antecedência, além do plano de contingência.
Vivendo com o risco

Neste ano, diversas residências já foram demolidas em áreas de risco. Segundo a prefeitura, parte dessas famílias foram encaminhadas para o Compra Assistida. Outras, aguardam a moradia definitiva nos módulos provisórios ou em casas de parentes.
Larissa Kolassa, de 30 anos, o marido e os três filhos estão entre elas.
— A ideia era sair de Eldorado, mas não tive opção. Vivo com o risco; se vier uma cheia como a de maio, não temos o que fazer — desabafa.
Canoas
O medo ainda faz parte da rotina em Canoas, assim como os prejuízos. Na casa da moradora Carmen Medianeira Corrêa dos Reis, 56 anos, no bairro Mathias Velho, um alagamento neste ano fez com que perdesse sofá e guarda-roupas mais uma vez. Em 2024, Carmen precisou sair de casa no dia do próprio aniversário, 3 de maio.
— O bairro Mathias Velho vive em pânico. A cada chuva que dá, acontecem alagamentos — relata ela, que lidera a Associação de Moradores da Vila Getúlio Vargas, na região.
Canoas é rodeada por rios: dos Sinos, Gravataí e Jacuí. Diferentemente de Eldorado do Sul, já contava com um sistema de proteção, ainda que insuficiente.
A enchente de 2024 afetou, principalmente, o lado oeste do município. Nesta parte, moradores dos bairros Fátima, Rio Branco e Mato Grande se reuniram para monitorar as obras. Eles reclamam ao ver estruturas incompletas e dizem que há pouco ou nenhum avanço no dia a dia.

O secretário de Obras de Canoas, Guido Bamberg, justifica que 2,4 quilômetros do dique no bairro Mathias Velho possuíam solo impróprio (material orgânico), exigindo a substituição total da base. Outro entrave é social: 159 moradias ainda precisam ser removidas no bairro Rio Branco. A situação é semelhante no Mathias Velho (onde 107 precisarão de um novo lugar) e no Mato Grande (123), aponta o secretário.
Dique do bairro Rio Branco
No bairro Rio Branco, o morador e engenheiro agrônomo Fábio Fanfa, 44 anos, que tem especialização em segurança de barragens, nota que as obras ocorrem em uma parte da estrutura mas não em outra, o que gera desnível e insegurança.

— Quando tu tens uma estrutura que cobre um bairro, tu imaginas que o bairro está dentro de uma bacia e tem as paredes na volta para a água não entrar. Não adianta ter uma parte da bacia com uma parede em uma altura e a outra parte em outra altura. A água vai entrar por aqui (na parte mais baixa) — pontua ele, que integra a comissão de moradores.
Em uma das pontas do dique Rio Branco, a primeira obra de proteção será entregue nesta quinta-feira (30): o muro da Cassol, com cota de proteção de 6m75cm. A estrutura fica junto ao centro de distribuição da loja Cassol, região fortemente atingida pela enchente.
O que moradores percebem, porém, são fragilidades. O muro não tem continuidade, deixando uma parte exposta. No outro lado, ainda não parece totalmente conectado ao dique de terra. O secretário de Obras e Reconstrução explica que, na região, a Avenida Guilherme Schell ainda será elevada ao nível da ponte que passa sobre o Rio Gravataí.
De acordo com o prefeito, Airton Souza (PL), pelo menos outras quatro obras ainda não começaram no município: a estrutura de contenção próximo à empresa Bianchini e as casas de bombas nº 9 e 10, que aguardam recursos, além do dique do bairro São Luís, que ainda precisa de projeto.
Operação das casas de bombas

O fim do contrato com o consórcio responsável pela operação das casas de bombas no município também ligou o alerta de moradores. O prefeito assegura que todas as estruturas tiveram os motores reformados e estão sob coordenação da Secretaria de Obras e Reconstrução no momento. Ele diz que há servidores públicos e cargos comissionados da prefeitura realizando o monitoramento enquanto um novo contrato não é assinado.
— Evidentemente que esses CCs não têm o conhecimento técnico de um servidor, de um engenheiro. Mas nós temos a equipe de engenheiros da Secretaria de Obras e também contratamos nove servidores da empresa que fazia o serviço — argumenta.
Canoas está mais protegida?
Moradores relatam não ver o hidrojateamento acontecer e não existir um cronograma divulgado à população. De acordo com a prefeitura, o serviço está com calendário reduzido devido à falta de recursos. O governo do Estado diz que recebeu a solicitação de mais verba e que está avaliando a prestação de contas da primeira remessa feita.
O prefeito de Canoas afirma que a prefeitura está buscando uma linha de crédito para desobstruir a rede pluvial. A expectativa é de que os recursos sejam liberados em até dois meses, estima.
Questionado sobre a segurança dos moradores caso um cenário como o de 2024 se repita, o prefeito avalia:
— Estão mais seguros do que estavam em 2024.
O fator 2031
Na Região Metropolitana, a previsão é de que o sistema de proteção seja concluído até 2031. Para o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, aumentar a segurança envolve também treinar a sociedade para lidar com as mudanças climáticas.
— Não existe proteção total baseada em obra de infraestrutura. E isso é fundamental que a sociedade saiba — reforça.



