Entre curiosos e admirados, os rio-grandinos costumam parar para observar o lento, barulhento e seguro trajeto percorrido pelo último trem de carga em atividade no Rio Grande do Sul. São alertados pela buzina, que ecoa pela cidade. A composição vem de Cruz Alta, no noroeste gaúcho, e percorre cerca de 464 quilômetros até o Porto de Rio Grande. Via de regra, são três locomotivas, que puxam em média 70 vagões. Depende da demanda.
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O trem tem horário para sair, mas não para chegar. As cargas são embarcadas em etapas: de Cruz Alta o comboio passa por Tupanciretã, Julio de Castilhos, Santa Maria, aí dá uma guinada em direção à Campanha e vai para Cacequi, desce para Bagé, de lá para Pelotas e depois, a Rio Grande.
Tanto as locomotivas movidas a diesel quanto os vagões são antigos — muitos exibem na lataria o logotipo desbotado da América Latina Logística (ALL), empresa que venceu o leilão da privatização das Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA) em 1997 e que foi, posteriormente, incorporada à Rumo Logística, atual concessionária da via férrea gaúcha. Ou seja, circulam há quase três décadas — o que não chega a ser comprometedor para os veículos, bastante resistentes, desde que submetidos a manutenção constante, alertam os ferroviários entrevistados por Zero Hora.
O trem costuma chegar no meio da manhã no terminal da Rumo Logística e, de lá, locomotivas puxam os vagões destinados a cada terminal ferroviário que usa os serviços da ferrovia. Então, a carga é embarcada em navios com destino, sobretudo, à Ásia. São transportados grãos de soja, milho, arroz, farelo e derivados de madeira até o porto. Na volta em direção ao Noroeste, o comboio costuma levar fertilizantes.
Os principais clientes da Rumo no porto de Rio Grande são a CCGL (central de 30 cooperativas de leite e grãos), a Bianchini (empresa de armazenamento de grãos, familiar) e a Bunge (multinacional de produção de grãos e farelo). Os comboios chegam a causar congestionamentos pontuais no trânsito, pela necessidade de parar por alguns minutos o tráfego de veículos nos cruzamentos viários, enquanto os 70 vagões passam.
A reportagem acompanhou a descarga do trem na CCGL, com sede em Cruz Alta, que montou em Rio Grande dois terminais, o Terminal Graneleiro S. A. (Tergrasa, um porto público, arrendado) e o Marítimo Luiz Fogliato (Termasa, um porto privado, construído pela própria cooperativa). Juntos, eles movimentam 9 milhões de toneladas anuais e respondem por cerca de 50% dos embarques de grãos do Rio Grande do Sul.
O Termasa foi paralisado pelas enchentes de 2024, mas passa agora por uma modernização e deve ser reativado este ano.
Os trens respondem por 14% do volume transportado no Tergrasa, sendo que a maior parte das cargas vem por caminhões (85%) e 1% por barcaças fluviais.
O ramal ferroviário é de suma importância para o agronegócio gaúcho, segmento ao qual pertencemos. Tanto que temos capacidade para receber até 250 vagões por dia. Infelizmente, em decorrência de problemas conjunturais da ferrovia, recebemos em média 70 vagões. Se houver mais demanda via trens, estamos preparados para receber três vezes mais vagões.
PAULO CAMPOS
Diretor de segurança do Tergrasa




