Um complexo pintado de vermelho em uma rua tranquila destoa dos imóveis vizinhos. Caminhões, ambulâncias, carros, motos e barcos esperam pela próxima ocorrência. Integrantes da unidade fazem serviços de rotina, descansam, chegam ou saem para atendimentos. "Bombeiros voluntários", informa a fachada.
A cena é comum em dezenas de municípios gaúchos que há décadas adotaram o modelo — e também um desejo de comunidades que trabalham para ter seus próprios quartéis.
Os bombeiros voluntários são associações civis sem fins lucrativos que atuam em ocorrências como resgates, combate a incêndios e atendimentos clínicos. Ainda que a maioria dos profissionais não seja remunerada, existem unidades que contam com o trabalho de assalariados.
A primeira experiência do tipo no país foi o Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, fundado em 1892, e em atuação até hoje. No Estado, o serviço teve início em Nova Prata, na Serra, em 1977. Chile, Argentina, Alemanha e Estados Unidos são citados como exemplos do trabalho.

O Corpo de Bombeiros Militar (CBM), instituição pública estadual, regulamenta a função no Rio Grande do Sul. Além da própria atuação de servidores militares, há bombeiros comunitários e civis que atuam em serviços auxiliares (entenda abaixo).
No Estado, 47 instituições são vinculadas à Associação dos Bombeiros Voluntários do Rio Grande do Sul (Voluntersul). Quase 1,3 mil pessoas, entre homens e mulheres, são bombeiros voluntários.
— A gente nunca sabe como vai ser o nosso plantão, como vai ser o nosso dia a dia — afirma o presidente da entidade, Anderson Jociel da Rosa, em referência à natureza dos atendimentos.
"Trabalho essencial"
O Corpo de Bombeiros Voluntários de Igrejinha, município de 34,7 mil habitantes no Vale do Paranhana, foi criado em 2005 e fica no centro da cidade. São 53 bombeiros, que cumprem uma escala de trabalho de ao menos oito horas semanais e mais um plantão de final de semana por mês.
O serviço é mantido graças a uma parceria com a prefeitura da cidade, por meio de um convênio com a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) e com ações dos próprios voluntários. Há nove profissionais contratados que recebem salário.
— Temos a demanda do termo de colaboração com o município, que exige que tenhamos alguns bombeiros contratados, a fim de que não falte nenhum profissional. Temos funcionários para dar segurança à comunidade de que o serviço vai acontecer, independentemente de alguma situação pessoal dos voluntários — explica Graciano Ronnau, comandante da unidade.
Segundo ele, o quartel troca informações por meio de um grupo no WhatsApp. Se uma ocorrência demanda mais apoio, quem pode se desloca para ajudar. Atendimentos clínicos são os mais comuns, seguidos de incêndios e acidentes de trânsito, principalmente nas rodovias RS-115 e RS-020.
— Temos um tempo de resposta de quatro minutos, o que faz a diferença. Não temos Samu; se não existissem os bombeiros voluntários de Igrejinha, o poder público teria de atender de alguma maneira. É um trabalho essencial para a cidade — acrescenta.
Leomar Binder, 37 anos, atua desde 2013 na corporação, na qual ingressou depois de um convite do então comandante. Gostou do trabalho e, dois anos depois, foi contratado como motorista efetivo, recebendo salário. Além da carga horária do contrato, também cumpre uma escala de voluntariado.
— Do mesmo jeito que estou tranquilo agora, o telefone pode tocar e precisamos sair correndo para um acidente ou um incêndio. É aquela adrenalina. É difícil conciliar com a vida fora do trabalho, mas é gratificante quando somos reconhecidos — diz Binder.
O trabalhador autônomo Everton Soares, 36 anos, dedica parte do tempo livre ao voluntariado. Ele conta que tomou gosto pela prática em 2018, quando começou a participar de iniciativas voluntárias. Fez o curso para ingressar na instituição em 2025.
— Tenho uma paixão pela corporação desde a infância. Não podia ver um caminhão de bombeiros que saía na rua para acenar para eles. Às vezes, estou na correria no trabalho, cansado, mas quando toca o telefone para uma ocorrência parece que me renovo: esse é o espírito do voluntário — conta.
"Nunca sabemos o que nos espera"
Na quarta-feira (11), Zero Hora acompanhou um dos treinamentos de bombeiros voluntários em São Sebastião do Caí, cidade com 24,8 mil moradores no Vale do Caí. A atividade ocorreu em um espaço cedido pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) no campus do município. Entre os aparatos utilizados nos treinamentos, há contêineres usados para emular combates a incêndios e um avião para simular resgates de vítimas. A instrução foi feita pela escola da Voluntersul.
— Periodicamente, fazemos simulações para demonstrar o comportamento do fogo, para que o bombeiro tenha a técnica adequada e esteja capacitado para atender às mais diversas emergências. Nunca sabemos o que nos espera — explica o presidente da Voluntersul.
Anderson Jociel da Rosa é também comandante dos bombeiros voluntários de São Sebastião do Caí, instalados em um prédio próprio no centro da cidade. Criada em 1995, a unidade tem 70 bombeiros, sete deles contratados.
Entre os veículos estão caminhões de combate a incêndios, ambulâncias — a corporação também é responsável pelo Samu no município — e embarcações comumente usadas em enchentes no Caí. Há ainda uma base avançada no município de Pareci Novo.
A instituição obtém recursos com a prefeitura da cidade, emendas parlamentares, projetos com o poder público e apoio de empresários locais.
— O relacionamento com os bombeiros militares é de respeito mútuo. Temos uma filosofia de trabalho e eles têm a deles. Mas, independentemente da modalidade, hoje são mais de 300 municípios sem nenhum sistema de bombeiros no Estado. Infelizmente, ainda existe a ideia de que segurança pública é custo, e não investimento. Essa é a nossa principal dificuldade — pontua.
Entre os bombeiros voluntários que participaram do treinamento em São Sebastião do Caí estava Mateus Valério, 30 anos, que está na corporação desde 2013 e ajudou a resgatar centenas de pessoas na enchente de 2024 na cidade.
— Quis entrar na corporação depois que não consegui ajudar amigos em um acidente de trânsito na RS-122. Foi naquele dia que vi o trabalho dos bombeiros voluntários e decidi que queria participar. Enquanto tiver forças, quero continuar — disse após o treinamento.
Debate histórico
O trabalho dos bombeiros voluntários no Estado enfrentou impasses ao longo dos anos — entre eles, o perfil de município onde o modelo pode atuar e a fiscalização por parte do governo estadual.
Uma portaria estadual de 2019, atualizada em 2020, regulamenta a função, definindo normas para credenciamento, fiscalização e funcionamento.
- Corpo de Bombeiros Militar (CBM): instituição pública estadual
- Corpo de Bombeiros Militar padrão Comunitário (CBMC): composta por militares estaduais e por civis auxiliares
- Serviço Civil Auxiliar de Bombeiro (Scab): funciona sob regulamentação do CBM, é dividido em Municipal, Voluntário, Privado e Misto
Em geral, a regra estabelece que:
- Municípios menores, com até 15 mil habitantes, têm liberdade para atuar com Scab, em que podem atuar com voluntários.
- Municípios com população de 15 mil a 30 mil habitantes contam com atuação de CBMC; além dos militares estaduais, podem funcionar com civis auxiliares.
- Municípios maiores, acima de 30 mil habitantes, são de responsabilidade do Corpo de Bombeiros Militar, que mantém a exclusividade do chamado poder de polícia, como fiscalização e licenciamento dos Planos de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI).
Outra portaria, de 2022, estabelece que bombeiros auxiliares devem fazer uma capacitação técnica homologada pelo Estado. A Voluntersul, porém, defende maior autonomia para que os municípios administrem o modelo e toma como base uma lei complementar de 2021. O texto não vincula a fiscalização e autorização dos bombeiros voluntários ao Corpo de Bombeiros Militar.

O que diz o CBM
Ricardo Mattei Santos, comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS), afirma que o trabalho dos bombeiros voluntários é tratado como uma parceria.
— É uma atividade muito importante para os municípios pequenos, porque o custo do serviço é alto para o poder público municipal. Sempre orientamos que o atendimento seja feito de forma conveniada entre o Estado, por meio do Corpo de Bombeiros Militar, e o município, para que se tenha respaldo legal e também para possibilitar a formação gratuita, além do repasse de equipamentos e viaturas por parte do Estado — explica.
O coronel pondera, porém, que, se a atividade for exercida como serviço voluntário, precisa ocorrer sem retorno financeiro:
— Vemos que, em alguns casos, é utilizado o termo "voluntário", mas existe um vínculo de relação comercial, algo com que não compactuamos. O voluntário, no nosso entendimento, não vende curso, não vende uniforme, não presta serviço com custo de manutenção para as prefeituras. O que é voluntário é voluntário. O que é prestação de serviço remunerado é prestação de serviço remunerado. Isso precisa ficar bem claro para a sociedade.
Segundo o CBM, 45 municípios têm convênio para atuar com o Serviço Civil Auxiliar de Bombeiro (Scab), seguindo as regulamentações da corporação:
- Ajuricaba
- Antônio Prado
- Arambaré
- Araricá
- Aratiba
- Arroio Grande
- Arroio do Meio (não ativo)
- Arroio do Sal
- Áurea (não ativo)
- Balneário Pinhal
- Barão de Cotegipe
- Barros Cassal (não ativo)
- Bom Jesus
- Cacequi
- Cambará do Sul
- Campos Borges
- Casca
- Cerro Largo
- Chiapetta
- Constantina
- Crissiumal (não ativo)
- Erval Grande
- Faxinalzinho
- Feliz
- Gaurama
- Jacutinga
- Maçambará (não ativo)
- Maratá
- Montauri (não ativo)
- Mormaço (não ativo)
- Muitos Capões
- Não-Me-Toque
- Quinze de Novembro
- Salto do Jacuí
- Sananduva
- Santa Bárbara do Sul
- Santo Augusto
- Santo Cristo
- Santo Expedito do Sul
- São João da Urtiga
- São Martinho da Serra (não ativo)
- São Miguel das Missões (não ativo)
- Serafina Corrêa
- Tupandi (não ativo)
- Viadutos
* Os municípios com o serviço "não ativo" já estão credenciados, mas, por algum motivo, não têm bombeiros operando





