
Protagonista no processamento de viés sustentável da produção agrícola, o Rio Grande do Sul caminha para romper uma nova barreira da indústria do futuro. Passo Fundo, no norte gaúcho, vai abrigar a primeira fábrica brasileira de glúten vital, componente considerado essencial no ramo alimentício.
Atualmente, todo o glúten vital consumido no país é importado. A produção local pode não só suprir a demanda nacional, como também abrir mercado a outros países.
A investida está sendo liderada pela gigante Be8, que já comanda o mercado de biocombustíveis e avança com a fabricação de etanol a partir de cereais de inverno. Um aporte de R$ 290,2 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financia a obra pioneira, que terá capacidade para processar 525 mil de toneladas por ano de cereais.

O glúten será mais uma aposta nesta frente. O componente será fabricado na mesma usina de etanol que está sendo construída pela companhia em Passo Fundo, utilizando cereais para a fabricação de biocombustível, ração animal (DDG) e até hidrogênio verde. A expectativa é de que a unidade produza 27 mil toneladas de glúten ao ano.
Extraído da farinha do trigo, o glúten vital é amplamente utilizado na panificação, em especial na fabricação de massas e pães. Sua presença na receita é o que confere maciez e volume aos alimentos, devido à melhor qualidade da farinha. Seu uso também está presente na aquacultura, a partir da alimentação dos peixes, e na nutrição pet.
O aproveitamento de um único cereal no processamento de diferentes produtos traz outra importância à agricultura, principalmente por incentivar e justificar a sua produção por parte dos agricultores. Trata-se de retomar a relevância gaúcha no ramo do trigo, avalia a executiva de vendas da área comercial da Be8, Kênia Meneguzzi:

— Gosto de pensar no Rio Grande do Sul de volta ao protagonismo do trigo. Era um Estado triticultor de fato. Hoje, vendo a indústria se posicionar dessa forma, utilizando 100% do grão, vejo que o Estado vai ganhando outro status, nacional e internacionalmente. É uma virada de chave gigante. Já estamos sendo vistos como grandes players — diz a executiva.
Europa, China e Austrália concentram 98% da exportação mundial de glúten vital. O Brasil é o 11º maior importador do insumo neste mercado. Com a planta gaúcha, pode se tornar, inclusive, fornecedor para países vizinhos que demandam o produto. A única fábrica do tipo em operação na América Latina fica na Argentina. No entanto, a produção é de pequena escala, insuficiente até mesmo para a demanda local.
Versatilidade no mercado
A operação da Be8 vai processar 100% do trigo utilizado. Enquanto da proteína extraída se produzirá o glúten, o amido servirá para o etanol e as fibras para o DDGS. Segundo os especialistas, a multiplicidade de aplicações confere alto valor agregado ao glúten.
A versatilidade do cereal é o que dará segurança ao produtor. Além de abastecer a usina, a produção servirá de salvaguarda da agricultura gaúcha ao impulsionar os cultivos no inverno, preenchendo o calendário agrícola para além do verão.
Neste ponto, a indústria conta com a pesquisa e o desenvolvimento de cultivares cada vez mais adaptadas às necessidades fabris, permitindo absorver a produção mesmo que a safra enfrente algum dano ao longo do ciclo, em decorrência de condições do clima. Dessa forma, o que não serve para um produto, pode servir para outro, diz Kênia.
— Todo o cuidado na escolha da cultivar, dos produtores integrados, do manejo adequado e da originação da matéria-prima vai fazer com que o nosso produto ganhe cada vez mais destaque internacionalmente, competindo com players que já estão consolidados no mercado. O que vamos fazer pela economia no Estado, pelos produtores e pela cadeia toda vai ser realmente muito disruptivo — avalia a executiva.
O que é glúten vital?
- Insumo produzido a partir da proteína do trigo
- Na indústria alimentícia, seu uso é responsável por conferir maciez e volume às massas
- A proteína também é fonte para o crescimento de peixes, sendo bastante utilizada na aquacultura
- O glúten tem sido amplamente utilizado na nutrição de pets
- A matéria-prima ainda pode ser empregada na produção de cosméticos
- Outras iniciativas estudam a aplicação da proteína do trigo como suplemento proteico, como na fabricação de whey protein
- Somente 2% da população mundial é alérgica ao glúten e apenas 1% é intolerante





