Feito uma serpente metálica, uma fila de trens parados em Canoas começa nas proximidades da BR-116 e se estende por quase três quilômetros a oeste, em direção ao Rio dos Sinos. São mais de 500 vagões e locomotivas que enferrujam a céu aberto, recolhidos em um pátio há quase dois anos, porque os trilhos pelos quais escoava grande parte da produção de combustíveis da refinaria Alberto Pasqualini rumo ao centro do país foram destruídos pelos desmoronamentos provocados pela enchente de 2024 na encosta da Serra. Poderiam funcionar, mas não têm para onde ir. O purgatório de composições de metal e ferrugem é o retrato da agonia das linhas férreas no Rio Grande do Sul.
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O maior desastre ambiental da história gaúcha coroou um drama que já atravessa três décadas. Quando a Rede Ferroviária Federal (RFFSA) foi privatizada, em 1997, a malha gaúcha tinha 3,8 mil quilômetros de trilhos. Por falta de manutenção e abandono de trechos estratégicos por parte da América Latina Logística (a empresa privada que ganhou a licitação) e da sua sucessora, a Rumo Logística, restavam 1,6 mil quilômetros em 2023 — e nenhuma comunicação férrea com Argentina e Uruguai, outrora destinos preferenciais de cargas.
O golpe mais recente veio em maio de 2024, quando as enchentes que assolaram o Estado despejaram uma aluvião de rochas, cascalho e lama para cima dos túneis, viadutos e pontes da ferrovia, sobretudo no Vale do Taquari e na Serra. Com isso, 75% dos trilhos originais deixaram de ser usados. E não existem mais trens ligando o território rio-grandense a países ou Estados vizinhos.
O isolamento forçou grandes empresas a gastarem milhões de reais com alternativas rodoviárias para mandarem seus produtos para além do Rio Mampituba. E levou ao desespero pequenos empreendedores. Em Muçum, na encosta serrana, o comerciante Marciano Brandão chegou a atender 25 mil clientes que chegavam até seu restaurante colonial, a Casa Brandão, usando o Trem dos Vales — um charmoso comboio de passageiros que serpenteava entre montes, atravessava viadutos e costeava rios como o Taquari, por 46 quilômetros, ligando Muçum, Vespasiano Corrêa, Dois Lajeados e Guaporé.
A enxurrada de 2024 derrubou e deslocou pontes, entupiu os túneis com enormes rochas, arrancou quilômetros de trilhos e alagou equipamentos elétricos ao longo de toda a via férrea entre Roca Sales e Passo Fundo, interrompendo o fluxo de grãos, combustíveis e passageiros que fluía até dois anos atrás em direção ao norte gaúcho.
Reflexos nos negócios do Vale do Taquari
Zero Hora percorreu a região, onde o mato cresce nos túneis, viadutos continuam arrebentados, estações, como a de Muçum, estão abandonadas e comerciantes, como Brandão, viram seu movimento despencar vertiginosamente. Em 2024, permaneceu fechado por oito meses, removendo lama e consertando o restaurante. O Trem dos Vales não foi reativado (apesar de existir projeto para uma retomada parcial).
Tínhamos ampliado o restaurante, com vista aos passageiros do trem. Depois que a via férrea foi suspensa, tivemos de organizar eventos para tentar suprir a perda do movimento.
MARCIANO BRANDÃO
Proprietário do restaurante colonial Casa Brandão
A redução no fluxo turístico também se refletiu, em Muçum, no Hotel Marchetti, cujos 18 quartos viviam, nos fins de semana, abarrotados de passageiros do Trem dos Vales.
A interrupção da ferrovia nos trouxe prejuízo imenso. Hoje tem fins de semana que ocupamos dois ou três quartos.
TIAGO MARCHETTI
Proprietário do Hotel Marchetti
Outra comerciante que teve perdas é Adriana Rizzi, dona do Hotel Rizzi, de Encantado. Parte do movimento vinha dos trens que circulavam pelas cidades vizinhas. Hoje, ela vive do vaivém do turismo religioso do Cristo Protetor.

A esperança desses empresários é a retomada do Trem dos Vales, prometida pelo governo estadual, além de alguma afluência de romeiros que buscam o Cristo Protetor em Encantado. Um dos locais que pode voltar ao roteiro turístico ferroviário é o Viaduto 13, em Vespasiano Corrêa. Com 143 metros de altura e 509 de extensão, é considerado a mais alta estrutura ferroviária das Américas.
Memória da ferrovia serrana
Uma das grandes afetadas pelo desmoronamento das ferrovias na Serra é Bento Gonçalves. Entre a cidade e as vizinhas Cotiporã e Veranópolis, viadutos, pontes e túneis férreos estão danificados ou destruídos. Osvaldo Rossatto, mecânico que faz trilhas turísticas de jipe pela região, e o topógrafo Gabriel Bertinatto organizam, desde 2024, excursões de interessados em percorrer os trechos desmoronados das vias férreas. Embora se divirtam escalando rochas e se enlameando nos túneis soterrados, os dois sonham com a volta dos tempos áureos da ferrovia.
É esse também o desejo de gente como Joraci Arruda de Morais, o Bitão, que aos 78 anos é um dos mais antigos ferroviários do Rio Grande do Sul. Morador de Bento Gonçalves desde criança, ele ocupa uma das casinhas pertencentes à antiga Rede Ferroviária Federal S.A (RFFSA), na qual trabalhou por mais de 30 anos. A residência fica junto à estação férrea da cidade e pelas manhãs, nostálgico, ele assiste ao vaivém dos derradeiros trens do município.

É que Bento ainda conta com um ramal férreo em atividade, a Ferrovia do Vinho, explorada pela Giordani Turismo e que leva trens de passageiros por 23 quilômetros, até a cidade serrana de Carlos Barbosa. É uma sombra do que foram os trens para a região, lamenta Bitão.
A ferrovia era uma das coisas mais importantes para o Estado. Antigamente, vinham mais de cem vagões de combustível de São Paulo, puxados por três locomotivas. Desciam por Lages, Vacaria, Roca Sales e Porto Alegre. De Porto Alegre saíam para Santa Maria e Passo Fundo. Hoje, não tem mais nada. Não passa mais trem. Tá tudo abandonado. Fica a saudade.
JORACI ARRUDA DE MORAIS
Ferroviário aposentado
Contraponto
Procurada, a Rumo Logística enviou nota à reportagem na qual diz que "segue em diálogo com o Ministério dos Transportes, poder concedente da Malha Sul, para avaliar alternativas para o futuro da ferrovia após os impactos das enchentes de 2024".
O texto acrescenta que "definições sobre eventuais encaminhamentos estão no âmbito do Governo Federal" e que em relação a novos projetos ferroviários, "avalia as oportunidades da carteira de concessões com base na viabilidade técnica, regulatória e econômica".



