Por Claudio Bier, presidente do Sistema Fiergs

A situação das ferrovias no Rio Grande do Sul revela um descompasso preocupante entre o desenvolvimento da economia gaúcha e a capacidade de sua infraestrutura logística. Para a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), o modal ferroviário, que deveria ter papel central no escoamento da produção, vem perdendo relevância ao longo das últimas décadas, com impactos diretos sobre a competitividade do Estado.
Desde a concessão, em 1997, a extensão operacional caiu de cerca de 3.800 para 1.650 quilômetros e, após os eventos climáticos recentes, para 921 quilômetros. Essa retração contrasta com a expansão das exportações e da produção industrial e agrícola, enquanto o volume transportado por ferrovia reduziu, refletindo a desconexão entre infraestrutura e demanda.
Hoje, o Estado depende majoritariamente do transporte rodoviário, responsável por cerca de 88% da movimentação de cargas, índice muito superior à média nacional. Essa concentração eleva custos, amplia a vulnerabilidade a choques, como a alta do diesel, e pressiona as rodovias, além de reduzir a eficiência e a sustentabilidade do sistema.
Os impactos são expressivos em cadeias estratégicas, como a de proteína animal, altamente dependente de logística eficiente. O mesmo ocorre com setores industriais como metalmecânico, petroquímico e de base florestal, que poderiam se beneficiar de uma malha ferroviária mais ampla, integrada e confiável. Destaca-se que o setor petroquímico e granéis líquidos foram particularmente afetados pelos eventos climáticos de 2024, que danificaram trechos ferroviários relevantes, sem que, até o momento, tenham sido iniciadas as obras de recuperação.
Há potencial não explorado para transporte de granéis agrícolas, combustíveis, fertilizantes, produtos industriais, além da integração com corredores logísticos e portos. Projetos de conexão nacional e maior intermodalidade poderiam transformar o papel do Estado no cenário logístico.
Outro aspecto relevante diz respeito à gestão. A análise do contrato vigente evidencia lacunas no cumprimento de obrigações de manutenção, investimentos e qualidade do serviço, contribuindo para o atual quadro de deterioração da malha. Esse cenário reforça a necessidade de revisão do modelo, com maior rigor regulatório, definição de metas claras e compromisso efetivo com a expansão e modernização da infraestrutura.
Estamos a menos de um ano do término da concessão, e, ao longo de todo esse período, a atual concessionária se manteve alheia às reivindicações e pleitos apresentados pelo setor produtivo. Demandas recorrentes, essenciais para a melhoria da eficiência logística e para a competitividade da indústria, não receberam respostas concretas nem encaminhamentos efetivos, evidenciando uma postura de baixa interlocução e compromisso insuficiente com as necessidades dos usuários.
Diante desse cenário, a Fiergs defende a ferrovia como prioridade estratégica. Recuperar, expandir e integrar a malha é essencial para reduzir custos, elevar a competitividade e impulsionar o desenvolvimento. Mais do que alternativa, trata-se de condição para o crescimento sustentável do Rio Grande do Sul.



