O consumo de água mineral natural está em ascensão no Brasil, ancorado principalmente na gradual mudança de hábitos da população. Em 2024, a estatística da Agência Nacional de Mineração (ANM) revela a comercialização recorde de 18,1 bilhões de litros. O volume é o triplo do registrado em 2010 e o dobro em comparação com 2018.
A alta temporada de vendas ocorre entre dezembro e março, puxada pelas temperaturas do verão e maior agenda de eventos sociais e esportivos em ambientes ao ar livre. A Associação Gaúcha dos Envasadores de Água Mineral (Agedam) informa que, na época de calor, o volume aumenta entre 20% e 40%.
— Apostamos em crescimento maior nos próximos anos. As indústrias se prepararam para atender o mercado, com tecnologia e automação para ter mais produtividade — diz Éverton Steyer Netto, presidente da Agedam.
280 metros de profundidade: a pureza da água
Em São José do Hortêncio, município de cerca de 4,5 mil habitantes no Vale do Caí, a indústria de água mineral Valle Vita está no embalo do setor. Desde 2022, registrou aumento médio de 85% no faturamento anual. Ampliou em 90% a produtividade e adotou a operação de envase de água mineral nas 24 horas do dia desde agosto de 2024.
Cada vez mais comum no cotidiano, o líquido tem processos de acúmulo nas profundezas do solo, de extração e de industrialização que ainda não se popularizaram.
Pouca gente sabe que a água mineral é um produto 100% natural. Vem direto da natureza para o envase na garrafa, sem qualquer tipo de adição ou subtração de elementos.
STEYER NETTO
Presidente da Agedam
A formação das fontes é parte do ciclo da água. A chuva infiltra no solo, perpassa a terra, o cascalho e as rochas. Absorve minerais que auxiliam na saúde humana, como magnésio, cálcio, potássio e fluoreto. Dezenas ou centenas de metros abaixo da superfície, a água se acumula em bolsões, os lençóis freáticos. Ela é retirada das profundezas pela indústria, em tubulações de aço inox, sem contato com o ar.
A fábrica da Valle Vita, focada no atendimento dos mercados gaúcho e catarinense, opera atualmente com três fontes de água mineral na mesma propriedade. Duas delas têm cerca de 100 metros de profundidade, enquanto a terceira alcança 280 metros solo abaixo.
Especificidades
Mesmo quando originária de fontes próximas, a água mineral tem características exclusivas. Algumas com menor concentração de propriedades químicas, leves ao paladar, e outras mais mineralizadas, o que pode sugerir notas metálicas ou cítricas. O processo é influenciado pelo tipo de solo, rochas e profundidade. As impressões sensoriais dependem do personalíssimo paladar, mas contrariam a máxima de que a água é insípida.
— Temos duas fontes de águas leves. Os clientes dizem que são "fáceis de beber". E existem as de maior concentração mineral, que podem dar a sensação de arranhar a garganta, principalmente as gaseificadas. É sutil a diferença, muitos não percebem, mas dá para desenvolver paladar — diz Pâmela Weber, engenheira de controle de qualidade da Valle Vita.
A legislação brasileira para o setor diz que água mineral é definida por “composição química com características que lhe confiram uma ação medicamentosa”. Isso difere o produto da água de mesa — que pode vir de fonte natural, atendendo apenas critérios de potabilidade — e das águas purificadas ou fornecidas diretamente pelo sistema de saneamento, via torneiras dos lares.
— É muito importante beber água e todos os tipos vão hidratar de forma segura, mas a água mineral natural tem outros benefícios que podem auxiliar na saúde devido ao processo da natureza. São características que não vemos nas águas de mesa e da torneira — afirma Fabiana Magnabosco de Vargas, nutricionista, química e conselheira do Conselho Regional de Nutrição - 2ª Região (CRN-2).
Busca por saúde e clima impulsionam o mercado
O mercado de água mineral está em crescimento, afirma a Agedam, em razão de uma combinação de fatores, desde os comportamentais até os climáticos.
— As novas gerações estão preocupadas com a saúde, estudando os produtos que consomem e buscando os naturais. Os jovens têm isso no DNA, mas as gerações de transição estão se adequando — diz Éverton Steyer Netto, presidente da Agedam.
Exemplo objetivo da mudança é observado na indústria da Valle Vita. Inaugurada em 2012, a empresa teve a água mineral sem gás como carro-chefe nos primeiros anos de operação. Recentemente, a proporção se inverteu. Hoje, cerca de 70% da produção é de água mineral com gás e 30% sem gás.
— São os hábitos saudáveis. O pessoal busca alternativa ao refrigerante e bebidas processadas. A água mineral com gás é a substituta por não ter conservantes nem açúcar. Ela mantém as mesmas características de fonte da água sem gás, mas com a adição de CO2 (dióxido de carbono, responsável pelas bolhas) — diz Pâmela Weber, engenheira de controle de qualidade da Valle Vita.
Outro fator de influência no crescimento, sustenta Steyer Netto, são os períodos de estiagem. A seca reduz o nível dos rios em que as companhias de saneamento fazem a captação de água em estado bruto. Depois de tratada para adquirir potabilidade, ela pode chegar às torneiras dos lares com gosto barrento. Em outras situações, o cloro se sobressai sensorialmente. Um aspecto peculiar e trágico do Rio Grande do Sul também impactou o mercado recentemente.
— Cresceu depois da enchente. Pessoas que não tinham hábito de consumo e tiveram a experiência, seja por ter faltado água na torneira ou por estar com gosto ruim. Quando experimentam a água mineral, dificilmente voltam atrás — comenta Steyer Netto.
Pontos de atenção
Apesar da ascensão, o setor enfrenta desafios de curto e médio prazo. Um deles, diz o dirigente, é a contratação temporária de trabalhadores. Como o ramo tem picos de demanda, influenciados pelo calor, é necessário ter aumentos pontuais de força de produção, mas há dificuldade para encontrar mão de obra qualificada. A Agedam também aponta a multiplicação de empresas com concessões públicas para explorar fontes naturais. Steyer Netto, terceira geração de sua família no ramo, afirma que o Rio Grande do Sul tinha quatro fontes sob extração há 30 anos. Hoje, conforme dados oficiais da ANM, são 47 concessionárias atuando somente no Estado. O cenário acirra a concorrência e leva empresas de capacidade logística limitada a se especializarem na comercialização local. Com menor custo de distribuição, mantêm competitividade no preço.
O desafio maior é o consumidor entender que as propriedades da água mineral fazem bem à saúde. Vai além de matar a sede.
STEYER NETTO
Apesar da alta na comercialização, os dados disponíveis mostram que o brasileiro ainda tem adesão limitada ao produto. O quesito é percebido como oportunidade de mercado.
— A tendência continua a ser de crescimento. O consumo estimado per capita no ano de 2024 no Brasil foi de 85,13 litros de água mineral envasada (cerca de 233 ml por dia). No campeão México, o consumo per capita foi de 254,4 litros por ano (cerca de 697 ml por dia) — destaca Doralice Meloni Assirati, chefe da Divisão de Fiscalização de Água Mineral da ANM.
Ela sublinha como desafio do setor a ampliação do retorno e reciclagem do plástico, principal embalagem da indústria.





