O silêncio predomina ao caminhar pelos bairros Marmitt e Moinhos, localizados à beira do rio, em Estrela, no Vale do Taquari, a cerca de 120 quilômetros de Porto Alegre. Quase dois anos após a enchente que devastou as duas localidades, a vegetação cresce junto ao asfalto e aos escombros do que restou das moradias.
Não mora mais ninguém ali. Os bairros tiveram o fornecimento de água e luz cortados – tornando-se espaços fantasmas.
Na região, próxima ao centro da cidade, cerca de 500 casas abrigavam 2,5 mil pessoas, que foram transferidas para outros locais. Diante da impossibilidade de retorno, devido aos riscos da zona de arraste (onde o rio avança com força), o espaço ganhará outro destino: as ruínas das casas serão substituídas por infraestrutura verde, em um parque linear ecológico, que custará R$ 20 milhões – recursos já garantidos pelo governo federal e pela Defesa Civil, conforme a prefeitura. A iniciativa do parque integra o Projeto Verde Urbano.
Estão previstas uma série de estruturas no parque:
- área arborizada (16,2 hectares)
- zona de umidade em um banhado (17,2 hectares) para detenção e absorção de água
- hortas comunitárias
- coleção botânica
- reflorestamento de espécies nativas
- pomar com frutas nativas
- pracinha naturalizada
- academia ao ar livre
- pracinha inclusiva
- circuito de aventuras
- quadras esportivas
- pista de skate e de bicicross
- auditório
- mirantes
Secretário-adjunto de Planejamento e Sustentabilidade da cidade, biólogo e um dos coordenadores do projeto, Emerson Musskopf ressalta que a construção está condicionada à entrega de novas moradias para as famílias que perderam tudo. A previsão é de que as obras iniciem ainda em 2026, com um cronograma de execução de três a cinco anos.
"A gente conhecia todo mundo"
Logo após a tragédia, Marlise Machado, 58 anos, aposentada, e Celso Machado, 65, taxista, costumavam se dirigir à frente dos destroços da própria residência, com cadeiras, chimarrão e bolo, e sentar-se na rua – em uma tentativa de se sentir em casa.
Para ficar aqui, porque era aqui o nosso lugar, né? Era aqui a nossa vida. Vinte e quatro anos… criei minhas filhas aqui. Então, foi uma vida que a gente perdeu aqui. Foi muito triste, até hoje ainda sinto saudade.
MARLISE MACHADO
Aposentada

A casa também garantia o sustento da família, com mercado e bar no térreo. Em maio de 2024 a família ainda arcava com os prejuízos da enchente de setembro do ano anterior, que surpreendeu a todos, já que a água nunca havia chegado ali.
O choque da tragédia deu lugar à gratidão pela vida e ao alívio de ter um local para morar. Os dois construíram uma nova vida no interior, na linha Delfina, em uma casa que receberam no programa Compra Assistida.
— Eu me sinto em casa aqui. Eu vou ser uma que vou vir muito aqui — afirma Marlise, que espera ver o local, hoje triste e abandonado, voltar a ser bonito.
— Torcer para que dê certo, não fique só no papel — acrescenta Celso.
Projeto Verde Urbano
O Projeto Verde Urbano utiliza técnicas do conceito de cidade-esponja. Esse modelo de urbanismo é um tipo de solução baseada na natureza (SbN) que utiliza infraestrutura verde e azul para absorver, reter e limpar a água da chuva, reproduzindo o comportamento natural do solo e reduzindo a velocidade de escoamento. A liberação mais lenta da água ameniza o impacto sobre o rio e ajuda a evitar alagamentos. Além disso, ao reservar áreas para inundações, diminui riscos.
Cidade resiliente
O projeto da prefeitura abrange uma série de intervenções com SbNs em diversos pontos do município, para melhorar a drenagem urbana e minimizar as ilhas de calor, tornando a cidade, frequentemente afetada por enchentes, mais resiliente.
Para isso, prevê o uso de pisos drenantes, jardins de chuva, biovaletas e wetlands flutuantes. Para o desenvolvimento, a prefeitura consultou a UFRGS e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
O benefício dos parques, que devem integrar um ecossistema, é oferecer áreas de amortecimento, conforme Marcelo Arioli Heck, especialista em urbanismo e planejamento territorial. Na visão de Fernando Dornelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os parques preservam o comportamento natural do rio com áreas de inundação da várzea, evitando a ocupação de zonas de alto risco.
Mentoria do WRI
A ideia foi consolidada a partir de uma mentoria do World Resources Institute (WRI) Brasil para projetos sustentáveis. A entrega da verba prevê a realização de ações com a comunidade, para que se sinta pertencente ao espaço que costumava ser seu.
— Vamos manter as pessoas próximas do rio, não isolar o rio das pessoas — ressalta Evelin Schnorr, geóloga da pasta, que participou do planejamento.
Era o lugar de vida das pessoas, onde as pessoas lutaram anos para construir e perderam tudo por causa da natureza. Então, queremos fazer um lugar onde a natureza retribua um pouco para a população tudo que se perdeu.
EMERSON MUSSKOPF
Secretário-adjunto de Planejamento e Sustentabilidade, biólogo
Parte do entulho do local será utilizada para criar desenhos tridimensionais para reduzir a força da correnteza. A estrutura é pensada para resistir a novos eventos extremos. Para isso, a UFSM está realizando simulações – ou seja, o parque ainda pode ser remodelado e, mesmo assim, não há garantias totais contra novas destruições.
Apesar disso, não é viável deixar a área sem intervenção. A prioridade é clara: é preferível que a estrutura do parque seja destruída pelas águas do que se percam vidas e residências no entorno.
Área central
O projeto também prevê intervenções no centro da cidade. As obras custarão R$ 2,27 milhões – os recursos são provenientes do Banco do Brasil/Defesa Civil, da Funrigs e do BRDE/Fundação Boticário. A construção da pracinha naturalizada já foi iniciada, pensando também em torná-la resistente. A prefeitura busca ainda R$ 9,57 milhões em recursos para expandir o projeto para outros bairros.
As diferentes intervenções têm o potencial de minimizar os impactos em uma cidade que teve 75% do seu território submerso na enchente, e a tendência é de que a situação do município melhore, conforme Musskopf.
— Isso vai impedir enchentes? Não. Para impedir enchentes, temos de fazer SbNs em toda a bacia do Rio Taquari. Mas vai ajudar Estrela com os alagamentos urbanos, que são muito frequentes — pondera.
— A gente acredita nisso, acreditamos que é algo que vai ajudar — destaca Mauro Ayres, arquiteto e urbanista responsável pelo planejamento do projeto.
O programa apresenta potencial de evitar até R$ 109 milhões em prejuízos monetários relacionados a desastres climáticos até 2050, conforme estimativa do WRI.
“Ele não se acostuma direito”

Após a tragédia, muitos moradores tiveram de recorrer a outras cidades do Vale do Taquari para encontrar uma nova residência em local seguro, devido à alta demanda e à escassez no mercado imobiliário. É o caso da aposentada Ilga Maria Ledur Nicolau, 72 anos, que se mudou com o marido para Arroio do Meio. Da casa que foi seu lar por 25 anos, restou apenas a parede do banheiro e a fundação.
A aposentada conta que a família enfrenta dificuldades desde a mudança, pois o marido adoeceu por deixar a cidade.
— Isso não sai da cabeça dele, é muito ruim. Ele não se acostuma direito, não tem nenhuma pessoa que a gente era acostumado. Era muito bom morar ali. Agora não sei o que vai dar. Tem que se acostumar. Não é muito fácil— afirma Ilga.
Entraves a serem resolvidos
À medida que novas terras e moradias são entregues aos proprietários de residências nos bairros Marmitt e Moinhos, os terrenos antigos são cedidos à prefeitura, e o que resta das casas é demolido. De acordo com o Executivo municipal, em até dois anos e meio, haverá cerca de 1,7 mil casas prontas, proveniente dos programas dos governos federal e estadual e de doações da iniciativa privada. Com isso, a expectativa é de que os moradores retornem a Estrela – onde há quase 1,5 mil vagas de emprego não preenchidas devido à falta de moradia.
Quando pelo menos um quarto da área estiver regularizada, a prefeitura planeja iniciar as obras. Demolições pontuais já vêm sendo feitas.
Muitos, entretanto, ainda estão à espera de um novo lar. Há casas sem documentação ou construídas em terrenos irregulares, além de famílias que, por critérios estabelecidos nos programas habitacionais, como renda e patrimônio, não se qualificam para o recebimento de auxílios ou de residências.
A família Souza, por exemplo, tem renda um pouco acima do limite definido, e não recebeu aluguel social nem auxílios, tampouco foi contemplada no Compra Assistida. O casal recebeu ajuda de amigos e de parentes para recomeçar.
A prefeitura prometeu indenizações ou permutas por terrenos no bairro Costão, no interior. Mas as expectativas são baixas, já que a avaliação é feita com base no valor atual do imóvel, que hoje é só um esqueleto.
— Nós não temos outra escolha. Aqui não vão deixar nós morar mais. Não vai existir mais — diz Daniel Pereira dos Santos Souza, 60.
— Como veio essa forte, pode vir outra, né? E mesmo a gente se desgostou daqui, a gente não quer mais aqui. É um trauma. — complementa Vilma Faoro Souza, 64.

Ações precisam ser regionalizadas
Especialistas reiteram que dispositivos isolados possuem impacto limitado se não forem implementados de forma massiva e regional.
— Somente com essa articulação em toda a bacia hidrográfica teremos um impacto real frente a eventos extremos — afirma Heck, que também é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisinos.
O ponto central da cidade-esponja é gestão da permeabilidade do solo em todo o município, o que exige um planejamento voltado à infraestrutura de drenagem, à pavimentação e às diretrizes para novas construções e loteamentos, além da preservação de matas ciliares e APPs. Ou seja, um sistema conjunto que permite o desenvolvimento sob uma lógica mais sustentável. A permeabilidade é altamente eficaz para mitigar alagamentos cotidianos, mas não deve ser vista como ferramenta isolada.
É uma mudança cultural essencial no modo como pensamos as cidades.
MARCELO ARIOLI HECK
Especialista em urbanismo e planejamento territorial.
Ações de resiliência no Vale do Taquari
Outras cidades também planejam projetos para tornar as cidades mais resilientes e evitar ocupação em zonas de risco:
- Colinas: realocação de famílias para criar parque resiliente, voltado ao lazer e ao esporte, em área inundável.
- Cruzeiro do Sul: criação do Parque Ecológico Memorial Passo de Estrela, em zona de risco, com SbN, para lazer, esporte e memória.
- Encantado: intervenções de baixo custo para transformar bairros atingidos em zonas inundáveis, com parques de lazer e recuperação ambiental, totalizando 13,6 hectares.
- Lajeado: preparação de novo Plano Diretor para proibir moradias em áreas de cheia e criar parques e espaços de lazer.
- Muçum: projeto de parque linear de 3,3 hectares, com soluções ecológicas, lazer, esporte e memorial, e intervenções de baixo custo em áreas de alto risco, para uso comunitário.
- Roca Sales: uso de SbN e técnicas de cidade-esponja, como praças alagáveis e parques lineares, além de corredores ecológicos, para absorver o excesso de água em inundações.
