A experiência de Porto Xavier, município situado no noroeste gaúcho, ilustrou o debate sobre o papel das cidades no desenvolvimento econômico e do agronegócio no Estado. O assunto foi tema do painel “Campo em Debate: A força do Município”, realizado nesta terça-feira (10) na Casa RBS, durante a 26ª Expodireto Cotrijal.
O município implantou um programa de juro zero para financiamentos agrícolas, no qual a prefeitura subsidia os juros pagos pelos produtores. Em pouco mais de dois anos, a iniciativa já viabilizou mais de R$ 7 milhões em investimentos no campo, destinados a projetos de irrigação, agroindústrias e diversificação produtiva.
Segundo o prefeito Gilberto Menin, a proposta surgiu diante de estiagens cada vez mais frequentes no Estado:
— Precisávamos mudar a cultura de esperar apenas pela chuva. Hoje estamos incentivando irrigação e novas atividades que aumentam a renda do produtor.

Além de fortalecer a produção, o programa também busca estimular a permanência de jovens no campo, com novas oportunidades em atividades como apicultura e fruticultura.
Para o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, subsídios diretamente nos juros, como é o caso do programa de Porto Xavier, podem ser mais eficazes do que descontos aplicados apenas nas últimas parcelas de financiamentos. Conforme o dirigente, porque quanto mais cedo ocorre a redução da taxa, menor será o custo total do investimento.
— O produtor olha para o valor da parcela. Se ela é muito alta no começo, o investimento simplesmente não fecha — explicou ainda o economista.
Municipalismo no centro do debate
O presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Sérgio Peres, destacou que o municipalismo, tema que norteará os trabalhos do parlamento gaúcho neste ano, parte da seguinte premissa:
— O produtor está lá, a produção está lá, e é lá que os problemas aparecem primeiro. Por isso os esforços e os recursos das políticas públicas precisam chegar aos municípios.

Segundo ele, prefeitos frequentemente apontam duas demandas prioritárias: melhorias na área da saúde, com equipamentos para exames especializados, e infraestrutura rural, especialmente estradas para escoamento da produção.
Para Da Luz, o debate sobre municipalismo passa inevitavelmente pela economia do agro. Segundo ele, a base produtiva dos municípios, especialmente a agricultura, é o que desencadeia toda a cadeia de desenvolvimento local.
— A economia começa com aquilo que o município produz. A partir daí surgem agroindústrias, transporte, comércio e serviços. Quando uma estiagem quebra a safra, essa roda econômica para de girar — explicou o economista-chefe da Farsul.
O dirigente lembrou também que as perdas climáticas recentes no Estado têm efeitos prolongados, afetando não apenas os produtores, mas toda a dinâmica econômica das cidades. Além disso, alertou para a saída de pessoas, principalmente jovens, de regiões agrícolas que enfrentam dificuldades produtivas recorrentes.
A importância da agricultura familiar para a vitalidade econômica dos municípios também foi destacada no painel. Presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Eugênio Zanetti salientou que, embora ocupe cerca de 25% das áreas agrícolas, o segmento responde por aproximadamente 40% do valor bruto da produção agropecuária do Estado.
Zanetti ressaltou ainda que feiras e eventos do setor têm funcionado como vitrines para agroindústrias familiares, que agregam valor à produção e incentivam a permanência das novas gerações no campo.
O painel foi uma realização da Assembleia Legislativa em parceria com o Grupo RBS e discutiu como os municípios têm se tornado peças-chave na articulação de políticas públicas, infraestrutura e apoio à produção agropecuária no Rio Grande do Sul.



