A notícia de que Nicolás Maduro fora capturado junto com a esposa, Cilia Flores, em meio a uma operação militar norte-americana que incluiu bombardeios em Caracas e em outras regiões do país, chegou ao conhecimento de uma venezuelana que vive em Porto Alegre, pelo celular. A costureira Yaritza Del Valle Idrogo Gomez, 51 anos, recebeu uma ligação da mãe cedinho da manhã de sábado (3). Por um momento, ela chegou a duvidar que fosse verdade.
Longe do país de origem há sete anos, Yaritza optou por não ter televisão em casa e evita fazer comentários sobre o contexto político venezuelano com os familiares. Evita, a própósito, falar com quem quer que seja.
— Quando minha mãe fala sobre isso, é por chamada de vídeo. Não falamos porque pode ser que alguém da polícia ou do governo pegue o telefone dela e veja. Aí, não sei o que pode acontecer — conta.
A confirmação de que Maduro tinha realmente sido "pego pelos Estados Unidos" foi confirmada por um dos filhos, que vive em Roraima. Ele mandou imagens de sites com a notícia que repercutiu em todo o mundo, mas que impactou diretamente os venezuelanos pelo cenário de tensão e incerteza.
Saudade, mas sem planos de voltar
Yaritza chegou ao Brasil em 2018 acompanhada dos três filhos mais novos. Os outros já estavam no país e foram vindo no decorrer dos anos. "Mãe e pai" ao mesmo tempo, como ela refere, se vira para o sustento familiar. Mora em uma casa no bairro Sarandi, zona norte da Capital gaúcha. Foi atingida pela enchente de maio de 2024, mas, mais uma vez, resistiu.
Hoje, quando fala do país de origem, é saudosa e enumera elogios. Saúde e educação gratuitas, um lugar de gente amável, praias com mar cristalino e rico em minerais. Ela cita ouro e diamante. Contudo, para lá, não pretende mais voltar. É que a vinda para o Brasil foi a última tentativa de escapar de uma história que Yaritza não queria presenciar:
Cresci como uma princesa. Estudei e meu pai nos ensinou muita coisa. Nunca faltou uma fruta. Vivi uma época em que não pagávamos pelas bombonas de gás. Mas a história mudou. Víamos faltar comida nas prateleiras do mercado. A cesta básica que o governo repassava era da pior qualidade, de abrir um saco de arroz e ter larva.
YARITZA DEL VALLE IDROGO GOMEZ
Venezuelana que vive no Brasil desde 2018
Yaritza deixou a própria casa na cidade onde nasceu — Maturin, no Estado de Monagas. O pedido que ela fez à família foi para que plantasse grandes árvores e bananeiras no pátio da frente para que ninguém soubesse que ali estava erguido um imóvel. O objetivo era evitar saques ou invasões. Receio não à toa para quem já presenciou a barbárie diante da fome alheia. Um homem roubou e matou a cachorra da família para comer. Um tio levou dois tiros porque advertiu um jovem que tirava o aipim da terra antes que estivesse amadurecido.

Descrença eleitoral
A costureira afirma nunca ter votado, mas diz que trabalhou por um ano na campanha eleitoral de um deputado chavista. Ele "fez promessas e não cumpriu". Yaritza viu diversos políticos terem a mesma postura dele.
Na Venezuela, o voto não é obrigatório, mas a maior parte da família de Yaritza sempre foi alinhada e garantiu votos a Hugo Chavéz e ao sucessor Nicolás Maduro. Atualmente, com o país em ebulição e com um cenário que marca um dos capítulos mais emblemáticos da história nas américas, a costureira insiste em manter a discrição.
— Procuro não falar de política. Para quê? As pessoas nem podem escolher quem eleger. Eu entrego para Deus e acredito na Justiça divina. O que eu mais quero é que a Venezuela tenha paz.
Expectativa pelo reencontro familiar
Episódios traumáticos e privação de direitos fundamentais obrigaram Gabriel Gerardo Lizarraga, hoje com 33 anos, a deixar a Venezuela. A vontade de voltar e reencontrar a família já dura sete anos. Desde que saiu, a primeira esperança em retornar ao país chegou na madrugada do último sábado.
— Eu estava dormindo. Quando olhei meu telefone, vi muitas chamadas da minha família. Fiquei sabendo que Maduro foi capturado. Não foi uma felicidade porque sei que muitas pessoas foram afetadas pelo bombardeio, mas, para mim, foi uma esperança de recomeço, de conseguir voltar para o país que me deu o que eu sou hoje – conta.
Formando em Direito no país onde nasceu, nunca conseguiu exercer a profissão. Em 2019, deixou a cidade de Valencia, no Estado de Carabobo, para tentar uma vida melhor na Colômbia. Sem políticas de acolhimento para migrantes, trabalhou como vendedor ambulante. Em 2022, uma amiga brasileira falou das condições do país. Lizarraga se interessou e chegou no mesmo ano, sendo encaminhado pela Operação Acolhida (veja abaixo).
Atualmente, vive em um apartamento em Canoas, na Região Metropolitana, que divide com outras cinco pessoas: um amigo, uma amiga e os três filhos dela. O cotidiano é distante do que já teve de enfrentar em outras cidades e fases da vida, seja o trabalho informal, a xenofobia, o preconceito e as dificuldades financeiras.

A última ocupação de Lizarraga foi como analista social atuando em um projeto de acolhimento a migrantes, na Unisinos, em São Leopoldo. Paralelamente, criou e preside a Associação de Venezuelanos de Mato Grande, uma alusão ao bairro canoense. A entidade é formalizada desde julho do ano passado e tem centenas de associados.
Direitos humanos à frente dos econômicos
A operadora de caixa Charity Padilla, 38 anos, e Frankilis Pazos, 39, consultor de TI, integram a associação e acompanham Lizarraga nas batalhas pessoais e coletivas.
É assim que o trio ameniza a saudade de casa. São encontros, algumas comidas típicas feitas no dia a dia, visitas frequentes, além dos mapas e bandeiras que decoram o lar.
— Muitos venezuelanos querem voltar e ficar com a família porque ninguém saiu da Venezuela porque quis. Sempre teve um motivo, seja por política, por fome, por saúde, mas com esperança de poder voltar e recomeçar. Eu quero — afirma.
A preocupação sobre o futuro, ainda indefinido, do seu país, não é ignorada, mas há outros aspectos mais urgentes e importantes, segundo Lizarraga:
As pessoas ficam preocupadas com o petróleo, com os Estados Unidos se apropriando. Eu falo que primeiro vêm os direitos humanos. Nos violaram todos os direitos na Venezuela. Eu nunca me preocupei com petróleo porque eu nunca vi ele no meu país, durante 27 anos em que morei. Não tem gás, não tem gasolina, não tem asfalto. Então, cadê o petróleo?
GABRIEL GERARDO LIZARRAGA
Venezuelano que mora em Porto Alegre
Ataque à Venezuela
RS é o terceiro Estado que mais recebe migrantes
Yaritza, Gabriel, Frankilis e Charity são parte da estatística que faz com que o Rio Grande do Sul seja o terceiro Estado do país que mais recebe migrantes por meio do programa de interiorização da Operação Acolhida, ficando atrás do Paraná e de São Paulo. A ação, que começou em fevereiro de 2018, é uma força-tarefa civil e militar que garante acolhimento humanitário, organização da fronteira e realocação voluntária de migrantes venezuelanos para várias regiões do Brasil. No território gaúcho, foram 10.889 pessoas venezuelanas entre abril de 2018 e maio de 2022, conforme informado pela Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH).
Segundo a Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS) com base em dados do Caged, em novembro de 2025, o Rio Grande do Sul teve 6.070 migrantes venezuelanos com vínculo em empregos formais. O setor que mais empregou foi a indústria, seguida de serviços e comércio.
Iniciativas em nível municipal e estadual ainda engatinham em legislações voltadas ao público migrante. A SJCDH informou que, em dezembro de 2025, a Assembleia Legislativa do RS aprovou o Projeto de Lei nº 473/2025, que institui a Política Estadual para Migrantes e cria o Conselho Estadual de Migração. O objetivo é qualificar a estrutura de atendimento para essas populações.
Em razão dos fatos recentes envolvendo a Venezuela no cenário internacional, a pasta informou que estará reunida nos próximos dias com o comitê e parceiros, como a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e Acnur, para análise da situação envolvendo a população migrante.
Em Porto Alegre
Conforme Mario Jaime Fuentes Barba, coordenador Comitê Municipal de Atenção aos Imigrantes, Refugiados, Apátridas e Vítimas do Tráfico de Pessoas da Prefeitura de Porto Alegre (Comirat-POA), a última atualização sobre o número de venezuelanos na Capital gaúcha é 3.354. Já o número de famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) é 1.613.
O município tem legislação recente no que diz respeito ao acolhimento de migrantes. A Política Municipal para o Imigrante foi instituída no dia 4 de julho de 2023 e contemplada na Lei 13.527. Até então, seguia exclusivamente a lei federal 13.445/2017, conhecida como a Nova Lei de Migração. Essa, marco legal brasileiro que substituiu o antigo Estatuto do Estrangeiro, alinhando a política migratória brasileira aos direitos humanos e à Constituição Federal.











