
A presença de abelhas e marimbondos em áreas urbanas aumentou no Rio Grande do Sul. Em 2025, o número de vezes em que os bombeiros gaúchos foram acionados para casos envolvendo os insetos aumentou 71% em relação ao ano anterior. Essa crescente, segundo especialistas, se deve a questões climáticas.
O total de registros por ano saltou de 8.241 em 2024 para 14.118 no ano passado. Em média, foram 38 casos por dia em 2025 — esta média diária era de 22 no ano anterior. Dados desde 2022 mostram que o número não vinha numa crescente, destacando a variação do ano passado como fora da curva (veja abaixo).
De acordo com Rafael Meirelles, professor do curso de Agronomia da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), o inverno do ano passado, com temperaturas baixas mais constantes, favoreceu os insetos e as flores. Isso porque ambos sofrem influência do calor, e a oscilação de clima durante a estação mais fria do ano acaba encurtando e interrompendo o desenvolvimento.
Além disso, a maior presença de abelhas e marimbondos nas áreas urbanas tem relação com o desmatamento e a monocultura em áreas rurais. Meirelles explica que o número menor de árvores diminui os locais para acomodar as colmeias e cachopas, no caso dos marimbondos, e que o plantio de só um tipo de produto nas lavouras concentra a disponibilidade de alimento para uma única época do ano.
— O meio rural está se tornando insalubre para elas, muito agrotóxico, muito desmatamento. Então, elas vêm para a área urbana e começam a se adaptar. Fazem (ninho) em caixa de luz, dentro de parede, forro de casa, nesses lugares. E na área urbana tu tens resto de refrigerante no lixo, plantas que dão florada o ano todo, porque as pessoas cuidam dos seus jardins, então elas têm alimento disponível. Por isso que tem aumentado muito o número de abelhas nas áreas urbanas — detalha Meirelles.
Além disso, os bombeiros avaliam que as enchentes recentes no Estado contribuíram para o aumento dos ataques de abelhas, porque forçaram enxames a migrarem.
Os dados de 2025 deixam clara a influência do calor na movimentação das abelhas e marimbondos. Os meses em que os bombeiros mais foram acionados correspondem as estações mais quentes do ano (veja no gráfico abaixo).
Casos repercutem

O número alto de casos em que os bombeiros são acionados por causa de abelhas se mantém neste começo de 2026. Em janeiro, até o dia 12, foram 851 ocorrências. A média é de 70 a cada dia. Para fins de comparação, no mesmo mês do ano passado, considerando os 31 dias, a média diária foi de 53 casos.
Algumas situações recentes chamaram a atenção pela gravidade. Na semana passada, em Gentil, no norte do Estado, um cavalo morreu e uma família ficou sem conseguir sair de casa devido a um ataque de abelhas. Também foi registrada a morte de uma pessoa, um acidente de trânsito e, no final de dezembro, o resgate de um cachorro que foi alvo dos insetos.
Apesar disso, Meirelles e o gerente da Associação Gaúcha de Apicultores (AGA), Rodrigo Tariga Farias, ponderam que na maior parte das vezes, a presença dos insetos não é uma ameaça para as pessoas. Ambos explicam que as abelhas atacam somente quando se sentem ameaçadas.
— Ataques ocorrem por fatores de agressão das pessoas que querem espantar, por defesa da colmeia ou por acidente, quando colidimos com elas. Somos muito grandes aos olhos de uma abelha. Se ela estiver voando e não conseguir desviar, porque estamos caminhando ou correndo, vai acabar batendo em nós e provavelmente vai ferroar — relata Farias.
O que fazer diante de um enxame
Em caso de ataque de abelhas, a recomendação é:
- Se afastar o máximo possível da colmeia
- Buscar abrigo
- Proteger rosto, pescoço e nuca
Estratégias que envolvem água não são tão eficazes, pois evitam apenas o ataque dos insetos que ainda estão voando. Caso a abelha ou marimbondo já tiver pousado, molhar não fara diferença ou impedirá a ferroada de acontecer.
Quando não há uma colmeia por perto, mas há um grande grupo de abelhas reunidas em um local, isso é chamado de enxameação, que é quando elas estão em processo de migração, em busca de um novo lar. Este deslocamento é orientado pelo sol e não é feito durante a noite, por isso as pessoas podem se surpreender ao encontrar o enxame parado.
— Elas estacionam de dia e podem ficar a noite no local. Normalmente a chegada ou saída vai estar de acordo com o sol. Como estamos no verão, elas podem chegar ou sair por volta das 9 horas até as 16h — explica o gerente da AGA.
É comum os bombeiros serem acionados para situações em que as abelhas estão em migração. Conforme o capitão Thiago Bona, do 1º Batalhão do CBMRS, nestes casos, se o inseto não oferece risco para os moradores, eles apenas isolam a área e orientam que a pessoa entre em contato com um apicultor.
No caso de Gentil, os insetos tinham construído uma colmeia sob um barril e os bombeiros precisaram exterminar o enxame, já que não havia contato de apicultores no município e as abelhas estavam muito agressivas.
— Sempre orientamos a contratar um profissional que trabalhe com esse tipo de animal para que ele faça a remoção corretamente, até por uma questão de que as abelhas são importantes para o meio ambiente, principalmente para a polinização. O extermínio a gente só faz em último do caso, quando não há uma alternativa — detalha Bona.
Atualmente, não existe um serviço público de remoção de colmeias ou cachopas. É preciso contratar um apicultor para que ele vá até o local, retire os insetos e faça o transporte para área rural ou de mata.
— Dificilmente as remoções ocorrem com o apicultor com os dois pés no chão. Normalmente ele vai precisar estar elevado com escada, andaime ou pendurado de rapel, e aí entra curso de Norma Regulamentadora (NR) e uma pessoa extra para realizar o serviço — explica Farias.
Para o trabalho são necessários equipamentos e roupas adequadas — que variam caso seja abelha ou marimbondo. Além de cursos e preparo, o profissional também tem o custo do combustível para levar os insetos para longe, comenta o gerente da AGA.
A depender da situação, de onde o enxame está alojado e do material necessário para o processo de retirada, esse tipo de trabalho pode custar de R$ 300 a R$ 1,5 mil.





