
Apontado como o combustível do futuro, o hidrogênio verde (H2V) caminha para se tornar um importante recurso energético até 2050 – inclusive no Rio Grande do Sul. O Estado acelera o desenvolvimento de um ecossistema focado na molécula, transformando projetos embrionários na próxima fronteira da energia limpa.
Determinado a estimular projetos para substituir o uso de combustíveis fósseis, o governo do Estado, por meio do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva de Hidrogênio Verde (H2V) no Rio Grande do Sul, lançou um edital que tem como objetivo financiar iniciativas para a produção de hidrogênio limpo.
O programa vai destinar um total de R$ 102,5 milhões para financiar projetos no setor. As empresas selecionadas poderão receber até R$ 30 milhões cada, sem a necessidade de reembolsar o Estado, desde que garantam uma contrapartida mínima de 30% do valor do projeto.
O resultado do edital foi anunciado em novembro do ano passado pelo governador Eduardo Leite.
Secretária do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado, Marjorie Kauffmann relembra que os estudos na área começaram em 2019, buscando conhecer a matriz energética gaúcha. Foi quando se entendeu que o Rio Grande do Sul já mantinha uma fatia farta da geração de energia limpa, o que é princípio básico para expansão em outras frentes, como o desenvolvimento da cadeia do hidrogênio. Mas foi uma pesquisa posterior, que detectou o potencial do Estado para o consumo também interno do combustível, que agregou ares de vanguarda às iniciativas culminadas no edital:
— Ali nós começamos a nos diferenciar. Há outros Estados da região Nordeste que têm projetos de geração de hidrogênio verde, mas única e exclusivamente para exportação, e não para o consumo interno. Esse foi o primeiro ponto que chamou a atenção de todos para o Rio Grande do Sul. O Estado se colocou na vanguarda do hidrogênio verde — diz a secretária.

Diversificação energética
De Passo Fundo, no Norte, a gigante Be8, uma das contempladas pelo edital lidera a iniciativa de produção. Consolidada no ramo dos biocombustíveis com a fabricação de biodiesel e etanol, a companhia agora acelera a rota, de forma silenciosa, rumo ao hidrogênio verde num projeto considerado ambicioso pelo diretor de Transição Energética e Relações Institucionais da Be8, Camilo Adas.
O investimento será de R$ 38,7 milhões. Com a obra e o aporte, Passo Fundo deve ter o primeiro posto de abastecimento de hidrogênio verde para caminhões pesados no Brasil, com produção própria da molécula a partir de 2027. O projeto será implantado na mesma área em que já está sendo erguida a nova fábrica de etanol da empresa.
— Podemos, sem qualquer exagero, dizer que a Be8 é extremamente inovadora. É a empresa de maior market share de biodiesel. Chegamos no hidrogênio e nesses dois anos (de projeto piloto) vamos estudar a viabilidade macroeconômica da molécula na cadeia produtiva de energia — afirma Adas.
Mais do que produzir hidrogênio e exportá-lo como commodity, o diretor diz que o conceito passa por desenvolver uma indústria do setor, fazendo com que a produção e o consumo do combustível estejam interligados em um ecossistema.
Embora já existam unidades em circulação no mundo, o uso do hidrogênio como fonte de energia para veículos ainda é restrito devido à rede de abastecimento limitada e aos custos envolvidos. Este é um dos gargalos que a Be8 deve superar com o terminal.
O objetivo é testar o desempenho, os custos e a viabilidade do combustível como alternativa ao diesel. Segundo a Be8, o projeto tem potencial de evitar a emissão de quase 400 toneladas de gases poluentes por ano.
Os demais projetos contemplados pelo edital também priorizam, de alguma forma, a eliminação ou a redução das emissões de carbono no transporte. Na Serra, a Tramontina vai abastecer máquinas empilhadeiras com hidrogênio verde e com isso estima reduzir a emissão de CO2 em 4 mil toneladas até 2028.
Em Vacaria, nos Campos de Cima da Serra, o projeto da Rodoplast Indústria e Comércio de Componentes Plásticos prevê aplicar o combustível gerado por pirólise (uma técnica de produção de energia renovável a partir de matéria orgânica) no abastecimento de caminhões de coleta de resíduos urbanos movidos a hidrogênio. Já em Candiota, a proposta da Âmbar Sul é substituir o hidrogênio cinza por hidrogênio verde no arrefecimento industrial da Usina Termelétrica Candiota III.
Descarbonização do futuro
Presidente do Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), Daniela Cardeal lembra que o hidrogênio verde não é uma fonte primária de energia, e sim um vetor energético, já que é formado a partir do uso de outras energias renováveis. Só por esta origem, portanto, já tem papel importante no fomento ao uso e ao desenvolvimento de energias alternativas, como a eólica.
— E aí, é claro que a gente cai sobre os grandes números do Rio Grande do Sul. Temos mais de 100 gigawatts de potencial de eólica onshore (em terra), mais de 80 de offshore (em alto-mar ou a muitos quilômetros da costa), e toda a parte de solar e de hídrica. Diria que uns 200 gigawatts no RS é um número bem possível de energia renovável que poderia ser transformada em capacidade para o hidrogênio verde — diz a diretora sobre a relevância gaúcha no setor.
O Sindienergia vê um cenário “muito positivo e otimista” de descarbonização do Estado quando os projetos de hidrogênio puderem sem implementados em larga escala e com impacto de cadeia, inclusive, no agronegócio. Isso porque a produção da molécula permite a produção de amônia verde, que é utilizada como fertilizante.
— Hoje importamos mais de 90% do fertilizante utilizado no Rio Grande do Sul. Se menos da metade do potencial que temos no mar para geração offshore for utilizado para produzir amônia verde, além de não importar mais, poderemos começar a vender e a distribuir amônia aqui do Rio Grande do Sul — diz Daniela.
Mais do que custo, a entidade vê a falta de uma regulamentação da produção eólica offshore como entrave para a expansão do hidrogênio verde. Segundo Daniela, a média mundial de valor para a produção da molécula é de US$ 6. No RS, estão sendo estimados valores entre US$ 2 e US$ 5, ou seja, abaixo de padrões mundiais.
— O maior entrave que estamos vendo hoje para a produção de hidrogênio verde em larga escala é a falta de um regulatório federal — diz a presidente, lembrando a necessidade das fontes renováveis para a geração do combustível verde.
Ainda que sobre espaço para avanços, o RS já está entre os Estados que mais mostra vocação quanto à geração de energia limpa. Os projetos relacionados ao hidrogênio verde têm grande potencial, mas são planos de futuro e precisam começar.
— Sabemos que ainda vai um tempo longo de implementação até que, de fato, o hidrogênio verde seja um combustível comum aos gaúchos. Mas para que se possa desenvolver, temos primeiro que ter viabilidade econômica, e os estudos apontam isso. É o que o Rio Grande do Sul tem olhado e é o que vai trazer um impacto no todo da descarbonização — acrescenta a secretária de Meio Ambiente, Marjorie Kauffmann.
O que é hidrogênio verde?
- É como se chama o hidrogênio produzido por uma energia renovável.
- Uma das formas de produzi-lo é a partir da eletrólise, processo que utiliza a corrente elétrica para separar a água em hidrogênio e oxigênio.
- A eletrólise demanda alta quantidade de energia elétrica. Por isso, é essencial que a fonte dessa energia seja limpa e renovável, como solar, hídrica ou eólica.
- Também é possível obter hidrogênio de baixo carbono pelo processo de pirólise, que é a obtenção de energia renovável pela queima de matéria orgânica, sem a presença de oxigênio.
- Para o hidrogênio ser verde, a fonte de eletricidade utilizada na sua produção precisa ser limpa, sem emitir CO2.
- O hidrogênio não produz subprodutos prejudiciais durante a combustão, por isso, é considerado mais limpo.
Uso do H2V
- Seu uso pode ter muitas aplicações, como no transporte de cargas, no aquecimento por calefação e na indústria.
- O hidrogênio também pode ser usado para armazenar energia renovável produzida em períodos de alta produção e baixa demanda por energia elétrica.
- Por ser considerado limpo, tem potencial para descarbonizar as emissões, sendo uma alternativa para frear as mudanças do clima.

