
Nem todos os animais que vivem na rua estão desamparados. Mesmo sem um tutor específico, muitos cães e gatos são adotados por comunidades, que dividem entre os seus moradores os cuidados com os bichos. Essa guarda compartilhada é reconhecida por lei desde 2019 no Rio Grande do Sul e, em Porto Alegre, recebe apoio da prefeitura.
A situação de cães comunitários ganhou as manchetes, nos últimos dias, em razão de casos de violência. Em Santa Catarina, a morte do cachorro Orelha mobilizou protestos. No RS, o cão Negão foi atingido por um tiro disparado por um policial militar e agora é tratado por um veterinário.
Em comum, os animais tinham o perfil de mascote informal dos bairros onde viviam.
Esse é o caso do cão Sorriso, das cachorras Pretinha, Preta, Nala e da dupla de cadelas, Brits. Os seis são alguns dos diversos animais comunitários que vivem pelas ruas dos bairros Mário Quintana e Jardim Leopoldina, na zona norte de Porto Alegre.
Quem circula pela região encontra com facilidade casinhas com potes de água e ração instaladas nas calçadas. E, se tiver sorte, também consegue se deparar com os animais que vivem andando pelas ruas, descansando suas patinhas dentro de algum desses abrigos.
Preta, por exemplo, foi acolhida pelos moradores da Rua Professora Zilah Totta. Debilitada, ela surpreendeu o casal Jardel da Silva e Kelle dos Santos. Eles encontraram o animal deitado no pátio de casa em uma manhã de novembro de 2025.
— Ela tinha tanto bicho nela, que chegava a ser fedida. Tinha na traseira e na lateral. A gente medicou, e saíram bichos enormes. Onde tinha aquela bicheira, caiu todo o pelo. Demos um banho nela e logo depois ficamos sabendo dessa função de cadastrar na prefeitura — relembra Jardel.
Preta, que vive solta e gosta de brincar com as crianças do condomínio ao lado, não apareceu durante a visita de Zero Hora ao local para poder posar para uma foto e ilustrar esta reportagem. Ela é um dos 15 animais cadastrados como comunitários junto ao Gabinete da Causa Animal (GCA) do município.
— A partir do momento em que o animal é cadastrado, a gente tem no nosso sistema todas as informações dele, o que aconteceu com ele. A parte da saúde é registrada. Ele vai ser microchipado, vai ser identificado, o que é algo bem importante para os animais que circulam nas ruas, castrado e vacinado — explica a responsável pelo gabinete, Tatiana Guerra.

Formulário online
Entre os animais cadastrados, oito são gatos e sete são cachorros. A secretária-executiva do GCA comenta que a maioria já recebeu a castração e foi microchipada. Apenas os registros mais recentes no sistema é que ainda aguardam atendimento.
O cadastro é feito por meio de um formulário online, onde são exigidas algumas informações básicas como espécie (cão ou gato), características físicas e idade aproximada do animal. Além disso, é preciso fornecer a região em que ele circula e o nome de um representante da comunidade, para fins de contato com a prefeitura.
O processo é simples e costuma receber uma resposta rápida do gabinete. De acordo com Jardel e Kelle, em menos de um mês após o cadastro, a cadelinha Preta já tinha recebido uma visita e passado pela castração.
— Foi bem rápido. Vieram duas veterinárias, deram todas as vacinas, medicaram. Naquele dia mesmo, eles deram encaminhamento para a castração. Daí a gente levou, e foi tudo certinho — relembra o morador.
O animal que é cadastrado como comunitário também tem direito ao auxílio da prefeitura em questões emergenciais, como cirurgias em casos de atropelamento. A comunidade também pode requisitar apoio com a alimentação, por meio do Banco de Ração.
— A gente presta assistência, mas quem nos provoca tem que ser o responsável pelo animal comunitário. Esse responsável vai estar com a carteirinha de vacina e qualquer alteração com esse animal, que ele precise de atendimento de veterinário, que a carteira está desatualizada, esse responsável vai nos informar — explica Tatiana.
Conforme o GAC, o cadastro é importante porque ajuda no planejamento das políticas públicas e a monitorar o bem-estar desses animais. No último censo, realizado em 2023, Porto Alegre tinha 21.355 cães e 11.261 gatos vivendo nas ruas.
— Todo animal comunitário é um animal de rua, só que o de rua não é amparado por nenhuma pessoa. O animal comunitário é amparado por uma comunidade que vai se nomear como tutora dele. E eu acho que só quem tem um animal de estimação sabe o benefício que é tê-lo próximo, né? — explica a secretária-executiva do GAC.
O cadastro, conta Tatiana, é um estímulo para que cães e gatos de rua consigam ter alguém que olhe por eles, além da prefeitura. É para que a comunidade do local onde ele vive faça o seu acolhimento.
Baixa adesão
Apesar de o cadastramento existir desde 2019, a política ainda não é muito conhecida pela população. No caso da Zona Norte, com exceção da Preta, os demais cães comunitários encontrados nas ruas adjacentes não tinham registro com a prefeitura.
As cadelas Brits, uma com pelagem cor de caramelo e outra de pelos marrons e brancos, junto com a Nala, que não tem raça definida, dominam a Rua Adão de Campos Torres. O trio apareceu ainda filhote, vive há pelo menos cinco anos no local e recebe os cuidados de duas famílias.
— A gente diz que são "as gangues". Aqui é só fêmea e ali embaixo, na outra rua, tem macho também. Elas sempre ficam por aqui, mas passeiam, brincam com as outras. Quando está muito calor, eu boto elas para dentro do pátio para ficarem na sombra. A gente cuida delas assim, mas elas têm a liberdade delas — comenta a dona de casa, Thayse Correa.
Questionada se as cadelas estavam cadastradas no sistema da prefeitura, a tutora disse que não conhecia o programa. Thayse revelou que foi com apoio de ONGs que conseguiu castrar todas as três, mas que tentaria buscar mais informações sobre o registro com o município.
Os animais comunitários também encontram amparo em empresas, comércios e condomínios. Esse é o caso da dupla Sorriso, que tem apenas três patas, e Pretinha, que é bem arisca e, o nome já diz, tem pelagem preta. Elas foram acolhidas pelos funcionários de uma distribuidora de pneus que se instalou na região há 11 anos. Quatro casinhas de cachorro foram montadas ao lado da firma.
Conforme Enio Markowski, que trabalha no local, diversos animais já foram abandonados nas proximidades. Teve período em que mais de 15 cachorros viviam soltos por ali e recebiam atenção dos funcionários da empresa.
— É tudo conosco. Tem ração que a gente compra. Eu, às vezes, trago uma comida de casa para elas. Às vezes, eles não comem, estão chatinhos. Água todos os dias, duas vezes por dia a gente troca. Fica cuidando — revela Markowski.
A empresa também ajuda financeiramente nos cuidados com os cães. Tanto Pretinha quanto Sorriso já foram castrados, mas também não estão registrados como animais comunitários junto à prefeitura.




