
O incêndio que atingiu um bar em uma estação de esqui na Suíça e deixou mais de 40 pessoas mortas reacendeu alertas sobre o uso de artefatos pirotécnicos em ambientes fechados, como lembra a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).
Para a entidade, as informações iniciais do caso europeu indicam a repetição de fatores já observados em grandes incêndios desse tipo, como foi o da Boate Kiss, em 2013, na região Central.
— A causa é muito semelhante. Artefatos luminosos, velas e material inflamável. Sempre tem um estopim, que foi o que aconteceu na Kiss e em tantas outras tragédias, infelizmente — afirmou o diretor jurídico da associação, Paulo Carvalho.
O fogo começou por volta de 1h30min da quinta-feira (1º), no horário local, durante uma festa de Ano-Novo no bar Le Constellation, localizado na estação de esqui de Crans-Montana, no Cantão de Valais.
Segundo relatos de testemunhas e autoridades suíças, velas do tipo sinalizador colocadas em garrafas de champanhe teriam encostado no teto do estabelecimento, dando início ao incêndio. As chamas se espalharam rapidamente pela espuma do forro, em um fenômeno conhecido como flashover.
Falta de saídas e tumulto
De acordo com Paulo Carvalho, além do uso de artefatos proibidos, informações preliminares também apontam falhas estruturais que contribuíram para o número elevado de vítimas.
— A informação que a gente tem é que não tinha saída de emergência. Aí o atropelo das pessoas tentando sair. Infelizmente, acabam morrendo sufocadas, e o tumulto mata muito mais, às vezes, do que o próprio fogo — disse.
Autoridades suíças informaram que a identificação das vítimas pode levar dias, devido ao estado dos corpos. Até o momento, a única vítima oficialmente identificada é o italiano Emanuele Galeppini, de 16 anos.
O número de feridos chegou a 119, com pacientes encaminhados a hospitais na Suíça e em países vizinhos.

Normas existem, mas seguem sendo descumpridas
Para a associação, o incêndio reforça que o problema não está na ausência de regras, mas no descumprimento sistemático delas.
— Na Suíça, como aqui no Brasil, as normas existem. Não pode ter artefato luminoso, não pode ter velas, não pode ter material inflamável, não pode ter superlotação, tem que ter saída de emergência. Por que as pessoas continuam desrespeitando isso? — questionou Carvalho.
Segundo ele, a repetição de tragédias semelhantes em diferentes países está ligada à falta de punições exemplares.
— O quanto de exemplo essa tragédia poderia ter dado ao mundo se tivesse tido uma punição eficiente, rápida e de todos os envolvidos? Aqui levou-se nove anos para julgar apenas quatro pessoas. Não houve um exemplo ao mundo — afirmou.
A AVTSM informou que elabora uma nota oficial sobre o incêndio na Suíça, que deve ser divulgada nos próximos dias, após o avanço das investigações e a consulta a especialistas em prevenção de incêndios.
"Não são fatalidades imprevisíveis", diz coletivo
Além da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, o incêndio na Suíça também mobilizou o Coletivo Kiss – Que Não Se Repita, formado por familiares e sobreviventes da tragédia ocorrida em 2013, em Santa Maria.
— A gente recebe essa notícia com muita tristeza e com um sentimento de choque. Para quem viveu a Kiss, esse tipo de informação não chega de forma distante. Ela ativa memórias, sensações e dores que a gente conhece muito de perto — afirmou André Polga, fundador do coletivo.
Segundo ele, o principal alerta deixado pelo incêndio é a repetição de um padrão já conhecido em casas noturnas e locais de entretenimento.
— Esses incêndios não são fatalidades imprevisíveis. Eles se repetem porque os riscos são conhecidos, existem protocolos que deveriam ser seguidos, mas muitas vezes a segurança não é tratada como prioridade — disse.
Descuido com a prevenção
A recorrência de tragédias semelhantes em diferentes países reforça que o problema está no descuido com a prevenção.
— O que se repete não é o país, é o padrão. Espaços fechados, uso de pirotecnia, falhas de prevenção, material inflamável, superlotação, ausência de plano de emergência. São vários fatores que aparecem de novo — afirma Polga.
Segundo o coletivo, tragédias desse tipo seguem ocorrendo porque medidas básicas de segurança continuam sendo tratadas como detalhes, e não como uma questão central de proteção à vida.
— A gente sabe que vai acontecer de novo. O que não se sabe é onde, nem quando — conclui.



