
Do pequeno consumidor à grande empresa, a responsabilidade sobre o uso consciente da água passa por ações que vão do micro ao macro cuidado. Nas corporações e atividades de maior porte, pelo grande volume que é utilizado, o reuso do recurso hídrico ganha atenção não só pelo apelo e urgência ambiental, mas também pela redução de custos que as iniciativas garantem às operações.
Enquanto cresce a necessidade do olhar sustentável aos negócios, consultorias ambientais dedicadas a auxiliar empresas que buscam se adequar aos novos tempos têm conquistado cada vez mais espaço. Da orientação pedagógica à implementação de sistemas, o trabalho conjunto tem reduzido desperdício e ampliado a consciência ambiental.
Com sede em Porto Alegre há 26 anos, a Biota-Geom é uma das empresas que auxilia outras a se destacarem no ramo “verde”. Entre os serviços, a consultoria faz estudos de impacto e assessora em processos de licenciamento ambiental.
Walter Koch, diretor executivo da Biota-Geom, diz que as ações de responsabilidade têm crescido nas empresas, mas que as iniciativas adotadas dependem do tipo de atividade desenvolvida por aquela firma. Uma indústria, por exemplo, utiliza muito mais água do que um pequeno negócio, e há processos específicos que podem ser adotados especialmente neste tipo de operação. Um dos casos é o reuso da chamada água cinza, utilizada em lavatórios, que pode ser reaproveitada em sistemas de resfriamento da linha fabril.
— O ponto de partida é conhecer o empreendimento onde o projeto será aplicado, para então estudar o seu dimensionamento. É preciso saber se a água vai precisar ser tratada, como ela será armazenada, e como serão mapeadas as redes para então implementar os sistemas. São soluções que, para além do ambiental, reduzem custo — diz Koch sobre a formatação dos projetos relacionados à água.
Em geral, diz o diretor, as medidas possíveis de serem adotadas são iniciativas simples. Basta ter entendimento da necessidade de se gerir o recurso hídrico da melhor forma possível. Apesar disso, a demanda para a implantação de projetos com esse viés ainda é baixa. Mesmo o tema sendo atual e urgente, o planejamento do recurso hídrico ainda não é frequente na concepção dos novos projetos. Para o diretor, é preciso avançar na ideia do reuso da água ainda no desenho dos empreendimentos para não ter que se fazer obra posterior, o que exige investimento e espaço para tal.
— A água pode ter materialidade na empresa. Sem água, a empresa não funciona, então vamos tentar reaproveitar para não depender tanto da água externa que porventura venha a faltar — diz o diretor executivo da Biota-Geom.
Bacias de amortecimento têm sido instaladas com maior frequência nas cidades para escoar água e evitar alagamentos. A mesma estratégia pode ser utilizada em condomínios e empresas para reservar a água da chuva. Reservatórios verticais, cisternas, telhados verdes ou mesmo piso para captar a água que escoa são outras opções possíveis.
Desperdício zero
No transporte público de Porto Alegre, é da lavagem dos ônibus que surge uma iniciativa de uso consciente da água. Desde 2010, a Transporte Coletivos Trevo vem reutilizando toda a água despendida para lavar os 196 carros da frota. A empresa opera o consórcio Viva Sul, que atende linhas na zona sul da Capital.
São 35 mil litros de água por dia que deixam de ser retirados da rede pública de abastecimento. Coletando água da chuva, a empresa a armazena e a trata em sua própria estação de tratamento (ETA). Tudo o que escorre pelas canaletas do piso da garagem retorna para os tanques, onde produtos biodegradáveis se encarregam do processamento. De lá, retornam para as caixas e recomeçam o ciclo.
Todas as noites, as quase duas centenas de veículos se enfileiram para receber a lavagem. Os coletivos saem limpos da máquina rápida automatizada com sensores, prontos para reiniciarem as rotas no dia seguinte.
— Começamos com menos caixas e fomos ampliando a quantidade e o reuso. Temos 20 caixas d’água, de 20 mil litros cada, que captam água da chuva. Hoje, é zero o descarte de água na lavagem — celebra o gerente geral da Transportes Coletivos Trevo, Rafael de Camargo Marques.
Os processos foram implementados com ajuda da consultoria ambiental. Outras iniciativas, como o descarte correto do lodo que sobra da água tratada, e a separação dos demais resíduos, cumprem uma série de requisitos sustentáveis que garante à empresa uma licença operacional ambiental pelo trabalho que é feito.
O empenho verde, diz o gerente, serve de exemplo para outras empresas do ramo:
— As empresas nos procuram, olham, e se interessam para implementar também — diz Marques.
Responsabilidade ambiental

Em posição diferente do pequeno consumidor no que se refere à quantidade de água que utilizam, as grandes empresas têm responsabilidade ambiental proporcional ao volume de recurso que consomem. Por isso, as ações de baixo impacto viabilizadas por grandes companhias têm reflexos que se estendem à sociedade como um todo. E o investimento em tecnologia, neste caso, é um aliado das boas práticas.
Com o auxílio da telemetria, uma tecnologia de medição remota de dados, a Corsan/Aegea vem monitorando, desde 2023, a rede abastecida pela concessionária. A companhia é responsável pelo fornecimento de água e esgoto a 317 municípios gaúchos. A ferramenta permite a gestão de perdas e de eventuais vazamentos que surgem no percurso da água até o cliente, evitando o desperdício.
Nos últimos meses, o trabalho vem sendo ampliado como projeto-piloto para grandes clientes da companhia, como indústrias, redes de hotéis, empresas e restaurantes. O objetivo, explica a gerente executiva de grandes clientes da Aegea, Giselle Dias, é manter a segurança hídrica do sistema como um todo, garantindo o abastecimento pleno.
— Os clientes buscam segurança hídrica, pois utilizam muita água, e precisamos garantir o abastecimento de forma regular. É fazer a gestão do sistema para que não impacte no todo, no grande cliente e no cliente que está ao redor dele — diz Giselle.
O trabalho consiste em controlar a vazão e o volume de determinados pontos no sistema de rede, dando uma visão do abastecimento geral. No monitoramento aos clientes, um aparelho de telemetria é acoplado no hidrômetro da empresa, permitindo verificar os parâmetros. Em caso de alterações, alarmes são acionados na central da concessionária, indicando os pontos a serem corrigidos.
Segundo a Aegea, o trabalho conjunto com as empresas é uma ponte para garantir a qualidade do abastecimento. Da mesma forma que incentiva a gestão hídrica, a companhia trabalha para fomentar a qualidade da água. Um selo emitido pela distribuidora reconhece empresas que usam e tratam a água de forma regular, respeitando processos de sustentabilidade.
— Saneamento é trabalho coletivo. A partir do momento que investimos em tecnologia que traz eficiência operacional, isso retroalimenta o sistema como um todo para que cheguemos a populações que antes não atingiríamos. Além de ser uma forma de cumprir o Marco Legal do Saneamento e de atender à saúde pública, é uma maneira de trazer para o cliente a participação de responsabilidade — acrescenta a diretora.
Como reduzir o consumo nas empresas
- Adotar a circularização da água no ciclo produtivo
- Qualificar instalações hidráulicas para reduzir desperdício
- Controlar a vazão das instalações hídricas
- Buscar apoio de consultorias ambientais para desenvolver projetos
- Trabalhar a conscientização junto aos colaboradores
- Recuperar regiões próximas dos mananciais que geram água



