
Medellín, na Colômbia, é hoje um case de estudo global, reverenciada por sua transformção de uma cidade marcada pela violência do narcotráfico nos anos 80 e 90 para um polo de inovação social e empreendedorismo.
Em entrevista ao Gaúcha Atualidade desta sexta-feira (12), Jean Edouard Tromme, especialista no modelo de Medellín, detalha os pilares dessa mudança e aponta o maior desafio para replicar a experiência em outras cidades da América Latina.
Ao ser questionado sobre o que impede que o modelo de Medellín seja adotado em outros lugares, especialmente no Brasil, Tromme é direto: a falta de persistência.
— Acho que a maior dificuldade é a descontinuidade das políticas. Quando você tem continuidade dos esforços os resultados são visíveis. É simples, mas muito difícil. Em Medellín, nenhum dos prefeitos que foram eleitos faz parte dos partidos políticos tradicionais. Nenhum. E nenhum pode ser reeleito. Mas as políticas públicas não mudam.
Tromme explica que a chave reside em uma visão de longo prazo, construída coletivamente. O foco é garantir que o instrumento público, político e privado se concentre na qualidade de vida das pessoas.
Historicamente, as comunidades periféricas de Medellín eram "terra de ninguém", dominadas pelo crime organizado, com a única presença do Estado sendo a força policial. A virada, que demandou cerca de 30 anos, começou com uma estratégia inédita:
— A primeira coisa que foi importante foi dar acesso às periferias para que elas se integrassem à cidade, que não fossem lugares isolados, integrá-las mediante mobilidade pública e depois fazer investimentos importantes em primeira infância, educação, lazer e esporte.
Cuidado com o dinheiro público
Medellín se tornou famosa por soluções criativas, como o uso de teleféricos e escadas rolantes em áreas de difícil acesso nas montanhas. Tromme explica que a inspiração não foi necessariamente a invenção, mas a adaptação de ideias existentes.
— Acho que foram muitas inspirações. A estratégia de intervenção nós trouxemos de Barcelona, mas tropicalizamos ela a nosso jeito. Muitas coisas vieram do Brasil: favela, bairro, o tema de mobilidade de Curitiba, as escolas populares de Paulo Freire. Tudo isso foi inspiração para nós.
A transformação de Medellín exigiu altos investimentos, mas a cidade conseguiu superar o desafio do orçamento de forma criativa. Tromme revela que a cidade buscou gerar a própria riqueza para financiar a ação social.
— Para nós, o dinheiro público é sagrado. Nós fazemos pesquisas sobre cultura cidadã e vemos qual é a vontade das pessoas de pagar os impostos. 98% dos cidadãos de Medellín pagam impostos antes do tempo. Isso demonstra que há uma relação de confiança entre o Estado e o cidadão.
