
Castigadas por tempestades cada vez mais severas, as cidades brasileiras se veem diante de um desafio comum a outros centros urbanos mundo afora: reduzir as emissões de gases poluentes e contribuir para a contenção das mudanças climáticas.
Uma das estratégias para garantir um futuro menos calamitoso envolve a busca por uma mobilidade mais sustentável tanto nos deslocamentos individuais quanto coletivos. Gestores e especialistas afirmam que 2026 deve marcar um ponto de virada na expansão dos veículos elétricos no transporte público do país, mas ressaltam que as soluções devem incluir iniciativas mais amplas como a implementação de outras fontes de energia limpa, a exemplo de biocombustíveis, estímulos à chamada mobilidade ativa (como caminhar e pedalar) e um planejamento urbano que diminua a necessidade de percorrer grandes distâncias.
O Brasil assinou, em novembro, uma declaração que prevê cortar em 25% a demanda de energia do setor de transportes em uma década, e que um terço das fontes utilizadas sejam sustentáveis. A eletrificação da frota de ônibus é, hoje, uma das principais apostas dos municípios brasileiros para derrubar emissões de carbono e atingir metas ambientais. Em Porto Alegre, o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa aponta que o transporte em geral responde por 67% dos lançamentos desses poluentes.
Até agora, porém, a eletrificação avança em marcha mais acelerada entre veículos de passeio do que nos veículos coletivos — as vendas de carros leves movidos por eletricidade saltaram 20% entre janeiro e setembro deste ano em comparação com o mesmo período de 2024 e já superam meio milhão de unidades em circulação no país. Um levantamento da Organização Latino-Americana de Energia (Olade) mostra que os brasileiros lideram o ranking latino-americano de veículos leves elétricos, com uma frota cerca de 2,5 vezes superior à do México.
O cenário muda quando se leva em conta o transporte público. Nesse quesito, o Brasil fica em terceiro lugar na América do Sul (embora seja a nação mais populosa), com 1,3 mil ônibus elétricos, posicionado atrás de Chile e Colômbia (veja detalhes no infográfico). Além disso, cerca de mil unidades estão concentradas na cidade de São Paulo, o que revela um profundo desequilíbrio regional.
Eletrificação do transporte público
A transformação ocorre de maneira mais vagarosa no transporte público por conta de gargalos que precisam ser superados nas cidades brasileiras. Eles incluem:
- Valor dos ônibus elétricos, mais caros do que a diesel
- Planejamento e instalação de rede elétrica mais robusta e de pontos de recarga
- Treinamento e capacitação de pessoal
— Uma das questões que pode estar impedindo a aceleração desse processo é o custo, já que um ônibus elétrico chega a custar três vezes mais do que um convencional. Isso gera resistência para mudar um modelo de negócio que vem de um longo tempo de operação. Não é só mudar o ônibus, é mudar a operação, a manutenção...mas já está demonstrado que compensa — afirma a gerente de Descarbonização do Transporte do WRI Brasil, Magdala Satt Arioli.
O WRI participa de um projeto que vem desenvolvendo um modelo de financiamento voltado diretamente aos operadores privados para facilitar, inicialmente, a compra de 1,7 mil ônibus elétricos — o que mais do que dobraria o universo atual.
— Em um primeiro momento, vai contemplar Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Rio de Janeiro. Depois, a ideia é dar escala e abranger outras cidades — afirma Magdala.
Como o valor de um ônibus elétrico supera os R$ 2 milhões, geralmente é preciso que os municípios busquem algum tipo de financiamento para adquiri-los. Em Porto Alegre, onde há 12 coletivos movidos por energia elétrica, a prefeitura deve colocar mais cem unidades em operação a partir de 2026 — o que vai representar cerca de 10% da frota de 1.161 veículos. Para viabilizar o investimento, a cidade conta com um financiamento federal de R$ 447 milhões que prevê também a instalação de infraestrutura de recarga.
Esse modelo de subvenção econômica vem sendo uma das formas encontradas por capitais como Porto Alegre e São Paulo para dar conta dos valores milionários da substituição da frota. Como são pagos pelos municípios, os veículos são cedidos pelas prefeituras para uso das concessionárias. Em contrapartida, elas respondem pela manutenção e deixam de incluir o custo da desvalorização dos veículos no cálculo da tarifa.
A inclusão dos pontos de recarga no valor a ser financiado ajuda a sanar outro obstáculo: a necessidade de contar com uma rede de abastecimento robusta.
— A rede elétrica talvez seja um dos principais gargalos hoje. Por isso, é preciso ter planejamento. Mas acreditamos que 2026 será um ano de virada (rumo à descarbonização do transporte), de aceleração dos projetos nas grandes cidades — afirma o gerente de Estratégia e Processos Estruturados da empresa Marcopolo, Rodrigo Bisi.
Nos últimos dois, três anos, as grandes cidades brasileiras já vêm testando os ônibus elétricos, avaliando como precificar a tarifa, a média de vida útil, em um período que chamamos de degustação. Agora, é a hora de botar os planos em prática.
RODRIGO BISI
Gerente de Estratégia e Processos Estruturados da Marcopolo
Modelos urbanos em prol da sustentabilidade
O Rio Grande do Sul já conta com a terceira maior rede de recarga para veículos elétricos do país, com 1,4 mil pontos. Porém, pouco mais de 300 são de carga rápida, que exigem menos tempo de abastecimento.
Magdala sustenta que o processo de descarbonização do transporte envolve ainda aumentar a eficiência dos deslocamentos e investir em formas de mobilidade ativa. Essas estratégias incluem modelos urbanísticos que criem zonas urbanas onde é possível realizar as tarefas do dia a dia em deslocamentos a pé ou de bicicleta de poucos minutos, sem necessidade de viagens mais longas.
Porto Alegre: ônibus elétrico e biocombustíveis na mira
A estratégia de descarbonização do transporte na Capital está em estágio mais avançado na incorporação de ônibus elétricos. Além disso, a prefeitura prevê o início de outras iniciativas ao longo dos próximos meses. As novidades incluem o teste de um biocombustível da empresa gaúcha Be8 em parte dos coletivos já em circulação — já que o produto, chamado BeVant, substitui o diesel nos mesmos motores com 99% menos emissões de gases do efeito estufa no escapamento — e tratativas para a instalação experimental de carregadores ultrarrápidos em vias públicas.
Ao longo de um ano de avaliação, as três linhas totalmente elétricas de Porto Alegre (E178 - Praia de Belas, E378 - Integradora e E703 - Vila Farrapos) evitaram o lançamento de 874 toneladas de gases poluentes na atmosfera e geraram uma economia de R$ 1 milhão em combustíveis entre os 12 veículos — entre os quais oito são do modelo Attivi Integral, 100% produzidos pela gaúcha Marcopolo.
— Agora, além de encaminhar a aquisição de mais cem ônibus elétricos, abrimos discussão para testar outros combustíveis renováveis, a exemplo do biometano (gás renovável obtido a partir da decomposição de material orgânico) e do BeVant — revela o secretário de Mobilidade da Capital, Adão Castro Júnior.
Presidente da Be8, Erasmo Battistella afirma que o biocombustível produzido no RS pode ser adotado instantaneamente:
Esse produto pode ser usado em veículos novos ou naqueles que já estão sendo utilizados pela prefeitura. É só substituir o combustível. A gente apenas instala uma unidade de armazenagem e abastecimento.
ERASMO BATTISTELLA
Presidente da Be8
O hidrogênio é outra opção que recentemente começou a ser discutida. Uma empresa, que representa um grupo japonês, se apresentou para encaminhar um projeto destinado a experimentar esse combustível na Capital.
A prefeitura também avalia a possibilidade de autorizar a instalação de carregadores ultrarrápidos para carros elétricos em vias públicas em caráter de teste. Ainda não há acordo firmado ou prazo definido para o início dessa experiência.
— Estamos atuando junto com a Secretaria de Inovação para fazer testes e autorizar empresas que queiram prestar esse serviço. Pedimos projetos a algumas empresas para entender melhor como funcionaria — complementa Adão Castro Júnior.
Iniciativas globais
Cidades como Copenhague, Oslo e Singapura estão redefinindo suas políticas de mobilidade para enfrentar a crise climática e melhorar a qualidade de vida urbana. Tais iniciativas são caracterizadas pela priorização de modais de transporte com baixa emissão de carbono. Isso inclui o investimento maciço em infraestrutura cicloviária, a expansão e eletrificação de sistemas de transporte público de massa (como BRTs e trens) e a criação de zonas de baixa emissão ou áreas restritas a veículos poluentes.





