
Associar a atuação das mulheres a negócios de alto impacto ainda é uma barreira quando se fala em empreendedorismo feminino. Mesmo que o mundo contemporâneo esteja mais atento às questões de equidade, não necessariamente avançamos na velocidade necessária. A avaliação é de Ana Fontes, 59 anos, fundadora da Rede Mulher Empreendedora. A publicitária do interior do Alagoas construiu uma trajetória profissional de destaque no mundo corporativo masculino, atuando por 18 anos na Volkswagen, e é uma referência nas ações de atenção às mulheres.
Desde que foi fundada, há 15 anos, a Rede foi responsável por auxiliar milhares de mulheres na estruturação dos seus próprios negócios. Para a gestora, o caminho ainda é longo, e precisa buscar nas políticas de acesso a capital, como o crédito, a urgência para promover negócios que sejam relevantes na perspectiva delas.
Ana conversou com Zero Hora sobre conquistas e dificuldades do empreendedorismo feminino, e apontou onde é preciso avançar. Confira trechos na entrevista abaixo.
Como você vê o posicionamento das mulheres hoje, em empreendimentos de alto impacto econômico, que tragam inovação. Mulheres têm espaço nesses meios?
É cada vez mais comum, mas ainda temos um caminho longo para ver mulheres liderando negócios de altíssimo impacto. Ainda precisamos falar mais, ter mais mulheres nesses espaços. Vou dar um exemplo no ambiente de startups de altíssimo impacto, as unicórnios, como chamamos: temos nomes como a Cris Junqueira, do Nubank, a Mariana Dias, da Gupy, a Mônica Hauck, da Sólides, a Tatiana da Vittude. Tem várias mulheres nesses ambientes, mas ainda precisamos ter mais nomes para mostrar para todas as mulheres que esse é um território que pertence também a elas. Temos visto bastante mulheres construindo uma jornada para esse caminho, mas essa jornada é muito mais difícil para elas por conta da falta de oportunidade, da falta de crédito, da economia do cuidado, e é isso que temos que trabalhar.
Que dificuldades as mulheres enfrentam nos negócios de grande impacto econômico? Elas conseguem atrair investimentos?
Já participei de bancas de investimento onde as perguntas feitas para as mulheres eram diferentes das perguntas dos homens. As mulheres acabam tendo questões associadas ao universo, especialmente da maternidade, que colocam em xeque a capacidade delas, quando não deveria ser. Mais de 95% dos investidores são homens brancos. Então, normalmente, as pessoas investem em quem elas têm maior identificação. Por isso é importante termos mais investidoras, tanto em investimento-anjo, quanto em VCs (venture capital), em fundos de investimento, e mais mulheres com negócios que tenham capacidade de crescimento de altíssimo impacto. Precisamos conectar esses dois universos para combater os vieses de que nos negócios liderados por mulheres elas não vão ter tempo, ou que as mulheres são menos capazes, o que não é verdade.
Como as empresas podem contribuir mais com os negócios de impacto social?
As empresas podem contribuir mais financiando projetos ou doando recursos. Aqui na Rede Mulher temos cerca de 15 a 20 marcas que circulam fazendo projetos conosco. Marcas que, por exemplo, querem ajudar mulheres de determinado perfil, de determinada região. Essa participação das empresas é fundamental para que negócios sociais como a Rede consigam cada vez mais ajudar as mulheres a conquistarem a autonomia econômico-financeira.
A atuação da Rede Mulher
À frente da Rede Mulher Empreendedora, você ajuda mulheres a formalizarem negócios e a empreenderem por conta própria. Qual a importância de iniciativas como esta?
Na Rede Mulher Empreendedora, que fundei há 15 anos, temos um foco específico que é ajudar as mulheres com autonomia econômico-financeira, seja por meio do empreendedorismo e da empregabilidade. Trabalhamos isso oferecendo para as mulheres cursos, capacitações, mentorias, conexão entre elas para que formem pequenas redes locais. Para as mulheres em situação de vulnerabilidade adicionamos pequenas doações, como se fosse um pequeno capital semente. A Rede foi mostrando que, para mulheres empreenderem, é diferente dos homens. Elas têm desafios maiores, outras questões que estão para além do pequeno negócio, e isso foi muito importante. Nós evoluímos alguns passos, desde colocar o empreendedorismo no mapa, criar políticas específica para elas, olhar para as questões de que elas precisam vender os produtos e serviços, e a Rede é a organização que contribuiu para isso. Uma organização como a nossa é fundamental para que as mulheres tenham negócios que sejam relevantes na perspectiva delas, que gerem o impacto social que normalmente geram e para que essas mulheres consigam sair, inclusive, de situações de violência.
Quais eram as dificuldades que você percebia no ambiente corporativo? Acredita que algo mudou?
Nós tínhamos dificuldades que permanecem até hoje, mas em contexto e perspectiva diferente. Explico: na época, não existia conversa sobre diversidade e inclusão, não existia falar sobre responsabilidade social das empresas perante as questões da sociedade, então era um ambiente extremamente discriminatório, que não acolhia as pessoas que não estavam no padrão que aquele ambiente corporativo pedia. Hoje nós temos mais consciência, falamos mais sobre o assunto, as pessoas sabem o que é diversidade e inclusão, mas ainda temos um caminho longo. Infelizmente, em 2025, ainda vemos muitas práticas que não são adequadas. Que ainda enxergam diversidade e inclusão como algo acessório, não como parte da estratégia do negócio. Acho que isso é a grande questão.
Como o apoio às mulheres pode ser estratégico para a inovação e a competividade nos negócios?
Pensando no seguinte: as mulheres são 51,5% da população, ou seja, são a maioria. Elas decidem mais de 85% das compras de uma família. Tudo que entra na casa dessa família é decidido por essa mulher. Essa mulher, quando o negócio dela dá certo, quando ela gera renda, gera emprego, ela gera emprego para outras mulheres. Ela melhora a educação dos filhos, melhora o bem-estar da família e apoia a comunidade no entorno. Então, é muito importante olhar para essas mulheres e pensar no impacto social e estratégico que elas oferecem para a nossa sociedade.
E de que forma os homens podem ser aliados no empreendedorismo feminino?
De inúmeras formas. Primeiro colocando luz e evidência em negócios liderados por mulheres, seja você um homem que é o companheiro de uma mulher, seja você um homem que está numa empresa que pode gerar projetos e pode comprar de negócios liderados por mulheres, seja você um cidadão da sociedade que pode comprar produtos de pequenas empresas e negócios liderados por mulheres, seja você um servidor público que precisa construir uma política pública olhando para essas mulheres. E, obviamente, todas as outras questões relacionadas à violência contra as mulheres. Todos nós, especialmente os homens, devem atuar não aceitando, não compactuando e não sendo coniventes com nenhuma política de opressão contra as mulheres em toda a sua diversidade.
Como romper com a mistificação de que o empreendedorismo feminino precisa estar atrelado a atividades somente do campo feminino?
Não é um problema o empreendedorismo feminino ser 70% dos negócios ligados a atividades de domínio da mulher, como moda, beleza, alimentação fora de casa e serviço. O que precisamos mostrar para a sociedade é que as mulheres não precisam estar restritas a esse ambiente. Temos que criar ambientes acolhedores para que essas mulheres criem negócios na área de tecnologia, na indústria, em territórios que são conhecidos majoritariamente como masculinos. E é isso que viemos mostrando, não obrigando e não falando que isso é um problema para as mulheres. Porque muitos desses negócios são oportunidades de desenvolvimento. É mostrando cada vez mais mulheres nesses espaços e construindo uma jornada para que elas criem negócios no território que elas quiserem.

Desigualdades sociais, diversidade e inclusão
Você defende que só a educação não é suficiente para combater as desigualdades sociais. Como o ambiente corporativo e as empresas podem contribuir neste processo?
Nós precisamos, para além da educação, gerar renda para as pessoas. Para combater a desigualdade, você precisa que as pessoas tenham uma vida digna, com acesso à moradia, acesso à saúde, a um trabalho digno. E o que as empresas podem fazer? Projetos de inclusão produtiva, de geração de renda, especialmente para as mulheres, porque esse tipo de ação gera um impacto na vida da mulher, mas gera um impacto na família, na comunidade do entorno, gera mais empregabilidade, especialmente de mulheres, criando um círculo positivo.
As práticas ESG nas empresas abriram maior espaço para as diversidades, entre elas as de gênero. No que ainda é preciso avançar?
Sim, as práticas de ESG nas empresas abriram mais espaço para a questão da diversidade de raça, gênero, origem, etnia, orientação sexual. Isso colocou uma luz sobre o tema, mas não necessariamente avançamos na velocidade que nós precisamos. Ainda há uma minoria de mulheres ocupando cargos de gestão, especialmente de alta liderança nas grandes empresas. O número chega a 18%, aproximadamente, em alta liderança, e 6% em conselhos. Ou seja, nós ainda estamos sub-representadas no ambiente de poder. Obviamente, caminhamos alguns passos, mas ainda passos muito pequenos. Tem um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU) que mostra que vamos levar cerca de 130 anos para ter equidade, onde mulheres e todas as outras pessoas tenham acesso a oportunidades dignas e as mesmas condições. O que precisamos avançar? Olhar para os indicadores, porque já sabemos quais são os “gaps”, e a partir dessas lacunas trabalhar para melhorar os dados. Contratar mais mulheres, mais pessoas negras, preparar as pessoas para os cargos de liderança, ter políticas afirmativas, políticas de acolhimento, metas claras de participação de pessoas diversas... esse é o caminho.
Em termos de política pública, onde é preciso avançar para reduzir a desigualdade de gênero e de raça no país?
Vou citar as que considero mais importantes: políticas de acesso a capital. Falo capital porque crédito é uma ferramenta de capital. Então pode ser crédito, microcrédito, linhas de inovação, linhas de investimento. Nisso precisamos melhorar muito. Outra coisa que podemos ter são políticas de compras inclusivas, como chamamos. É destinar um percentual das compras de empresas públicas e de empresas privadas para pequenos negócios liderados por mulheres ou por outros grupos minorizados. É dar espaço para que elas vendam os produtos e serviços delas para essas empresas. E não dá para deixar de falar da política de cuidado. Foi lançada uma política nacional de cuidado, mas ainda não está na aplicação dela, para trabalhar a questão do cuidado com a família, dos filhos, dos idosos e os doentes, que é majoritariamente feito por mulheres e acaba sobrecarregando, trazendo questões de saúde mental. Fora que elas não conseguem dedicar o tempo que precisam para os negócios e para gerar renda.



