
Em visita ao Rio Grande do Sul, o embaixador do Japão no Brasil, Hayashi Teiji, foi entrevistado no programa Conversas Cruzadas, sob o comando do apresentador Léo Saballa Jr, nesta sexta-feira (14). O diplomata falou dos 130 anos de amizade entre Brasil e Japão e dos laços históricos, culturais e diplomáticos que conectam os dois países.
— Eu amo a culinária gaúcha, como churrasco, vinhos, e tomo mate também. Tenho cinco cuias em minha casa — disse Jayashi Teiji.
Com a maior comunidade japonesa fora do Japão, o Brasil mantém uma parceria estratégica em áreas como agricultura, tecnologia, educação e meio ambiente.
Um vínculo que segue se ampliando por meio de novos projetos e intercâmbios entre os dois países – como o Festival do Japão, evento que celebra a cultura japonesa no Estado, nos dias 14, 15 e 16 de novembro no Parque Assis Brasil, em Esteio, com entrada gratuita.
Assista à íntegra da entrevista:
Em novembro de 2025, Brasil e Japão celebram 130 anos de amizade. Verdadeiramente, a relação é muito amistosa, né?
Realmente, as relações entre o Brasil e o Japão são multifacetadas. A imigração japonesa aqui é uma parceria muito importante. Hoje contamos com 2,7 milhões de descendentes japoneses no Brasil. É a maior comunidade fora do Japão. Além disso, no Japão temos a quinta maior comunidade brasileira no Exterior, com 220 mil brasileiros que moram lá. Eles trabalham, sobretudo, no setor industrial. Por isso, também, os brasileiros no Japão são parceiros muito importantes.
Por que essa amizade é tão grande? Duas culturas tão diferentes, dois países tão distantes.
É curioso. Realmente, as mentalidades ou filosofias japonesas e brasileiras são bem diferentes. O Japão e o Brasil estão dos dois lados do globo. Com essa distância, realmente temos diferenças. Mas, por exemplo, com essa história de intercâmbio de pessoas, no Japão temos 3 mil japoneses que praticam capoeira. Em Tóquio, temos vários restaurantes de churrasco. Muitas padarias também oferecem pão de queijo, bem conhecido entre os japoneses. E, obviamente, aqui no Brasil a culinária japonesa é também conhecida, com sushi, tempurá, yakisoba e outras coisas. Eu acho que, graças a essa diferença, as pessoas têm mais interesse.
O senhor gosta do churrasco?
Obviamente. Eu amo a culinária gaúcha, como churrasco, vinhos, e tomo mate também. Tenho cinco cuias em minha casa.
E tem como hábito tomar chimarrão?
Sim, sim. Eu também trabalhei em Buenos Aires na minha carreira. Então, meus amigos brasileiros e argentinos me trazem pacote de mate várias vezes. Aproveito essa amizade para apreciar. Vindo aqui, vejo diferença da cultura gaúcha com a cultura de outras regiões, como Brasília e São Paulo.
Vai levar o chimarrão para o Japão quando voltar?
Em minha casa, no Japão, também tenho chimarrão, duas ou quatro cuias. Então, vou continuar. Agora importamos. É uma bebida realmente saudável, e vários japoneses sabem o sabor do mate.
O senhor já provou o sushi brasileiro? A gente inventou muita coisa diferente?
O sushi no Brasil, de modo geral, é um pouco diferente do sushi autêntico. No Japão, historicamente comemos muito pouco sushi de salmão. Para os japoneses, é peixe branco ou atum. Aqui no Brasil, contamos 18 mil restaurantes japoneses ou que oferecem culinária japonesa. O meu projeto é divulgar mais sushi ou tempurá autênticos.

Como é que está a relação comercial Brasil-Japão hoje em dia?
Na área econômica, temos relações muito fortes. No Brasil, contamos mais ou menos 700 empresas japonesas em operação. No caso do Rio Grande do Sul, temos mais que 10. Eu acho que temos, com o Estado, um potencial bastante importante para desenvolver nossas relações econômicas. Durante minha visita, estou falando com alguns parceiros gaúchos, por exemplo, no setor de energia renovável. A geração de eletricidade eólica tem muito potencial.
Dá para a gente dizer que está vindo investimento em energia eólica do Japão para o Rio Grande do Sul?
Já. Algumas empresas têm um projeto de investimento no Rio Grande do Sul, como offshore, no mar. O governo estadual, e também federal, tem alguns, como espaços divididos para distribuir a alguns investidores que querem montar esse gerador de eletricidade eólica. Uma startup japonesa já está concretizando o seu projeto.
Já se tem valores de investimento?
Ainda não. É o primeiro projeto de piloto concreto do Brasil, que está organizado por uma empresa JB, Japan Blue Energy, e com vários associados gaúchos e brasileiros para concretizar. Talvez, dentro de dois, três anos, já vamos montar essa torre eólica para gerar eletricidade. De verdade, os gaúchos devem saber que o Rio Grande do Sul realmente tem o maior potencial de geração de eletricidade eólica offshore do Brasil, porque o mar não é muito profundo. Tem ventos fortes e também muito estáveis, na mesma direção. Além disso, também uma empresa japonesa está elaborando um estudo utilizando hidrogênio verde.
A transição energética que a gente fala tanto. Como que o Japão está inserido nesse debate ambiental do planeta e especialmente aqui do Brasil?
Durante a COP, vamos destacar vários projetos de cooperação Japão-Brasil. Primeiro, várias empresas japonesas têm tecnologias relacionadas com o hidrogênio verde. Por exemplo, Toyota é a única empresa que comercializa um carro com hidrogênio. Outra empresa, Kawasaki, dois anos atrás lançou o primeiro navio transportador de hidrogênio.
Na COP30 se fala muito sobre Fundo Amazônia. O Japão está atento a isso?
O Japão é o único país asiático contribuinte (do Fundo). No ano passado, fizemos uma contribuição financeira. Mas, além disso, também estamos apoiando para conservar a floresta tropical.
No Rio Grande do Sul, a gente sofreu muito no ano passado com uma enchente histórica. Como que o senhor acompanhou isso? Inclusive, o Japão pode nos ensinar muito.
A área de defesa civil, medidas contra desastres naturais, é uma das prioridades de nossa colaboração com o Brasil. Quando o governador Eduardo Leite visitou o Japão, falou com várias autoridades relacionadas e, também, visitou algumas instalações japonesas para mitigar os danos de enchentes. Em Tóquio, por exemplo, temos um grande espaço como depósito de águas subterrâneas. Uma barragem subterrânea.

Subterrânea? Em Tóquio?
Sim. Debaixo de vários prédios altos temos esse espaço para absorver a água. É quase como um estádio de futebol. Já temos túneis de vários lugares, porque há 10 ou 20 anos atrás tivemos chuvas muito fortes na cidade e tivemos enchentes. O governo japonês planejou essa instalação para mitigar os danos de enchentes ou inundações. O governador Leite visitou essa parte subterrânea durante sua visita. É uma infraestrutura que requer muito investimento. Aqui, no Rio Grande do Sul, estamos elaborando ou realizando um projeto de cooperação técnica chamado de resiliência industrial.
Resiliência industrial?
Utilizando um programa desenvolvido por especialistas japoneses, com inteligência artificial e dados de satélites, vamos conscientizar empresários gaúchos de pequenas e médias empresas. E motivar esses empresários a tomarem medidas concretas contra enchentes no futuro. Temos como um programa 3D para prever mais o que vai acontecer em Porto Alegre no futuro. Ou seja, quando tem chuvas fortes, inundações. Então, cada empresário pode compreender que tipo de risco tem.
No futuro breve?
No próximo ano, já. Vamos fazer mais orientações, que medidas tem que tomar (em situações de enchente), por exemplo. Junto ao Sebrae RS, estamos fazendo esse projeto de cooperação técnica para resiliência de pequenas ou médias empresas de Porto Alegre. Já lançamos no mês passado e, no ano que vem, vamos também divulgar essa tecnologia a outros empresários gaúchos. E temos outro projeto interessante sobre medidas contra deslizamento de terra.
Qual é a agenda aqui no Rio Grande do Sul, embaixador?
O objetivo principal desta visita foi receber o governador do Estado de Shiga, do Japão. Shiga é um Estado-irmão para o Rio Grande do Sul. Os dois Estados assinaram um acordo de amizade há 45 anos. Como sabe, no ano passado o governador Leite visitou nosso país, inclusive Shiga, e eu pedi ao governador de lá para visitar o Rio Grande do Sul o mais rápido possível. E, em Porto Alegre, temos a Praça de Shiga, que foi uma doação do Estado de Shiga, vários anos atrás, como um tipo de jardim japonês. É bem amado pelos gaúchos. Além disso, neste fim de semana temos o Festival do Japão aqui.

Esse festival é legal porque promove a cultura japonesa, né?
É um dos maiores festivais do Japão no Brasil ou talvez no mundo. Nesta vez, esperamos mais ou menos 80 mil visitantes durante três dias. Oferece várias atrações, como culinária japonesa, taikô, cultura pop, mangá, anime. Vários visitantes também vão de cosplay, e os brasileiros adoram isso. Eu mesmo vou fazer uma demonstração de pintura japonesa.
O senhor pinta, né?
Sou artista de pintura japonesa chamada sumi-ê, uma pintura com carvão. Tinta preta, sabe? Então, vou fazer uma demonstração de 20 ou 30 minutos. Uma pintura de dragão.
O senhor está encerrando a sua missão como embaixador aqui no Brasil. Como que o senhor viu a relação com o presidente Lula?
Durante o meu mandato de quatro anos, as relações diplomáticas entre os dois países foram muito próximas. No ano passado, tivemos duas visitas do primeiro-ministro japonês. O presidente Lula participou de uma cúpula em Hiroshima dois anos atrás e, em março, tivemos a honra de receber o presidente como visita oficial da primeira categoria.

A relação sempre foi boa?
No caso do Japão, somente um chefe de Estado estrangeiro é recebido como visita da primeira categoria. Então, neste ano, o governo japonês escolheu o presidente brasileiro. Teve uma cerimônia de homenagem no Palácio Imperial, jantar de gala com os imperadores. Além disso, tivemos uma conversa mais de trabalho com o primeiro-ministro. Foi uma visita frutífera, produtiva. Assinamos como 70 acordos na ocasião. Mais de 100 empresários brasileiros acompanharam. E, por isso, estamos continuando desta maneira para fortalecer as relações diplomáticas, mas também políticas e econômicas.
O senhor já falou que culturalmente o Japão não é muito de prestar homenagem. Isso é uma tradição brasileira, né?
A família imperial tem muita amizade ou simpatia com o Brasil, porque o imperador tem muito interesse e preocupação sobre os descendentes japoneses. Agradece muito um país como o Brasil, receptor de imigrantes japoneses na história. Em junho, para comemorar 130 anos de amizade, tivemos a visita da princesa imperial.
Pela primeira vez, o Japão tem uma primeira-ministra. Como está sendo?
O povo japonês e também os estrangeiros têm muita expectativa de ela dirigir o nosso país. Nas últimas pesquisas públicas, a primeira-ministra tem mais de 60% de aprovação.
A primeira-ministra está no centro das notícias por um problema com a China. O Japão, inclusive, convocou o embaixador chinês em Tóquio para explicações após um cônsul ter defendido a decapitação dela.
Como sempre, no mundo, as relações com os países vizinhos são bastante delicadas. Com a China, o Japão tem realmente uma longa história, mais de 2 mil anos. Também temos mais de 30 mil empresas japonesas na China. Os laços são fortes. Eu trabalhei lá de 2014 a 2017. Então, eu tenho também muitos amigos chineses. Mas, o regime político é diferente. Partido Comunista. Então, às vezes é muito difícil comunicar-se com o governo chinês, e temos alguns temas delicados. Eu acho que, como diplomatas, temos que construir relações estáveis e favoráveis para ambos os povos.
Eu não posso terminar a conversa sem falar um pouquinho de futebol. O senhor gosta? Para qual time torce?
Sim, sim. Gosto. Kashima Antlers.
E aqui no Brasil, qual é?
Meu primeiro segredo (risos). Agradecemos muito as ajudas dos futebolistas brasileiros no passado, começando com Zico. Zico ainda visita o Japão a cada ano e tem várias escolas de futebol. Agora, na Liga Japonesa, por exemplo, cada time tem no mínimo um ou dois brasileiros. Por isso, estamos muito orgulhosos com a primeira vitória contra a Seleção Brasileira no mês passado.
Muito obrigado e agradeço também pelo período que o senhor passou aqui no Brasil.
Eu agradeço. Durante minha missão, a amizade e as relações entre Rio Grande do Sul e Japão foram bem estreitadas. Temos, por último, a isenção de visto para os brasileiros. Nos últimos dois anos, aumentou muito os turistas brasileiros no Japão. Então, só com passaporte e passagem pode visitar. O Japão, agora, é muito barato. A moeda japonesa está um pouco desvalorizada. Sejam bem-vindos.
O Conversas Cruzadas vai ao ar de segunda a sexta-feira, no streaming, com os assuntos que mais impactam o público. O espaço discute economia, cidades, política, educação e saúde. O programa é transmitido ao vivo no canal do Youtube de GZH e também pelo site e pelo aplicativo.






