
Conhecido pela sua capacidade empreendedora, o Brasil, ao passo que celebra a criação de novas empresas, ainda tem dificuldades no que se refere à qualidade desses negócios. Relatório do Banco Mundial publicado este ano diz que poucos empreendimentos no país têm capacidade transformacional, ou seja, de promover crescimento econômico e de criar empregos de alto nível. Ao mesmo tempo, nomes do setor veem que há locais muito pujantes para ideias inovadoras, entre eles o Rio Grande do Sul.
Segundo especialistas, questões sociais e históricas têm papel importante no contexto de limitações das empresas. Enquanto a maior parte dos negócios criados surge por uma questão de necessidade, menores são os que conseguem ser criados em razão de uma oportunidade, ou seja, como um negócio transformacional.
De acordo com o Banco Mundial, o Brasil tem um crescimento exponencial de microempreendedores. Este tipo de registro empresarial, no entanto, não se traduz em ganhos substanciais em termos de empresa, o que restringiria o desenvolvimento.
O ambiente empreendedor ganhou fôlego no país a partir de 2009, quando entrou em vigor o regime de Microempreendedor Individual (MEI), criado no ano anterior. A modalidade, considerada relativamente nova na história econômica, trouxe a formalização dos negócios que até então sofriam com uma série de limitadores para que fossem mais bem estruturados.
— O MEI vem em contrapartida a todos esses problemas (sociais e econômicos), como uma solução. Ele dá segurança jurídica, formaliza uma atividade, permite emitir nota, vender para entes, além de outros benefícios que assegura, como cobertura previdenciária — diz Giulia Mattos, especialista em MEI do Sebrae-RS.
Na prática, segundo Giulia, o MEI é uma porta de entrada para o mercado formal. O programa tem custos tributários menores se comparado a outras categorias de empresas. Além disso, garante isenção de uma série de obrigações fiscais. São motivos que fazem com que os novos negócios não parem de crescer. E que facilitam para que tanto os negócios de necessidade quanto os de oportunidade deslanchem.
No Rio Grande do Sul, cada vez mais se identifica que o Estado comporta ecossistemas importantes, sendo um polo de inovação, tendências e eventos. Este ambiente tem se mostrado promissor para as empresas nascentes com diferenciais.
Não deixa de ser um polo de tecnologia e indústria. Esse olhar para o RS como um polo de inovação com certeza tem colaborado para o surgimento de empresas transformacionais.
GIULIA MATTOS
Especialista em MEI do Sebrae-RS
Lideranças em empreendedorismo dizem que é preciso estimular a educação técnica e o acesso ao crédito desses profissionais para fomentar a atividade. Em partes, é o que faz o Grupo Besouro, criado há 10 anos. A empresa, que nasceu pequena, hoje soma 450 colaboradores. Com sede em Porto Alegre, as filiais estão em seis estados brasileiros e no Distrito Federal promovendo a educação empreendedora.
Educação tecnológica
Leonardo Barnet, gestor executivo do Grupo Besouro no RS, explica que a empresa atua em duas frentes: na educação voltada ao empreendedorismo social da base da pirâmide, acompanhando alunos e projetos, e na educação do futuro do trabalho, qualificando essas pessoas para se posicionarem de forma mais efetiva no mercado.
O viés de inovação está presente na educação tecnológica. Segundo o gestor, a inclusão digital é chave fundamental nos projetos, tanto no acesso em si, levando tecnologia e equipamentos para as regiões atendidas, quanto no letramento para ensinar aos profissionais como aplicar programação e Inteligência Artificial nos negócios.
Uma das grandes questões para alavancar com tecnologia vem do investimento e do acesso à informação.
LEONARDO BARNET
Gestor executivo do Grupo Besouro no RS
— A vontade do brasileiro de aprender é muito grande, mas inserir o conhecimento no tempo que ele tem para se qualificar às vezes é uma dificuldade — diz Barnet.
Observando o empreendedorismo por oportunidade, o gestor da Besouro diz que há fatores importantes para este perfil no Rio Grande do Sul. Um deles é a ligação entre os tipos de negócios, uma rede de parcerias muito pujante entre as empresas, além de um perfil que exporta conhecimento, ou seja, que “pensa muito aqui” e leva a ideia a outros Estados.

Exemplo disso é a DU99. Fundada há uma década pela arquiteta Aline Fuhrmeister, 51 anos, a empresa se propõe a entregar reformas completas em um dia, como “em um programa de TV”. Mais do que agilidade, a firma entrega compromisso social e ambiental: as reformas são voltadas a instituições sociais como escolas, abrigos, centros comunitários e até postos de saúde, utilizando, além do material doado por empresas parceiras, resíduos de construção em perfeito estado de uso.

Parcerias de fomento
O trabalho começou voluntariamente, virou associação, e hoje tem um CNPJ como negócio social. O salto veio em 2023, quando as buscas de companhias parceiras começaram a se intensificar. Em 2024, a empresa investiu mais de R$ 1 milhão nas reformas. Além de Aline, duas sócias tocam o negócio, que tem também 17 voluntários fixos e está em processo de contratação de pessoas para gestão de operações.
— Comecei só querendo fazer o bem e usando as sobras dos meus clientes e foi assim por oito anos. Mas demos uma virada de chave e chegamos num ponto em que só não conseguimos escalar mais porque somos nós que colocamos a mão na massa. Estamos desenvolvendo com a Unisinos uma plataforma que vai conectar a sobra da indústria com quem precisa. É a forma que encontramos de escalonar esse serviço que, além de tudo, tem um viés ambiental muito forte — conta Aline.
Ramificação de negócios

A capacidade de escalar uma empresa em várias frentes de negócio faz parte da visão de trabalho da empreendedora Gabriela Valente, 42 anos. À frente da Gabi Valente Soluções, ela transformou o serviço da limpeza em escola que capacita profissionais e tem até produto próprio.
Gabriela conta que a ideia da empresa surgiu de uma percepção simples. No auge da pandemia, a empreendedora entendeu que as pessoas passaram a valorizar a limpeza de outra forma, e viu que ali havia uma oportunidade de negócio.
Depois de profissionalizar o serviço que ela mesma fazia, Gabriela criou a Escola da Diarista, uma maneira de capacitar mulheres que tinham a faxina como fonte de renda, mas incentivando o empreendedorismo nesta área. Na escola, além da técnica da limpeza, as profissionais aprendem sobre finanças e marketing digital para melhor monetizar e divulgar os seus trabalhos.
O negócio cresceu tanto que já tem até produto, um multiuso estampado com o nome da marca, o Valente, vendido em loja física na Restinga e na internet. Ainda em 2025, a empresa se prepara para lançar o Dona Diná, uma assistente virtual da Escola com nome em homenagem à mãe da empreendedora, para democratizar a educação profissional. A plataforma vai responder dicas rápidas de limpeza e dar suporte diário aos profissionais.
— Às vezes, eu me pego pensando e me emociono, porque jamais imaginei alcançar e transformar tantas famílias com algo que parecia simples. Eu fui à Europa graças à faxina, fiz muitas coisas pela primeira vez por causa da faxina. O próximo sonho é ter uma sede física da Escola da Diarista. Jamais imaginei que chegaria aqui. Inovar é perceber que algo está faltando e trazer uma solução para aquilo — diz Gabriela.


