
Desde agosto, quando os Estados Unidos anunciaram tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, a rotina de um curtume — estabelecimento industrial que faz processamento de couro animal — em Portão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, mudou drasticamente. A empresa, que tinha 90% da produção destinada ao mercado norte-americano, precisou interromper as atividades duas vezes e conceder férias coletivas aos funcionários.
Segundo o diretor do curtume Cezar Müller, os pedidos foram praticamente cancelados por mais de um mês após o anúncio das novas taxas.
— O mercado americano é um mercado importante para nós — diz.
Müller alerta que outros países estão ocupando espaço deixado pelo Brasil, o que pode gerar perda de competitividade global.
De acordo com a Associação das Indústrias de Curtume do Sul do Brasil, os efeitos do tarifaço não são uniformes. Há casos de queda de apenas 10%, mas também há relatos de redução de até 90% nas vendas.
As tarifas sobre importações, anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começaram a valer no início de agosto. Com elas, o país passou a cobrar os maiores impostos médios sobre produtos estrangeiros em mais de cem anos, afetando dezenas de nações.
— Cada empresa trilha um caminho por muitos anos para construir isso. Então, a mudança de mercado é muito difícil, porque todos estão procurando a mesma saída — afirma Sérgio Panerai, presidente do conselho diretor da entidade.
Exportações despencam no terceiro trimestre
Dados do governo estadual mostram que as vendas do Rio Grande do Sul para os Estados Unidos caíram 18,6% em agosto, e 51,5% em setembro, em relação ao mesmo período do ano passado.
Somados, os dois meses representaram perda de US$ 118,4 milhões para a economia gaúcha. Antes das tarifas, entre janeiro e julho, as exportações haviam crescido US$ 95,4 milhões.
Os produtos mais afetados foram:
- fumo não manufaturado (queda de US$ 51,8 milhões);
- armas e munições (US$ 24,6 milhões);
- celulose (US$ 19 milhões), mesmo sendo isenta das novas taxas.
Em outros setores, por exemplo, madeireiras nos Campos de Cima da Serra registraram queda de preços, redução de produção e cerca de 500 demissões, segundo o Sindimadeira.




