
A quantidade de chamados que o Corpo de Bombeiro Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS) recebe para lidar com enxames de abelhas e marimbondos tem sido atípica em 2025. Até o dia 13 de novembro, o RS já registrava 2.593 casos a mais do que o total de 2024.
O cenário não é exclusivo de um município ou região do Estado. Das 250 cidades atendidas pelos militares, 157 apontaram aumento quando comparados os dados de 2022 com o registrado até novembro de 2025.
O crescimento mais significativo foi em Caxias do Sul, que saiu de 104 ocorrências em 2022 para 529, até meados de novembro de 2025. Em Porto Alegre, o aumento foi de 96 registros ao longo do período, saindo de 1.196 para 1.292 atendimentos.
Apesar dos números altos, os bombeiros relatam que a maioria dos casos tem relação com a enxameação, momento em que o grupo de insetos se divide e parte dele sai em busca de um novo local para construir uma colmeia ou cachopa, no caso dos marimbondos.
O professor do curso de Agronomia da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), Rafael Meirelles, aponta duas causas para o crescimento de ocorrências: o desmatamento e as mudanças climáticas.

Pesquisas apontam que está ocorrendo um “êxodo rural” dos insetos, ou seja, que eles estão deixando as áreas rurais e de mata. Um trabalho realizado pelo professor e pesquisador em São Luiz Gonzaga, nas Missões, indica aparição maior do inseto na parte urbana no comparativo a algumas zonas do interior do município.
— Nós vivemos uma expansão das áreas agrícolas, com consequente desmatamento e as abelhas fazem ninho, principalmente, em troncos de árvore. Então, aquele meio rural começa a se tornar insalubre, com muito agrotóxico e muito desmatamento. Por isso, esses insetos vêm para área urbana e aí começam a se adaptar — explica Meirelles, que também é coordenador do projeto Abelhas Missioneiras, que incentiva a criação do inseto e avalia a situação das abelhas sociais no Estado.
Somado a isso existe o impacto das mudanças climáticas. Essas ondas de calor fora de época afetam as plantas, que acabam florescendo antes e depois não resistem à queda de temperatura, diminuindo a oferta de alimento para as abelhas.
— Os insetos são o que nós chamamos de pecilotérmicos, ou seja, eles não conseguem regular a temperatura corporal deles. Conforme esquenta, a reação química acelera e o desenvolvimento do inseto também acelera. Então, quando chega nessa época (primavera), é normal que as populações deles aumentem, que eles se reproduzem mais, pois o calor acelera o metabolismo deles — aponta o professor.
Meirelles relembra que em 2025 a temperatura no inverno não teve tanta oscilação, o que contribuiu para uma primavera mais florida neste ano e uma maior concentração de enxameação em um mesmo período do ano.

Cuidados
Os primeiros passos que se deve tomar ao se deparar com um enxame em migração é manter a calma e distância dos insetos. Em seguida, a orientação é acionar os bombeiros ou apicultores profissionais. O capitão Thiago Bona do 1º Batalhão do CBMRS destaca que a permanência dos insetos no local, geralmente, é temporária e que logo eles buscam um ambiente mais propício.
— Nós fazemos uma avaliação no local e vemos o que que pode ser feito. Se o enxame está na residência, oferecendo risco aos moradores, muitas vezes a gente acaba optando pelo uso de algum inseticida para fazer o extermínio, mas se está em um local que a gente observa que não há riscos, sempre orientamos a contratar um profissional que trabalhe com esse tipo de animal para que ele faça a remoção corretamente, até por uma questão de que as abelhas são importantes para o meio ambiente, principalmente para a polinização. O extermínio a gente só faz em último do caso, quando não há uma alternativa — detalha Bona.
Normalmente, os insetos param de se movimentar no final do dia, quando cai a temperatura. O capitão também comenta que, no geral, as abelhas não têm uma natureza agressiva e que só atacam quando as pessoas chegam muito perto, fazem algum barulho excessivo ou movimentos bruscos muito próximo ao enxame.
O professor Rafael Meirelles acrescenta que dentre as 25 espécies de abelhas encontradas no RS, apenas uma possui ferrão, tem comportamento mais violento e apresenta risco às pessoas.
— O importante é não mexer com essas abelhas onde tem pessoas, sem equipamentos de proteção individual (EPIs) e durante o dia. Essa espécie tem capacidade de matar. O correto é isolar o local e chamar alguma autoridade que vai dizer o que tem que ser feito — reforça Meirelles.
Já nos casos em que há um ataque de abelhas ou marimbondos às pessoas, a orientação é chamar os bombeiros o quanto antes, buscar proteger áreas mais sensíveis do corpo, como cabeça, pescoço e rosto e tentar se afastar do enxame.
— Nesses casos a gente tem que fazer o devido atendimento à vítima, encaminhar para uma unidade de atendimento para que sejam observados os sinais vitais, porque existem pessoas que têm hipersensibilidade ao veneno das abelhas, então é extremamente importante que elas sejam monitoradas — detalha o capitão.





