
O demônio existe? O padre, trajado com camisa clergyman (veste clerical de colarinho apertado) e calça social, não estranha a pergunta. Responde sem hesitar, com voz calma e pausada:
— Sem dúvida. Os demônios estão por aí. Eles são uma legião, como diz a Bíblia. Com vários nomes, uns mais poderosos, outros nem tanto. E a grande arma do mal é as pessoas acharem que ele não existe.
O religioso é um dos 11 exorcistas da Igreja Católica no Rio Grande do Sul, homens encarregados de lidar com supostas possessões demoníacas. O desejo do antigo papa João Paulo II era que cada diocese (bispado) e arquidiocese (arcebispado) tivesse um desses padres. Isso significaria 18 sacerdotes desta natureza no território gaúcho, mas nunca se chegou a esse número. Comparando com a população gaúcha, há, portanto, um exorcista para cada um milhão de gaúchos.
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No Rio Grande do Sul existem exorcistas nas regiões de Porto Alegre, Passo Fundo, Santa Maria, Rio Grande e Frederico Westphalen. Eles podem atender municípios vizinhos e até outras áreas do Estado, quando necessário. Na ausência de um padre especializado no tema, o bispo da diocese é o encarregado de realizar o ritual.
O Brasil conta com 300 dioceses e existem 62 padres aptos a expulsar os supostos demônios, conforme dados divulgados pelo padre João Paulo Veloso, da Associação Internacional dos Exorcistas (AIE). Criada em 1990, a AIE possui mais de 900 filiados espalhados pelo mundo. Os cursos de treinamento existem desde 2005 e são ministrados na Itália, no México, na Coreia do Sul e no Brasil.
Possessões, vexações e humilhações
Zero Hora conversou com quatro exorcistas: dois em Porto Alegre e dois no Interior. Na Capital, um tem pouco mais de 50 anos, e o outro tem mais de 70. Ambos são formados em Teologia e Filosofia, com conhecimentos também de Psicologia. Três deles, a pedido da Igreja Católica, não terão a identidade revelada para evitar que sejam assediados ou incomodados. Nem mesmo alguns colegas de igreja sabem dessa faceta.

Cada um dos exorcistas revelou que atende por mês alguns casos misteriosos. Os principais episódios dizem respeito a supostas possessões e infestações (presenças maléficas), que podem atingir pessoas, lugares ou objetos. Existem também, segundo a Igreja, vexações (humilhações ou ferimentos impostos ao atingido pelo mal) e obsessões (pensamentos negativos que a vítima desenvolve).
Os sacerdotes afirmam que mais de 95% dos casos podem ser explicados pela ciência, não se configurando em possessão demoníaca. São patologias emocionais. Os padres contam com equipes (incluindo psicólogos, psiquiatras e médicos) que ajudam a identificar problemas psíquicos dos atormentados. A primeira coisa que o exorcista faz quando é procurado é aplicar um questionário padrão na pessoa aflita ou nos seus familiares. Faz uso de drogas? Tem problemas com álcool? Com que frequência utiliza medicamentos, como tranquilizantes? Além disso, os profissionais de saúde da equipe fazem a leitura de bulas para verificar possíveis efeitos colaterais — caso a pessoa utilize remédios de natureza psicotrópica —, como alucinações.

O questionário é aplicado na pessoa, sempre com familiares perto. Até para evitar que, durante uma suposta possessão, o submetido ao ritual exorcista se machuque.
Tem muita gente que acha que está possuída. Tanto que temos uma máxima no nosso meio: é mais fácil tirar o demônio do cara do que tirar a ideia de que ele tá com o demônio.
EXORCISTA MAIS IDOSO DA CAPITAL
— A grande maioria dos casos é de esquizofrenia ou outros males psíquicos. A partir do questionário que aplicamos, fazemos um diagnóstico preliminar, se existe ou não a possibilidade de haver alguma possessão — detalha o exorcista mais idoso de Porto Alegre.
Voz masculina, gargalhadas, objetos quebrados e desmaios

O cônego Marco Jardinello, que não se se opôs em ter o nome e a imagem divulgada, tornou-se exorcista em 2014. Sua primeira experiência com o ritual, no entanto, foi pouco antes de ser oficializado na função. Levou um grande susto. Era reitor de um seminário e foi chamado para atender uma mulher de 28 anos que estava revoltada, com problemas de relacionamento familiar, mostrava aversão à igreja ou a símbolos católicos. O sacerdote diz que foi atendê-la e, nas primeiras palavras trocadas, ela mudou a voz, que se tornou grave, masculina. Foram seguidas sessões em que ela dava gargalhadas, jogava objetos no padre, tinha convulsões e desmaiava à proximidade de imagens sacras. Depois voltava a si, sem lembrar de nada.
— Ao longo de meses ela arrancou fitas e medalhas. Debochou, desmaiou, voltou a si. Quebrou mesas, cadeiras. Em algumas ocasiões foram necessárias quatro pessoas para contê-la em razão da força descomunal que apresentava — relembra.
Foram sessões quinzenais ou mensais de exorcismo durante oito meses, até Jardinello concluir que o demônio havia sido expulso da mulher. Mesmo o mais célebre exorcista do mundo, o padre italiano Gabriele Amorth, por vezes, passou acompanhando durante anos algumas pessoas.
Mais um caso que Jardinello atendeu foi o da morte de vacas de uma família de produtores rurais em Seberi. Os animais foram definhando e morrendo, 11 ao todo, sem que veterinários conseguissem explicação, narra o cônego. Era o que ele chama de infestação do mal, "possivelmente uma praga rogada por invejosos".
— Abençoamos a propriedade, os animais e as mortes pararam — afirma.
Outro padre, formado em Teologia e Filosofia, com especialização em Psicologia, é um dos mais antigos exorcistas brasileiros. Aos 84 anos, atua hoje na Região Central do Rio Grande do Sul.
O sacerdote foi escolhido para a função quando atuava em Brasília, em 2009. Ele conta que jamais esquecerá o primeiro caso no qual atuou: uma jovem de 19 anos.
— Rezei em nome de Jesus, usei crucifixo e quando ela recebeu borrifo de água benta, desabou no chão. Quando o demônio vai embora, ele sempre derruba a pessoa — conta o religioso.
Os sacerdotes dizem receber uma vez por semana pessoas aflitas que desconfiam de possessão de algum familiar. No Rio Grande do Sul, o padre octogenário atua desde março com o ministério do exorcismo e diz que nenhum dos casos atendidos até agora era, efetivamente, de posse demoníaca. Eram todos problemas psíquicos, constata.

O vaivém do mal
As pessoas não ficam o tempo todo possuídas, afirmam os exorcistas. Existem intervalos, em que se mostram lúcidas e não se recordam do que vivenciaram, do que falaram.
Questionados se foram bem sucedidos em todas intervenções, os padres admitem que não.
— Tem situações em que não conseguimos, em que as pessoas acabam desistindo. Porque elas vêm uma, duas vezes. E, às vezes, não temos controle — lamenta um dos exorcistas porto-alegrenses.
Os dois exorcistas de Porto Alegre enfatizam que, de cada 10 casos que aparecem, nem um se confirma como possessão. A média de procura pelos serviços deles é de duas vezes ao mês.
Já Jardinello diz que atende dezenas de pessoas por semana, com casos de aflição ou problemas psicológicos. Mas possessões, mesmo, seriam raríssimas: média de uma por ano.
Como e por que acontece a possessão segundo a crença católica? Os dois padres dizem que a principal condição é a pessoa pecar, ceder a uma tentação de malefício. Aceitar a sedução colocada por algum demônio. Eles afirmam que o uso de drogas também as torna mais vulneráveis, física e psiquicamente. Segundo os religiosos, o mal pede licença, pede para entrar no corpo. Isso pode acontecer com uma invocação, uma brincadeira de magia, uma intenção de fazer mal a alguém ou a si mesmo.
O inferno é a ausência de Deus. E os demônios estão aqui para nos impedir de irmos ao encontro do Divino.
PADRE EXORCISTA
— Então, se eu não abro a porta, se eu não permito que ele entre na minha vida, ele não entra. Agora, se você não é alguém que alimenta a fé, não reza, não é amigo de Deus, está muito mais suscetível ao mal — conclui um dos padres.




