
Diante das dificuldades das estruturas tradicionais de ensino técnico para formar profissionais na quantidade necessária e com o tipo de especialização desejado, as próprias empresas gaúchas vêm investindo cada vez mais em ações de qualificação laboral — não apenas para complementar as habilidades de seu próprio corpo funcional, mas para treinar pessoas das comunidades onde atuam e de onde, eventualmente, buscam novos funcionários para expandir seus negócios.
O Rio Grande do Sul, assim como o país como um todo, não conseguiu atingir as metas de Educação Profissional e Tecnológica (EPT) previstas para o período de 2014 a 2024 pelo Plano Nacional de Educação. Enquanto a legislação previa o registro de 315,8 mil matrículas em todas as modalidades de EPT de nível médio até o ano passado, o Estado chegou a apenas 147,5 mil - pouco menos da metade do previsto. Como resultado, grandes empresas investem cada vez mais, por vezes em parcerias com serviços nacionais de aprendizagem industrial (Senai) e comercial (Senac) para garantir mão de obra adequada.
Conforme levantamento da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), a falta de trabalhadores é o principal obstáculo ao aumento da produção, afetando um terço das companhias, e responde pela metade das razões alegadas para adiar ou cancelar investimentos.
Veja, a seguir, como algumas das maiores empresas do Estado procuram compensar esse cenário empregando recursos próprios.
Marcopolo investe em universidade corporativa
Líder na fabricação de carrocerias de ônibus no Brasil e entre as maiores do mundo, a Marcopolo, fundada há 75 anos em Caxias do Sul, na Serra, hoje também se dedica a formar profissionais de ponta. Para isso, está reformulando um conjunto de ações destinadas a qualificar funcionários e pessoas de fora da empresa sob a denominação de UniMarcopolo. A arquitetura da universidade corporativa está passando por um processo de reformulação que deverá ser concluído no ano que vem. A nova estrutura se divide em cinco centros de conhecimento: liderança e gestão, novos negócios, jeito de ser Marcopolo (voltado à assimilação da cultura da empresa), efetividade organizacional e produto. Há ainda outros recursos como uma plataforma online com mais de 300 cursos disponíveis, incluindo opções em espanhol para contemplar trabalhadores migrantes. Somente em ações dedicadas a disseminar pontos-chave da cultura corporativa, por exemplo, foram contemplados mais de 13 mil colaboradores em diferentes países.

— A empresa tem uma preocupação muito grande com o desenvolvimento e o treinamento, entendendo que isso vai trazer resultado para o negócio. É muito complexo conseguir sustentar o negócio sem essa constância de capacitação e desenvolvimento profissional — afirma a coordenadora de Educação Corporativa da Marcopolo, Graciane Koche.
O objetivo é que cada colaborador tenha acesso a algum tipo de qualificação, pelo menos, uma vez ao ano. Mas também há iniciativas voltadas para a comunidade, por meio de unidades como o Centro de Treinamento Marcopolo.
— O centro oferece treinamento em áreas como solda, além de outros processos críticos nossos. Quando não encontramos mão de obra, também formamos pessoas que ainda não são funcionários — complementa Graciane.
Be8 busca parcerias para formar profissionais

Com sede em Passo Fundo, a empresa de energias renováveis Be8 investe em duas iniciativas fundamentais para garantir a formação de mão de obra necessária a suas operações, que envolvem a produção de biodiesel e etanol. Uma delas é uma parceria com a Universidade de Passo Fundo (UPF) para oferecer um curso técnico de biocombustíveis de nível pós-médio. Tem dois anos de duração, e conta com apoio da empresa para custear 50% da mensalidade. A formação prevê a formação de técnicos capazes de trabalhar nas usinas de biodiesel e esmagamento de grãos, mas também na planta de etanol que está em construção.
— Iniciamos essa parceria há um ano e meio e vamos começar, no ano que vem, os estágios da primeira turma. Hoje já temos três turmas em andamento, com a primeira formatura prevista para 2026 — revela a gerente corporativa de Pessoas e Cultura da Be8, Emanuele Milani Groth.
A outra frente de ação é realizada por meio de uma parceria com o Senai-RS para a oferta de um curso de técnico em eletromecânica. A Be8 também colabora com metade do valor ou, no caso do programa Jovem Aprendiz, com a integralidade dos custos.
— Nós temos um compromisso com a comunidade voltado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS4, parte da agenda da ONU sobre assegurar educação inclusiva) que é fomentar uma mão de obra com mais qualidade nas regiões e comunidades em que atuamos — afirma Emanuele.
Corsan lança curso com foco em mulheres
Em parceria com o Sistema Fiergs, a Corsan lançou na semana passada um curso destinado a formar operadores de máquinas pesadas utilizadas em obras de saneamento — área de atuação da empresa. Embora geralmente associada ao gênero masculino, a capacitação para manejar equipamentos como retroescavadeira buscou contemplar mulheres como forma de promover a inclusão. Graças a isso, deverão se formar sete mulheres e 11 homens na primeira turma. O curso, batizado como Mãos que Movem, inclui 32 horas de treinamento em retroescavadeira e cobertura do custo para adequar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) dos participantes para a categoria acima da B (atendendo a exigência para operação de máquinas). As aulas são realizadas no Senai Automotivo, na Capital, mas envolvem alunos de diferentes municípios da Região Metropolitana.

Miriam Fernanda de Brito Bica, 32 anos, é uma das contempladas pela iniciativa gratuita.
— Eu trabalhava como assistente administrativa em outra empresa, mas fiquei desempregada no ano passado. Surgiu essa oportunidade, e resolvi aproveitar. Já trabalhei em empresa de saneamento, e via que não tinha mulheres entre os operadores (de máquinas). Não me imaginava fazendo um curso desses, mas hoje tenho muita vontade de aprender e seguir trabalhando nessa área — conta Miriam, que mora em Sapucaia do Sul.
Conforme a Corsan, o programa busca garantir mão de obra para viabilizar os investimentos que devem ser realizados até 2033 – quando deve ser atingida a universalização do saneamento básico de acordo com a legislação brasileira. Para isso, a empresa pretende investir R$ 1,5 bilhão ao ano.




