
Virar exorcista quase nunca é uma escolha, mas um misto de convite com imposição, revelam alguns dos iniciados nestes rituais. Poucos gostam, no começo. Para se tornar exorcista, é preciso fazer cursos para expulsar o mal. Alguns são ministrados pelo Vaticano, outros no Brasil, no Rio de Janeiro. O cônego Marco Antônio Jardinello, que hoje atua em Constantina, no norte do RS, estudou quatro anos em Roma e lá recebeu formação teórica e prática em exorcismo — inclusive acompanhando rituais de padres veteranos.
Dois livros estão entre os mais utilizados: Diretrizes para o Ministério do Exorcismo à Luz do Ritual Vigente e Ritual de Exorcismo e outras Súplicas. Ambos são indicados pela Associação Internacional dos Exorcistas.
Os exorcistas do Brasil possuem um grupo de WhatsApp pelo qual trocam experiências, buscam conselhos e relatam casos.
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Os exorcistas costumam usar nos rituais água benzida em Lourdes (centro religioso na França), batinas comuns, crucifixo de madeira e uma estola púrpura. Uma das táticas desses sacerdotes para identificar charlatões é colocar água comum no aspersório (recipiente metálico usado para abençoar).
Quando a pessoa se contorce diante de água comum, sabemos que ela está fingindo. Mas se jogamos água benta pelas costas e ela se torcer ou sentir queima, é sinal de coisa feia.
PADRE EXORCISTA
E quem (ou o quê) é o mal, segundo a crença católica? Os padres estudaram a Doutrina da Fé e se valem dela para explicar que o mal é um espírito, surgido quando Deus criou os anjos. Alguns desses anjos se rebelaram e perderam o Céu. O mais famoso e líder deles é Lúcifer, mas existe uma escala com outros demônios menos poderosos.
— Os nomes dessas entidades variam conforme o tipo de religião, mas o fenômeno é o mesmo. Então, quando tu vais fazer um exorcismo, tu não sabes quem é que estás enfrentando. Se é um mais poderoso, se é um menos habilidoso. Agora, se tu pegas um que tem mais poder, mais força, ele vai te consumir, né? É muito extenuante, porque isso leva, às vezes, uma, duas, três horas. Tu ficas ali, rezando, e vai...a pessoa volta, e tu dás um gole de água. A pessoa chega a vomitar objetos, por exemplo — detalha um dos padres.

Confissão antes de enfrentar o demônio
O cônego Jardinello, que carrega como proteção uma medalha de São Miguel e outra de Nossa Senhora das Graças, ressalta a importância do religioso se confessar antes do ritual de exorcismo. Isso porque, de acordo com o padre, o demônio costuma usar pecados dos sacerdotes para atacá-los e envergonhá-los.
Além disso, conta um dos padres exorcistas, eles costumam jejuar antes do ritual.
— Porque o próprio Nosso Senhor no Evangelho diz que tem certos demônios que é só com jejum e oração que a gente vai vencer — pondera um sacerdote.
Ao longo do rito, o exorcista pede que a pessoa renuncie ao contato com o demônio.
— Minha missão como cônego exorcista é restaurar a fé católica das pessoas — enfatiza.
Muitas vezes, o suposto possuído não tem forças, para o bem ou para o mal. Aí o padre ora, pede a força do Espírito Santo. São ocasiões em que a vítima da possessão dirige ao religioso um olhar de raiva, fala palavrões. Muitas vezes, no final do rito, o semblante dela exprime gratidão, porque o possuído volta à lucidez, segundo relatam os sacerdotes.
— É um grande trabalho de misericórdia, gratificante — define um dos padres de Porto Alegre.




