
Como a ciência explica o exorcismo? Zero Hora conversou com alguns estudiosos de religiões e de manifestações psíquicas para tentar entender melhor o assunto. Para a psiquiatria e a psicanálise, o fenômeno é um transtorno de identidade — uma sensação real para quem sofre. Já a história traça um panorama de como a figura do mal (demônio) aparece ao longo dos anos e como é representada em diferentes culturas. Por fim, a parapsicologia atribui ao poder da mente a explicação do que a Igreja Católica classifica como possessão.
O psiquiatra gaúcho Carlos Salgado, conselheiro da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas (Abead), ressalta que alguns problemas psíquicos envolvem características similares às que a Igreja Católica aponta como possessões. São casos de transe em que o paciente mostra força descomunal, mudanças de voz, fala em outros idiomas e tem lembranças que emergem como se fossem revelações.
A Organização Mundial de Saúde (OMS), diz ele, tem até um nome para esse fenômeno: Transtornos de Transe e Possessão (TPD), descrito em um artigo publicado na National Library of Medicine como "intrigante e complexo no âmbito da psicologia e da psiquiatria". O fenômeno está classificado na CID-10 sob o código F44.3. Transe é a alteração acentuada no estado de consciência que leva a comportamentos além do controle do indivíduo. Possessão é semelhante, só que o senso pessoal do indivíduo é substituído por uma nova identidade, a quem o paciente caracteriza como o espírito de um animal, alguém falecido, uma divindade ou um poder. Isso pode ocorrer devido a estresse emocional e emoções reprimidas, discórdia doméstica ou questões socioculturais, acrescenta Salgado.
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— Diferentes sociedades e crenças abordam isso culturalmente. Cabe destacar que as questões culturais que modelam tais estados mentais não necessariamente correspondem a elementos como Deus e Diabo, podendo, por exemplo, envolver figuras de animais, míticos ou não. Depende da cultura específica de um dado indivíduo — pondera.
Ele acredita que são ocorrências raras e, na medida em que a ciência avança, cada vez mais explicadas.
O psicanalista gaúcho Márcio Cabral destaca que é preciso partir de uma premissa: mesmo quando um fenômeno não tem causa “externa” comprovável, ele é real para quem o vive. Ele ressalta que Sigmund Freud já descrevia há mais de cem anos todas essas manifestações e às atribuía a problemas psíquicos, sobretudo histeria.
A religião lê isso como presença de um espírito, nós entendemos como algo do próprio sujeito: memórias, traumas ou desejos reprimidos que se manifestam de forma encenada.
MÁRCIO CABRAL
Psicanalista
— Quando alguém diz “Não sou eu, é o demônio”, isso também é uma forma de organizar o sofrimento e se separar de algo que dói. Ou seja: não discuto se o demônio existe ou não, mas sim o que ele representa na vida psíquica de quem sofre — detalha Cabral.
O psicanalista lembra que historicamente, na Idade Média, a possessão era taxada como obra do demônio. No século 19, algumas das manifestações foram definidas como histeria e hoje, em alguns contextos, são apontadas como surto psicótico. O especialista ressalta que a forma muda, mas a estrutura é a mesma: algo que a pessoa não consegue simbolizar irrompe no corpo. Então, mais do que perguntar se é real ou não, a psicanálise tenta entender o que essa manifestação quer dizer, qual sofrimento ela encena. Qual a tradução do mal-estar.
A religião é uma forma de organizar o mal-estar. Ela dá sentido, oferece proteção simbólica, cria uma narrativa para o sofrimento. Já a possessão é quando o sujeito não consegue mais organizar esse sofrimento e ele explode no corpo, como se fosse um outro falando por ele. Na religião eu peço ajuda a um Outro; na possessão esse Outro fala em mim. Uma busca acolhimento, a outra encena um colapso psíquico.
MÁRCIO CABRAL
Psicanalista
Rodrigo Coppe Caldeira, historiador e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUCMG), ressalta que a história da humanidade está repleta de figuras demoníacas como representação do mal, do caos e da desordem. No cristianismo, aponta o historiador, o diabólico têm uma simbologia de ruptura da comunhão dos humanos com Deus.
Caldeira sublinha o fato de a Igreja Católica atribuir a maioria das manifestações a um problema emocional ou clínico, e não possessão. Isso, segundo ele, mostra prudência, abertura, diálogo e a compreensão que a cúpula católica tem atualmente da ciência. O especialista lembra que, desde o Rituale Romano (que já em 1614 estabelecia regras católicas para praticar o exorcismo) até os dias atuais, o Vaticano insiste para que seja feita uma avaliação médica e psicológica, antes de qualquer procedimento. Ou seja, não nega a dimensão espiritual, mas se preocupa em não confundi-la com fenômenos psíquicos.
Pessoas que falam idiomas que desconhecem, têm força desmedida e aversão ao sagrado já eram descritas na Idade Média. Caldeira considera que revelam algo do inconsciente religioso.
— Na tradição católica, o diabo é uma criatura espiritual real, mas não simétrica a Deus. Ela se manifesta apenas por negação. Então, do ponto de vista histórico, os demônios também são uma linguagem para nomear o mal radical. A possessão também pode ser vista como essa persistência do mal, de forças destrutivas que existem dentro da gente individualmente e coletivamente. E que a racionalidade moderna não consegue domesticar e aprisionar para que não se manifestem — pondera.
Historicamente, o diabo é uma espécie de espelho negativo daquilo que é sagrado. Ele revela essa tensão no humano entre o bem e o mal, e a tensão também entre o humano e o divino.
RODRIGO COPPE CALDEIRA
Historiador, psicanalista e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião na PUC-MG
Caldeira não arrisca explicação definitiva sobre fenômenos como o de pessoas que falam outras línguas, mesmo sem nunca ter estudado idiomas ou dos ataques de fúria contra símbolos religiosos.
— A ciência, no final das contas, não consegue explicar tudo. Existem mistérios que zombam da razão e de sua presunção de domínio explicativo — conclui ele.

O fenômeno na visão de parapsicólogos
Dois outros entrevistados consideram que as possíveis possessões são, em geral, explicadas pelo domínio da mente sobre a matéria de uma forma pouco convencional, um tipo de habilidade inconsciente que é a matéria-prima da parapsicologia (estudo de fenômenos psíquicos e manifestações extraordinárias). É que muitas vezes o incômodo emocional, para quem sofre, pode ganhar a forma de uma suposta possessão, detalha o parapsicólogo paulista Walter Moura, que trabalhou anos com a Igreja Católica.
Outro parapsicólogo, o catarinense Paulo Hentz, que também é historiador e doutor em Pedagogia, lembra que a parapsicologia tem até um termo para ocasiões em que o suposto possuído demonstra muita força física: um estado alterado de consciência chamado sansonismo (palavra derivada de Sansão, personagem bíblico conhecido pela força). É quando, sob pressão, a pessoa consegue arregimentar forças que não conseguiria em condições normais, acrescenta Hentz.
Walter Moura ressalta considerar difícil a humanidade admitir que o ser humano é mau. Então, é mais fácil atribuir maldades a uma questão externa.
— Já presenciei algumas dessas manifestações, são como se fossem transes. Aí, é preciso resgatar a pessoa para o nível de consciência. Até acredito que existe demônio, assim como acredito em Deus. Mas a questão é: o diabo vai se apossar do Zé da Esquina, sem motivo? Mais provável que seja um fenômeno psíquico — conclui.




