
Em dezembro do ano passado, pouco antes do Natal, um caso de envenenamento de uma família com um bolo preparado com farinha com arsênio despertou a atenção do país. O desfecho trágico aconteceu em Torres, no Litoral Norte, e causou a morte de três pessoas.
Mais tarde, a investigação apontou que a mesma mulher, identificada como autora daquele crime, Deise Moura dos Anjos, 42 anos, havia envenenado o sogro, em setembro. O alvo dela seria a sogra, Zeli dos Anjos, que chegou a consumir o bolo, mas não morreu.
Este foi um dos casos registrados em 2024, que integram uma estatística divulgada nesta semana pela Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede). No ano passado, o Rio Grande do Sul registrou o maior número de casos de envenenamentos acidentais ou intencionais da última década.
Foram registrados no Estado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) 378 atendimentos em prontos-socorros relacionados a envenenamentos que evoluíram para internação, em alguns casos com evolução para óbito. No comparativo com 2023, foram registrados 18 casos a mais. Na década, o ano de 2021 foi o que teve menos casos, com 261 atendimentos.
O estudo também aponta aqueles casos em que foi possível constatar que o envenenamento se deu de forma intencional. No RS, foram 109 desse tipo na última década.
No ano passado, foram registrados 14 envenenamentos com intenção. Somente Deise teria sido responsável por envenenar nove em 2024. A mulher foi encontrada morta na prisão, com sinais de enforcamento. Segundo a polícia, ela tirou a própria vida.
Muitos episódios de intoxicação são cometidos intencionalmente, muitas vezes com motivações emocionais ou familiares, e não apenas acidentais. A facilidade de acesso a venenos, a falta de fiscalização e de regulamentação, a impunidade e o uso em contextos íntimos tornam o envenenamento uma arma silenciosa e eficaz.
CAMILA LUNARDI
Presidente da Abramede
Cenário nacional
Com 3.278 registros ao longo da última década, o Rio Grande do Sul aparece como o quarto Estado do país com maior número de casos registrados. Na frente, estão São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Quando se olha somente para os casos intencionais, o RS aparece em nono lugar, atrás de Estados como São Paulo, Minas Gerais e Pará.
O estudo traça ainda o perfil das vítimas de envenenamento no país, seja proposital ou acidental. No acumulado na década, a maior parte dos casos envolve homens (23.796 registros de 45.511). Os adultos jovens, entre 20 anos e 29 anos, correspondem a 7.313 registros. As crianças, com idade entre um e quatro anos, somam 7.204 registros.
Meios utilizados
Sobre o tipo de substância empregada, envenenamentos por produtos químicos não especificados (6.556), relacionados a drogas, medicamentos e outras de origem biológica não especificadas (6.407 casos), e substâncias químicas nocivas não especificadas (5.104) aparecem no topo da lista.
O estudo mapeou ainda as principais causas identificadas em episódios acidentais de envenenamento. Nesse recorte, envenenamentos por exposição a analgésicos e a medicamentos para aliviar dor, febre e inflamação lideram a lista, com 2.225 casos. Na sequência, aparecem episódios envolvendo pesticidas (1.830), álcool por causas não determinadas (1.954) e anticonvulsivantes, sedativos e hipnóticos (1.941).





