
É quase impossível não reparar, mesmo estando em alta velocidade. Vestindo bombachas e com lenço no pescoço, a estátua de 4m50cm de altura retratando um gaúcho tem chamado atenção de quem passa pela BR-290, a freeway.
Trata-se de uma réplica da obra O Laçador, de Antonio Caringi. A peça foi instalada na última semana no posto de combustíveis da Rede Graal, em Gravataí, na Região Metropolitana.
Apesar da semelhança com a estátua esculpida na década de 1950, a representação está dividindo opiniões entre quem passa pelo local. A família do escultor diz não ter sido consultada sobre a reprodução (veja mais abaixo).
— Ele está meio "cheinho", né? Peito largo, braços grandes. Não lembro de o Laçador ser assim — avaliou a motorista Letícia Faial, 44 anos, enquanto abastecia seu carro no posto nesta terça-feira (12).
Em vez do cobre que dá forma a Paixão Côrtes na estátua original, o Laçador da Graal foi feito com fibra de vidro. Dentro do restaurante do posto de combustíveis, o aposentado Tadeu Andrade, 75, defendeu a estátua, mas acha que poderia estar melhor posicionada.
— Deveria ficar mais perto da freeway. Só a enxerguei quando desci do carro. Sou favorável a qualquer obra que homenageie o gaúcho. Essa parece até estar maior — diz Tadeu.
A réplica é poucos centímetros maior do que a obra exposta na zona norte de Porto Alegre, que mede 4m45cm. Encomendada pela Graal no início do ano, a estátua foi executada por uma fábrica do interior de São Paulo, que desenha seus projetos em computação gráfica. Os trabalhos da empresa costumam ser feitos para parques e restaurantes temáticos.
No investimento feito pela Graal, também está a construção de um ponto de parada para carros e ônibus ao lado da estátua. No restaurante que fica dentro do complexo, foram feitas pinturas com referências à cultura gaúcha.
Além da réplica de O Laçador, a Graal já tinha instalado na entrada do posto uma grande cuia de chimarrão com a logomarca da empresa.
Direto autoral
Apesar de já instalada no pátio do posto, o entorno da estátua ainda está sendo enfeitado com colocação de grama. Refletores de luz foram inseridos em volta para iluminar a obra à noite, porém, não há nenhuma referência de que a réplica é uma releitura da obra de Antonio Caringi.
Neta do escultor de O Laçador original, Antonella Caringi diz que o posto não procurou a família antes de encomendar a réplica da obra de seu avô, que tem direitos autorais protegidos. Segundo ela, a representação da Graal precisaria ser licenciada mediante pagamento.
— Nessa documentação, se faz um pagamento. A pessoa paga para ter essa autorização com o reconhecimento ao artista. Vai colocar lá se é baseado, inspirado ou se é uma releitura — explica Antonella.
— Tudo que sai da imagem da obra original é direito autoral da família. Essas coisas que são colocadas à revelia, talvez por falta de conhecimento de que a obra não está em domínio público, não temos poder sobre isso. Mas, sim, de cobrar que ali seja colocada uma referência à obra original e dizer do que se trata: que tipo de reprodução é e o que significa essa figura tão esquisita.

A obra O Laçador exposta na zona norte de Porto Alegre entra em domínio público em 2051 — 70 anos após a morte do autor da obra, em 1981.
Pesquisador e autor do livro A Escultura Pública de Porto Alegre, José Francisco Alves sugere que o posto de combustível tivesse feito sua homenagem através de outra representação:
— A estátua O Laçador é de propriedade da prefeitura, mas os direitos autorais são de propriedade de seus sucessores. Não é possível copiar, banalizar o sucesso de O Laçador. Que se fizesse um outro gaúcho a saudar os passantes. Este em causa é quase todo O Laçador de Caringi. Mesma disposição, quase toda indumentária. Por isso, plágio ou cópia. Que criasse algo novo.
Procurada, a Graal não quis comentar sobre a obra.
Um símbolo gaúcho
Inaugurado em 20 de setembro de 1958, O Laçador marcou as comemorações do 123º aniversário da Revolução Farroupilha (1835-1845). De acordo com o pesquisador Rodrigues Till, com 4m45cm de altura e pesando, em bronze, 3,8 mil quilos, o monumento teve várias denominações: Bombeador, Boleador e, finalmente, Laçador.
Criado no Rio de Janeiro, no ateliê de Caringi, O Laçador esteve exposto no Parque Ibirapuera, no Pavilhão do Rio Grande do Sul, em 1954, durante as festividades do IV Centenário de São Paulo. Depois de ser adquirido pela prefeitura de Porto Alegre, o monumento foi instalado e inaugurado na entrada da Avenida Farrapos.
Antônio Caringi inspirou-se no homem campeiro, tendo como modelo o tradicionalista João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, nascido em Sant'Ana do Livramento no dia 12 de julho de 1927.

Considerado patrimônio da cidade, pela lei complementar nº 279, de 17 de agosto de 1992, O Laçador foi tombado pela Secretaria Municipal da Cultura, de acordo com edital publicado na imprensa em 17 de julho de 2001. Em 1991, por votação popular, o monumento já havia sido eleito símbolo oficial de Porto Alegre, confirmando a expressão Vox populi vox Dei (A voz do povo é a voz de Deus).
Em 11 de março de 2007, o monumento foi transferido para o Sítio do Laçador, localizado em frente ao antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, a uma distância de 600 metros do seu antigo local.
O Laçador encontra-se numa elevação que recebeu a denominação de Coxilha do Laçador. O motivo de sua transferência foi a construção, naquele local, do Viaduto Leonel Brizola.

