
Para quem mora nas regiões de fronteira ou está a passeio pelas beiradas do Rio Grande do Sul, fazer compras no país vizinho pode ser opção de economia em produtos importados. Mas há diferença entre as lojas francas argentinas e uruguaias? E nos free shops brasileiros, em expansão?
O funcionamento tende a ser o mesmo nas estrangeiras, inclusive nas regras fixadas para limites de compras dos visitantes — de US$ 500 por pessoa. O que varia é a quantidade de produtos. E o perfil deles. Zero Hora visitou unidades nas fronteiras com Santana do Livramento, em Rivera, e em Paso de Libres, vizinha a Uruguaiana.
Free shops completos no Uruguai
As características e o porte das lojas variam de cidade para cidade. No lado uruguaio, Rivera é um dos principais polos de compras para turistas e apresenta uma gama diversa de lojas, com produtos que vão do alfajor simples aos eletros para casa. As compras nos locais são vetadas aos uruguaios, com o funcionamento sendo voltado apenas a estrangeiros.
Diretor do Shopping China no Uruguai, Hugo Rafael Lesme Marquez diz que o forte são eletrodomésticos, bebidas e itens de cuidado pessoal. A rede com sede paraguaia possui duas lojas fronteiriças ao RS, uma em Rivera e outra no Chuy.
Os aparelhos de ar-condicionado, grande chamariz de brasileiros, costumam ser entre 60% e 80% mais baratos no lado uruguaio, garante o diretor. Os televisores smart chegam a custar a metade, em comparação ao preço pago no Brasil.
— O consumidor brasileiro vem muito focado em economizar para justificar a viagem, já sabendo o que vai comprar. Mas chegando aqui se surpreende com a diversidade e fica maravilhado — relata Marquez.
De passagem por Rivera antes de expor em uma feira binacional em Livramento, Raquel Pellegrini e Silvonei Zanon, proprietários de uma agroindústria em Paraí, olhavam atentamente os preços de ar-condicionado antes de comprar. Optaram por um aparelho de R$ 1,7 mil, que no Brasil encontraram por R$ 2,3 mil.
Dependendo da loja, é possível pagar no chamado “Pix internacional”, com taxas embutidas na hora da transação. A modalidade estrangeira do sistema de pagamento ainda não é regulada pelo Banco Central, mas o uso é crescente nos países vizinhos. É preciso estar atento a tarifas adicionais cobradas pelos lojistas no serviço.
Na Argentina, os vinhos
Cruzando para o lado argentino, as opções visitadas pela reportagem na fronteira com Uruguaiana são mais restritas. Não há free shops em Paso de Los Libres. O foco na cidade são as chamadas bodegas ou vinotecas, que vendem vinhos a preços competitivos, mesmo sem a vantagem da isenção dos impostos de importação.
Para os turistas brasileiros que cruzam a Ponte Internacional em busca de economia, a variedade de rótulos nem sempre encontrados no Brasil acaba justificando a investida. As garrafas custavam entre R$ 15 e R$ 1,6 mil nas lojas visitadas.
Na vinoteca San Cayetano, em Paso de Los Libres, o argentino Fernando Lorca diz que as vendas são basicamente para brasileiros. A procura é frequente o ano todo, mas aumenta no inverno. As garrafas chegam a ser três vezes mais baratas do que no Brasil, mesmo nas lojas que não são free shops. Na San Cayetano, são 900 rótulos disponíveis, entre vinhos e espumantes.
— É um consumo pessoal, mas muito aquecido. Os que vêm de mais longe são os que compram em maior quantidade, no limite da cota, para valer a pena — diz Lorca.
Celebrando 44 anos juntos, o casal Nilza Neckel, 64 anos, e Alfredo Hess Neto, 70, de Joinville, entrou na loja com uma lista de compras em mãos. Saíram satisfeitos com o que encontraram na primeira viagem a Paso de Los Libres.
— Viemos buscar vinhos “y otras cositas más” — brincou o marido.
Do lado de cá

Nos free shops brasileiros, onde as regras permitem as compras por clientes de nacionalidade local, a variedade de produtos importados se assemelha às lojas uruguaias. Doces, chocolates, bebidas, perfumes, maquiagens, eletrônicos e roupas estão entre os principais atrativos.
As lojas brasileiras também têm focado na experiência dos compradores, apostando em lojas amplas e com espaço para provar os produtos. Além disso, oferecem vantagens na hora do pagamento. Ao contrário das lojas estrangeiras, é possível parcelar os valores e comprar no cartão sem as taxas de IOF, além aceitarem o Pix.
— Sortimento, preço e experiência são o pulo do gato. Não é a quantidade de lojas que importa, mas a entrega de produtos de qualidade e a preços melhores — diz Paulo Pavin, proprietário da rede Bah Free Shops, sobre o que atrai os consumidores.
No RS, as 11 cidades habilitadas para terem free shops são: Aceguá, Barra do Quaraí, Chuí, Itaqui, Jaguarão, Porto Mauá, Porto Xavier, Quaraí, Santana do Livramento, São Borja e Uruguaiana.
O que são free shops de fronteira terrestre?
- Instalados em cidades brasileiras gêmeas a municípios estrangeiros, os free shops de fronteira terrestre são permitidos por lei regulamentada em 2018.
- O regramento garante a isenção de alguns impostos embutidos nas mercadorias.
- Na prática, significa comprar produtos de marcas estrangeiras sem as taxas de importação.
- Nos free shops brasileiros, ainda há outra vantagem: as lojas francas vendem na moeda nacional, o real, o que dispensa pagamento de IOF.
- Na venda, as empresas pagam apenas PIS, Cofins e um percentual sobre a receita bruta para o Fundaf, gerido pela Receita Federal.
- A lista de itens à venda é extensa e variada. Vai de perfumes e cosméticos a eletrônicos, passando por doces e bebidas.
- Nos free shops terrestres de Uruguai e Argentina, somente estrangeiros, como os brasileiros, podem comprar.



