Cerca de 15 meses depois da enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul, uma das principais rodovias da região central do Estado depende de cinco desvios emergenciais, uma ponte provisória e infindáveis cones dispostos às margens da pista para compensar os estragos deixados pelo aguaceiro e garantir a circulação de veículos e o transporte de mercadorias.
Moradores e empresários das cidades à beira da RS-287 se queixam da demora para a realização de obras definitivas de recuperação ao longo do trecho Tabaí-Santa Maria — um percurso de 204 quilômetros que também passa por serviços de duplicação em duas frentes simultâneas de trabalho: Tabaí e Santa Cruz do Sul. O avanço da ampliação é visto com otimismo pelos representantes das comunidades, mas redobra a necessidade de cuidado por parte dos motoristas.
A RS-287 foi uma das rodovias mais danificadas pela enxurrada que afetou de alguma forma uma malha viária de 11,5 mil quilômetros em todas as regiões gaúchas, conforme levantamento do Mapa Único do Plano Rio Grande (MUP/RS). A força da água corroeu o asfalto em diversos pontos e, em parte deles, chegou a levar de arrasto até o leito da estrada. Para recuperar o mais rápido possível a passagem de veículos, foram construídos desvios emergenciais, geralmente com algumas centenas de metros, que passam ao lado do antigo traçado destroçado pelo dilúvio.
Três dessas passagens provisórias persistem em um trecho de apenas três quilômetros na localidade de Mariante, em Venâncio Aires. Há ainda outra em Candelária e mais uma no limite entre Novo Cabrais e Paraíso do Sul (veja mais detalhes no infográfico abaixo). Esses desvios, asfaltados, são antecipados por placas de aviso e delimitados por cones de sinalização, mas não contam com acostamento. Há ainda um sexto desvio, adotado em julho, mas que não tem relação com a tragédia climática: serve para permitir a instalação de um sistema de pesagem de caminhões em movimento.
Representantes das cidades localizadas ao longo do percurso se preocupam com a demora para a recomposição da via.
— Conseguiu se recuperar a rodovia, provisoriamente, depois da cheia. Mas, depois disso, não houve evolução. Como os desvios foram construídos em um nível abaixo da pista original, também temos receio de que uma nova chuvarada cubra a estrada nestes pontos. Pagamos um pedágio elevado para ter uma estrada em condições, mas segue desse jeito mais de um ano após a enchente — afirma o empresário Charles Fengler, porta-voz de um grupo de empreendedores de Venâncio Aires.
No intervalo de concessão da RS-287 à empresa Rota de Santa Maria, há cinco praças de pedágio que cobram R$ 5 pela passagem de carros de passeio — valor que pode chegar a R$ 30 para caminhões de maior porte.
Morador de Venâncio, Marciano André Becker, 52 anos, trabalha em uma serraria ao lado de um desvio sinuoso.
— Desde o começo do ano, dois carros já caíram no nosso pátio. Um deles era de uma família argentina, com um casal e três filhos no banco de trás. Ficaram muito assustados. Um dos problemas, além da falta de acostamento, é que muitos condutores não respeitam o limite de velocidade nesses locais — avalia Becker.
Embora a maior parte da estrada permita velocidade de até 80 km/h, nos trechos provisórios esse patamar recua para 40 km/h para reduzir a insegurança. Poucos veículos, porém, respeitam a sinalização. Por orientação do Comando Rodoviário da Brigada Militar, Zero Hora encaminhou um pedido de informações sobre a quantidade de acidentes entre Tabaí e Santa Maria nos primeiros meses deste ano em comparação com 2024, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Na região de Santa Maria, a comunidade ainda aguarda a reconstrução da ponte definitiva sobre o Arroio Grande. Derrubada pela força da água, a estrutura foi substituída por uma construção metálica temporária erguida pelo Exército. Inicialmente, havia uma plataforma apenas, o que exigia um sistema de pare e siga. Em outubro do ano passado, a montagem de uma segunda passagem liberou o fluxo nos dois sentidos. Porém, como as estruturas são estreitas e mais elevadas em relação ao nível da pista, levam à diminuição da velocidade principalmente de veículos maiores. Destroços da antiga estrutura de concreto e asfalto ainda podem ser vistos junto ao leito do arroio.
— Somos um polo do Interior, e moradores de cidades vizinhas não têm condições de chegar aqui com tranquilidade. Nossas estradas estão em construção constante, esburacadas. Temos uma ponte do Exército que foi colocada logo depois que a original foi levada, e até hoje não temos previsão de quando começarão as obras da nova estrutura — lamenta a presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Santa Maria, Maria Elizabeth Flores.
O prefeito de Santa Maria, Rodrigo Decimo, afirma que vem dialogando com o governo do Estado para buscar apoio político em favor do início das obras definitivas:
— Tivemos já a oportunidade de ir a Porto Alegre conversar com o secretário da Reconstrução, Pedro Capeluppi, e já realizamos também reuniões com o próprio governador a respeito desse assunto, sobre a importância dessas obras e do restabelecimento dessa ligação numa condição normal (...). A rodovia não oferece as melhores condições, até por conta da sinalização nos trechos com desvio.
A concessionária Rota de Santa Maria prevê a entrega dos primeiros trechos de duplicação ainda em agosto (veja mais detalhes abaixo), mas nem a empresa, nem o governo estadual, informam datas precisas para o começo ou o término das obras definitivas de recuperação dos danos causados pela tragédia climática de 2024.
O que diz a Rota de Santa Maria
Projetos de reconstrução
Por nota, informa que "os projetos executivos para as obras de reconstrução e adaptação da rodovia nos trechos afetados pelas enchentes já foram desenvolvidos pela concessionária e estão em processo final de análise junto à Secretaria da Reconstrução Gaúcha. Não será feita uma simples reconstrução das estruturas destruídas, mas sim a implementação de obras mais robustas com o objetivo de conferir a característica de resiliência climática à rodovia (...). O início das obras depende da superação da etapa de aprovação dos projetos de engenharia e alguns trâmites necessários junto ao Governo do Estado para execução desses novos investimentos através da Concessionária."
Duplicação
"Os trechos em duplicação nos municípios de Tabaí e Santa Cruz do Sul totalizam aproximadamente 6 quilômetros de novas pistas e seguem em ritmo acelerado, já em fase final de execução. A previsão é que ambos sejam concluídos e liberados ao tráfego até o final deste mês de agosto."
O que diz o governo do RS
Situação geral e nova ponte
A Secretaria da Reconstrução Gaúcha (Serg) informa que "a RSC-287 foi uma das rodovias mais afetadas pela catástrofe climática de maio de 2024, a maior chuva já observada no país, segundo relatório publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Mesmo em um cenário adverso e sem precedentes, a estrada foi totalmente liberada ao tráfego em 40 dias (7 de junho de 2024) e assim segue desde então. Os desvios realizados pela concessionária Rota de Santa Maria, que administra a rodovia, em Santa Cruz e Tabaí, são acompanhados e fiscalizados pelo poder público e se fazem necessários devido às obras de duplicação, que estão em fase final.
Em relação a implementação de uma nova ponte sobre o Arroio Grande, a Serg informa que já emitiu, em abril deste ano, liberação para início das obras no local. A pasta ressalta que, no momento, não é necessária a aprovação do projeto restante do trecho de duplicação, que está em análise, para iniciar a obra."
Outros pontos
"Desvio nas imediações da ponte sobre o Arroio Barriga: projeto aprovado da nova ponte e entorno sendo avaliado.
Desvios em Candelária e Venâncio Aires (localidade de Mariante): fase final de ajustes no projeto, em razão de adaptação à diretrizes de resiliência climática."




